A LUZ INICIAL DA MANHÃ


O que mais me arrebatou nestas imagens foi o seu poder de sugestão.
Poder que cada vez mais se fez sentir, em cada uma das muitas e muitas vezes que as visionei no computador: a superfície arrepiada das águas, sulcadas por quilhas de destino ignorado; a atmosfera de abandono e neblinas de pó, sob telheiros (agrícolas?) abandonados, habitados de mistério, propiciando os maiores segredos; a luz matinal rompendo em névoas o negrume de bosques antigos; cortinas, translúcidas como membranas sopradas, coalhando a luz em janelas de aposentos sombrios; feixes desfocados de imagens tremidas, captadas como que numa viagem de comboio ao rés de folhagens indefinidas; recantos de jardins em que, ao fim do dia, as sombras se alongam e ganham o corpo dos troncos, erguidos negros e espessos - enfim, tudo aquilo que o nosso olhar alcança, quando o entendimento busca nos depósitos da memória longínqua.

Mas estão também nestas imagens - e com a força das evidências - evocações do registo mediado pela descoberta da visão fotográfica, da gravura a ácido e da litografia, num inesperado efeito de colorido à mão, como que sobre imagens a negro, tão subtis se apresentam tonalidades de finíssima cor (cinzas, rosas, esverdeados de jade, azuis líquidos, ocres) e ainda uma memória do Cinema, representada pela sua célula essencial - o fotograma - que me parece impossível não se sentir sugerida e sublinhada pela leitura do conjunto destas imagens ordenadas em sequência.

E há ainda pistas de revisitação às linguagens do abstraccionismo gestual, diria caligráfico, filiado na experiência zen. Muitas destas imagens sugerem monumentalidade, arrebatamento emocional mergulhado num silêncio íntimo povoado de sonoridades naturais - águas que correm, brisas por entre folhagens, vibrações tensas...

Será sempre possível haver quem não veja, nestas sombras que criam a luz, a luz primordial circulando pelas formas que ela própria define. Mas talvez baste olhar estas imagens como quem recorda. Como quem lê, por dentro de si, notícias da natureza substancial, vigorosa nos seus contrastes, ora delicada em ínfimas variações de cor, ora fremindo em superfícies arrepiadas.

Estas são as sombras que a luz desperta. Estes são os desenhos da primeira luz.

António Andrade

 
 

 

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