ULTRALIGHT, O VÃO DA LUZ

Que forma teria uma interrogação acerca da luz? Teria, talvez, a forma residual de um encontro, tal como nesta sequência de imagens - Primum Lumen.
A um encontro com a luz gostaria de dar o nome de coincidência. Ou seja, um evento, composto por duas incidências, localizado no espaço/tempo: de um lado o incidir da luz, do outro o incidir da percepção da luz. Desconheço se, no exterior de um campo de metafísica, ou de um terreno que fosse condicionado por uma certa ideia de transcendência, não teríamos simplesmente de nos calar, cientes da hubris de tentar a descrição mais profunda, e necessariamente mais forçada, desse evento chamado co-incidência. É muito possível que sim.
Ao mesmo tempo, a coincidência parece ser, precisamente, o momento justo para abdicar da pergunta pela causa próxima ou última e para interrogar apenas o instante e descobrir, nesse processo, a nua escassez de um vocabulário e de uma precária gramática no seu fabrico, uso e limite quase estritamente pessoais; à beira do incomunicável, e desde logo no que respeita à comunicação consigo próprio.
Essa é a primeira regra do jogo que poucos se atrevem jogar com a atençãoi.

A segunda regra, quase uma regra de cidadania, diz: permanecer na coincidência que coincide é abandonar-se e, desse modo, necessariamente, deixar de lado a construção de sistemas teológicos e/ou teleológicos, cuja função derradeira é a domesticação da coincidência e/ou a sua demonização enquanto acaso. Para combater o ‘acaso’, os sistemas de crença produziram o conceito de milagre, que serve o propósito de uma renegociação com o mistério, enquanto natura, transformando-o no sacrum, no secreto. Num mundo sacralizado, não há co-incidência, há apenas procedimentos administrativos entre humanos e humanos, entre humanos e deuses, entre humanos e natureza. Daqui deriva, também um outro aspecto curioso, um outro automatismo no seio da linguagem e da própria arte (instaurando a noção de arte pura ou de gesto artístico puro), isto é, a frequente associação de ‘luz’ e ‘milagre’, que não passaria de má poesia, não fossem as implicações mais profundas que teve e tem no condicionamento da praxis ética e da experiência espiritual, feitas reféns da crença num arbítrio transcendente, alheio, derradeiro, inelutável.


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Portanto, para já, temos estes dois focos, estes dois cones – luz e sua percepção - cujos vértices se tocam num só ponto, mensurável apenas até uma certa escala além ou aquém da qual a sua existência se torna intangível na ocorrência da fusão em que o encontro da luz se metaboliza, digamos assim, quando um sujeito lhe dedica mais que uma mera atenção furtiva.
O mesmo se poderia dizer do encontro da atenção extrema com qualquer objecto, pois esse ponto único é onde se jogam em mútua presença o humano e o inumano.
Com as suas frequências, a maior parte das quais não apercebemos, a luz nos rodeia e penetraii. Existe mesmo uma luz que o cérebro parece exsudar na escuridão profunda, e do interior da própria cegueira.

Movemo-nos na luz democrática e habitual de todos dias, mal conscientes da consciência, criaturas de pura distracção. Intocáveis na distracção. Impermeáveis ao que não seja estímulo convencional, presos a um léxico de intensidades e aprazibilidades de que não somos autores.
Primum Lumen, é uma sequência, feita de e com tão pouco que o verbo ‘fazer’ não tem mais que uma presença espectral. Trata-se de um ensaio na contra-dicção da abundância sensorial que parece crescentemente ditar as leis que fazem as reacções no interior de um coração humano.
Toda uma retórica e toda uma política das sensações cega a civilização. Paradoxalmente, assistimos a uma involução em que o humano, em toda a sua extensão, parece retornar a um estado meramente reactivo. Em cada vez mais instâncias se participa de uma civilização reaccionária, na qual o valor da co-incidência está ausente.
E, insista-se, o poder transformativo, trans-figurativo, do coincidir reside talvez num certo abandono. Num abraçar, mas também num sucumbir ao abraço das possibilidades que já estão aí assim como ao das que se anunciam no nosso horizonte de abertura, mais sob o ponto de vista da sua interligação em cadeia do que da sua atomizaçãoiii.
Tratar-se-ia de um quietismo eminentemente activo, aquele que informa gestos como este, que guardam os traços de uma presença que não é mais, que se vai erguendo e cessando, e velam pela sua passagem à memória, como quem escoltasse por alguns passos o próprio caminhar. E nada mais.

“ Creio que o belo não é uma substância em si, mas apenas um desenho de sombras, um jogo de claro-escuro […] o belo perde a sua existência se lhe suprimirmos os efeitos de sombra,” escrevia Junichiro Tanizaki em 1933, na sua obra In’ei Raisan (O Elogio da Sombra), ante a devassa dos interiores domésticos tradicionais, dos seus recantos e objectos, pela electricidade.
A terceira regra do jogo da atenção (à luz) são as sombras.
Nesta sequência de fotografias, as duas produzem teias, manchas, recortes, texturas, irrupções, mapas, tracejados.
Num interior matinal, a primeira luz é primeira sombra, afastando a granulada, indecisa penumbra da noite para consumar o agon do claro-escuro, do velar e desvelar cujo ritmo e frequência induzem uma intimidade acrescida com o correr do tempo que povoamos e nos despovoa.
Este observar, e registar, da ondulação da luz-sombra recorda ainda a intuição de Marcel Duchamp (1937) relativamente àquilo a que chamou de infra-mince, os infra-finos ou infra-leves, uma categoria de estados de coisas no limite do tangível, mas não inteiramente insubstanciais: moléculas do gosto de uma boca deixadas no fumo de um cigarro; a alteração de volume numa camisa nova usada apenas uma vez, vestígios do calor de um beijo, etc.
Também em Primum Lumen há algo no limite da tangibilidade: a suposição das superfícies onde pairam as formas, o tremor das partículas luminosas, a dentição das sombras, o panejamento das temperaturas da luz, as diferentes velocidades e espessuras da luminescência, e a aliança destes aspectos com um peculiar elemento quase audível destas imagens; como se estas se encontrassem assinadas por uma vibração aural.
Assim, o significado da luz primordial, Primum Lumen, que designa esta sequência, parece encontrar-se aí onde ‘primordial‘ tem o sentido de perpétua passagem e não de ponto fixo original, onde é encontro e labor e não decreto. Onde é certamente enigma, mas não mandato secreto.

A luz procura o seu caminho até que algo a detém, e essa é já uma forma de extinção. Um homem vai no seu caminho enquanto nada o detém. Quando incidem, algo luz em pequenos incêndios dos dois.


Rui Cascais Parada

Bangkok, Abril 2008


 


i “No pensar todas as coisas se tornam solitárias e lentas,” escreve Martin Heidegger num breve poema de 1947. Ao jogo da atenção os mesmos dois adjectivos se poderiam aplicar para descrever a tensão sustentada que exige e o recolhimento que constitui a sua fonte e fundação mais segura.

ii O olho humano detecta apenas uma pequena porção do espectro de ondas electromagnéticas, a porção com comprimentos de onda localizados entre os 0.00038 milímetros e 0.00075 milímetros. Essa secção é conhecida por luz visível e nela é possível distinguir cerca de dez milhões de variações. A percepção da totalidade do espectro de luz visível no seu conjunto é designada por branco”. Na ausência de certos comprimentos de onda os olhos apercebem o espectro como sendo colorido. Ao ver a cor vermelha, por exemplo, estamos de facto a ver o comprimento de onda de cerca de 0.0007 milímetros do espectro electromagnético numa situação em que os restantes comprimentos de onda estão ausentes.

iii Será talvez interessante assinalar aqui, relativamente às ideias de cadeia interligada e de fragmento atomizado utilizadas no texto, o seu paralelismo em termos de teoria do movimento e de cinema e numa comparação e diferença decisiva entre pensamento oriental e ocidental. Enquanto que do ponto de vista de, por exemplo, Henri Bergson o movimento do filme é ilusão criada pela velocidade de sucessão de fotogramas numa certa unidade tempo e os fotogramas individuais são reais, do ponto de vista da fenomenologia budista (particularmente no Abidhamma) o ‘filme’ seria real, mas os seus constituintes individuais (os seus ‘átomos’, ou fotogramas), sendo desprovidos de si próprio (anatman, em sânscrito: sem alma, sem eu), seriam ilusórios. Ou seja a corrente, ou cadeia interdependente, da vida é real – ao contrário do comummente aceite dictum de que para o pensamento oriental “o mundo é ilusório” – e a ilusão reside no não entendimento de que é, simultaneamente, vazia pois desprovida de uma essência constituinte estável ou eterna supostamente situada fora do alcance dos sentidos emanando de um mundo invisível e fundador.

 

 

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