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É indiscutível para mim que, mais do
que a fachada da Igreja da Madre de Deus de São Paulo, cliché que me
satura pelo abuso do uso, o trajecto pedonal entre o Largo do Senado e a
igreja de S. Domingos constitui o reatamento de uma atmosfera e de um
contrato urbano que se torna num dos elementos referenciais de Macau: uma
aragem mediterrânica e intemporal, um clima que convida ao usufruto desse
espaço matricial de grande parte da cidade.
O quiosque pouco frequentado, como que escondido envergonhadamente por
baixo de frondosa árvore, faz-me recordar que cheguei a propor, quando
exercia funções no então Leal Senado, a concessão de alvarás para que os
cafés e leitarias existentes pudessem criar esplanadas cá fora,
oferecendo-se ao usufruto dos transeuntes, ainda o percurso não era
pedonal. Recordo-me que fizemos o primeiro espectáculo de animação urbana
por volta de 1984. Marionetas, mimos, música. Apenas um singelo palco
sobre a fonte que existia, nada de cenários que o largo sempre foi isso
mesmo, não uma sala de espectáculos, que agora felizmente também as há.
Sempre entendi que espaços como este são de fruição, e qualquer acto de
liberalização do comércio só vem convidar ao entendimento de que, afinal,
gestos culturais não são assim tão transcendentes nem complicados. Apenas
precisam de que não engravatem o quotidiano em formalismos desnecessários.
E por favor deixem estar as tendas de jornais, e os adivinhos, mas criem
esplanadas onde o convívio atinja maior intensidade, que o largo é para
fruir.
Deu gosto ver a casa de min elegantemente decorada, organizada com extremo
requinte. Ah, com que gosto a descobri, minuciosa e orgulhosamente
chinesa, contiguidade de afectos e de sabores que dão a tónica à cultura
desta cidade, prometendo-me ir prová-la em breve. Lentamente vai-se
criando uma tendência para o retorno às origens, identidades afirmando-se
no convívio das diferenças.
Duas surpresas me aguardavam na Almeida Ribeiro: o aproveitamento
criterioso de uma loja quase contígua à Rua Camilo Pessanha para Clube
Cultural, empreendimento inteiramente privado. E, tristemente, o
encerramento da Tabacaria Filipina, último testemunho de uma era.
Quase diria que mais valera que pagassem para que aquela velha casa se
mantivesse anacronicamente aberta. Há exemplares que datam do tempo do
Hotel Riviera que necessitariam de se manter vivos, testemunhos vivos
de um tempo suspenso pelo fio de uma última memória.
Descendo de novo a Almeida Ribeira flecti à esquerda para me dirigir à
Rua da Felicidade e me banhar naquele belíssimo vermelho e sentir o
calor reflectir das paredes alvas. Por momentos desejei que, tal como
na Rua de Santo António se concentraram os antiquários, talvez alguns
serviços fizessem o que deveriam fazer: propor fórmulas de
encorajamento ao renascimento
daquilo
que foi aquela rua. Talvez bastasse incluir obrigatoriamente no
circuito turístico a Rua da Felicidade para que a industriosa
população se lembrasse de reconverter as casas em restaurantes ou em
pensões ou hospedarias, de luxo e porque não, para que num ápice e por
simpatia, se dessa à casca o fruto que falta. Nada como encorajar a
criatividade dos privados em vez de querer ensinar o padre-nosso ao
vigário no que diz respeito ao modo como devem os visitantes ser
tratados, como se a população, e os comerciantes em particular, fosse
um bando de retardados.
Mais valera que se exercesse uma dura fiscalização sobre alguns
operadores turísticos e se intensificasse a verificação da
qualificação dos guias turísticos, que estes meus ouvidos já ouviram
enormidades ditas impunemente em plena escadaria das inevitáveis
ruínas de S. Paulo.
Respirando ainda alguns contos do nosso Henrique de Senna Fernandes,
apurando o ouvido à espera do gemido de uma Pei-pa, regressei
ao largo e subi a calçada do Tronco Velho onde fora o Notícias de
Macau. |