Roteiro de um cidadão
VIAGEM AO PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO DE MACAU



Texto e Fotografias de António Conceição Júnior
Nota: Os itinerários aqui referidos estão bem longe de esgotar o tema. Resultam apenas de limitada disponibilidade temporal.

1. Entre memória e mudança

Decididamente, deixar o coração da cidade e vaguear pelas veias da sua malha urbana em trajectos onde a revisitação se faz dupla, pela imagem e pela sensorialidade de um corpo de memórias de quem, sendo transeunte da cidade e obrigatoriamente da vida, se quis constituir em cidadão.

É indiscutível para mim que, mais do que a fachada da Igreja da Madre de Deus de São Paulo, cliché que me satura pelo abuso do uso, o trajecto pedonal entre o Largo do Senado e a igreja de S. Domingos constitui o reatamento de uma atmosfera e de um contrato urbano que se torna num dos elementos referenciais de Macau: uma aragem mediterrânica e intemporal, um clima que convida ao usufruto desse espaço matricial de grande parte da cidade.
O quiosque pouco frequentado, como que escondido envergonhadamente por baixo de frondosa árvore, faz-me recordar que cheguei a propor, quando exercia funções no então Leal Senado, a concessão de alvarás para que os cafés e leitarias existentes pudessem criar esplanadas cá fora, oferecendo-se ao usufruto dos transeuntes, ainda o percurso não era pedonal. Recordo-me que fizemos o primeiro espectáculo de animação urbana por volta de 1984. Marionetas, mimos, música. Apenas um singelo palco sobre a fonte que existia, nada de cenários que o largo sempre foi isso mesmo, não uma sala de espectáculos, que agora felizmente também as há.
Sempre entendi que espaços como este são de fruição, e qualquer acto de liberalização do comércio só vem convidar ao entendimento de que, afinal, gestos culturais não são assim tão transcendentes nem complicados. Apenas precisam de que não engravatem o quotidiano em formalismos desnecessários. E por favor deixem estar as tendas de jornais, e os adivinhos, mas criem esplanadas onde o convívio atinja maior intensidade, que o largo é para fruir.
Deu gosto ver a casa de min elegantemente decorada, organizada com extremo requinte. Ah, com que gosto a descobri, minuciosa e orgulhosamente chinesa, contiguidade de afectos e de sabores que dão a tónica à cultura desta cidade, prometendo-me ir prová-la em breve. Lentamente vai-se criando uma tendência para o retorno às origens, identidades afirmando-se no convívio das diferenças.
Duas surpresas me aguardavam na Almeida Ribeiro: o aproveitamento criterioso de uma loja quase contígua à Rua Camilo Pessanha para Clube Cultural, empreendimento inteiramente privado. E, tristemente, o encerramento da Tabacaria Filipina, último testemunho de uma era. Quase diria que mais valera que pagassem para que aquela velha casa se mantivesse anacronicamente aberta. Há exemplares que datam do tempo do Hotel Riviera que necessitariam de se manter vivos, testemunhos vivos de um tempo suspenso pelo fio de uma última memória.
Descendo de novo a Almeida Ribeira flecti à esquerda para me dirigir à Rua da Felicidade e me banhar naquele belíssimo vermelho e sentir o calor reflectir das paredes alvas. Por momentos desejei que, tal como na Rua de Santo António se concentraram os antiquários, talvez alguns serviços fizessem o que deveriam fazer: propor fórmulas de encorajamento ao renascimento
daquilo que foi aquela rua. Talvez bastasse incluir obrigatoriamente no circuito turístico a Rua da Felicidade para que a industriosa população se lembrasse de reconverter as casas em restaurantes ou em pensões ou hospedarias, de luxo e porque não, para que num ápice e por simpatia, se dessa à casca o fruto que falta. Nada como encorajar a criatividade dos privados em vez de querer ensinar o padre-nosso ao vigário no que diz respeito ao modo como devem os visitantes ser tratados, como se a população, e os comerciantes em particular, fosse um bando de retardados.
Mais valera que se exercesse uma dura fiscalização sobre alguns operadores turísticos e se intensificasse a verificação da qualificação dos guias turísticos, que estes meus ouvidos já ouviram enormidades ditas impunemente em plena escadaria das inevitáveis ruínas de S. Paulo.
Respirando ainda alguns contos do nosso Henrique de Senna Fernandes, apurando o ouvido à espera do gemido de uma Pei-pa, regressei ao largo e subi a calçada do Tronco Velho onde fora o Notícias de Macau.

O LARGO DO SENADO
O DISCRETO QUIOSQUE
AQUI, O OCRE DAS ARCADAS
A RETOMA DOS SABORES
O CLUBE DE CULTURA
Chegado ao topo, voltei a sentir a aprazibilidade do Largo de Santo Agostinho. A velha Escola Comercial recuperada para um banco, um percurso pedonal amplo onde outro quiosque jaz ao sol, fechado, uma tabuleta prometendo refrescante chá talvez, à espera de melhores dias, quando alguém quiser pegar a sério no Teatro Dom Pedro V e o resgate à obscuridade.
Logo a seguir fui espreitar o simpático interior da Casa Ricci, o pátio oferecendo-se à frescura da sombra de uma frondosa árvore.
Mesmo ao lado, naquela casa onde em criança brinquei com os miúdos da família Batalha, procedem-se a obras de recuperação da Biblioteca Sir Robert Ho-Tung, facto que não posso deixar de assinalar como extremamente positivo.
A fachada do edifício já está recuperada e pela actividade, as obras prosseguem no interior.
Nesta contiguidade de absoluta coerência revejo a fachada da igreja de Sto. Agostinho emoldurada por candeeiros com vasos de sardinheiras. E, mesmo ao lado, um portão se abre, para deixar rever, verde e vetusta, a fachada principal do Teatro, também Clube de Macau. Tantas memórias, desde os casamentos até às récitas de onde o Adé irrompia insolitamente da plateia, por detrás dos espectadores para iniciar a récita em patois.
Desci a rampa que dá para a Rua Central onde ainda subsiste a casa do Moosa & Cia. Lda., conforme reza a tabuleta, cujo filho vinha passear a cadela ao Largo de Sto. Agostinho. Disse- -me uma amiga chinesa que a mãe adorava Alua, quando viu a foto da modesta fachada, mas que agora era difícil comprar.
Se tudo mudou, muito subsiste, e não deixa de ser interessante que todo o esforço de recuperação destas obras, como adiante se verá, tem vindo a ser desenvolvido pelo Governo da Região Administrativa Especial de Macau.
LARGO DE STO. AGOSTINHO
TEATRO D. PEDRO V
Imagens de memória BIBLIOTECA HO-TUNG

A memória constitui a referência colectiva que, na aprazibilidade e conforto de uma frondosa sombra, permite que se beba da fonte para que o relançamento da cidade seja, mais do que um dúbio desenvolvimento, o exercício contemporâneo de uma identidade

PÁTIO DA CASA RICCI IGREJA DE STO. AGOSTINHO ENTRADA DO TEATRO
2. Recuperação e usufruto

É condição humana o regozijo com o elogio e irritação com a crítica ou o mero reparo.
Contudo ao cidadão seja-lhe reconhecido o direito de pensar, de discordar ou de sugerir. Não é prática política, e mesmo que fosse. Mas é mero exercício de cidadania, um inestimável bem que muito prezo.
Soube a pouco a visita, pelo que no dia seguinte resolvi dirigir-me ao Largo do Lilau, lugar onde também vivi três anos da minha meninice.
Contornei a igreja de S. Lourenço e encaminhei-me em direcção à Barra pela longa Rua do Padre António onde eu soubera de cor quase todas as casas que já se foram.

Quase a chegar, vi um conjunto de casas cinzentas que eu bem conhecera. Uma vedação de madeira deixa-me o coração dividido entre a esperança de ser o início de uma recuperação e não o fim das mesmas. Por detrás, medonhos monstros gradeados espreitam gulosamente. Oxalá seja a sua preservação.
Eis-me no Largo do Lilau . As árvores ainda lá estão, mas o vendedor de torradas feitas em forno de carvão é uma memória. O largo está pedonal também, e novo quiosque se planta debalde, fechado também. Ao fundo uma enorme placa neutra oferece duas bicas da fonte do Lilau, para quem quiser cumprir o ritual de dela beber.
Olho as casas de cor ocre e apesar de recuperadas, estão vazias. Numa delas vivia a D. Belarmina Marques e a sua irmã, casada com um senhor de apelido Albuquerque.
Nada lhes dá vida. O próprio largo parece morto, despovoado quase. À esquerda da fonte noto outra casa recuperada. Quando era garoto era um aglomerado de acrescentos. Está bonita em branco e ocre, habitada, a porta dando directamente para o largo. Uma luz estranha alumia o ambiente, interferindo mesmo na fotografia.
Olho pela rampa de dava para casa da família Jorge, de José Vicente Jorge, casarão enorme em cuja parte de casa alugada, enorme, vivi.
A casa já não existe, nem o jardim nem a garagem ou o portão. Um qualquer hediondo pato-bravo fez um ganancioso monstro de bocarra aberta. Mas bem mais humilde e resistente é a casa da família Remédios que tinha um filho da minha idade. Assente sobre uma rocha, os degraus toscamente escavados nela, subsiste ainda, a lembrar-me que talvez George Chinnery a tenha desenhado.
Permaneci no largo longo tempo, olhando à minha volta. Também aí está uma das casas da família Senna Fernandes onde a Gaby morava. Lá está a inscrição do ano de construção:1898.
Ainda fui à "Casa do Mandarim" a Cheang Ka Chi.
Estava fechada para obras. Bom sinal, auguro eu. Que seja Museu ou restaurante, ou ainda hospedaria de luxo.
Desta romagem me detenho a reflectir e pensar como pensava quando discutia com o Chico Figueira, então Chefe do Departamento de Património. Continuo a pensar o mesmo:
Primeiro, que restaurar não chega. O D. Pedro V é disso bom exemplo. Todos ganhavam em chegar a um entendimento. Aquelas casas do Lilau precisam de vida, de gente. Ponham as casas a uso. Façam ateliers para artistas numa, ponham o Clube de Jazz noutra, dava também jeito ter ali um restaurante.

QUE FUTURO DESTE PASSADO?
O LARGO DO LILAU
TESTEMUNHOS VAGOS
VIVIFICAR É PRECISO E porque não um hotel tipicamente macaense?

Até com o menino Jesus de Praga e o Sto. António em cima da cómoda. Diversifiquem mas ocupem. Ofereçam ou ponham a concurso. Para já não falar no bairro de São Lázaro. Tanto desafio, tanto para dar onde a terra escasseia e o pato-bravo espreita.
A IGREJA DE S. LOURENÇO

A CASA DOS REMÉDIOS

CASA SENNA FERNANDES