|
A primeira coisa
que me ocorre dizer, é que esta exposição, ou esta manifestação, se
prestava a ser encenada. Ela é uma explicação mitográfica de um
momento de criação, que nos reporta e nos faz ascender aos começos
do mundo e ao átrio onde se aflora o mistério da maior, da mais
perturbante e abísmica dualidade cósmica – a que nos faz enfrentar o
antagonismo ou complementaridade ou bipolaridade da Luz e das Trevas.
Falei em explicação Mitográfica. Explicação no sentido puro latino,
de explicare, desdobrar para fora, passe a redundância, as
múltiplas, infinitas, visões da manifestação inicial, dos tempos do
princípio.
Seria muito sugestivo “recriar-se” aqui, através das tecnologias que
acessivelmente o permitiriam, uma atmosfera insinuante de luzes e
sombras, uma sonoplastia de murmúrios, que induzisse os presentes à
melhor sintonia com o que ele nos quer transmitir. Muito
propriamente: à contemplação do mistério, à consonância com as
sinergias do templo.
Mas viemos agora mesmo lá de fora, perturbados pelo “som e a fúria”
das multidões de carros e de gentes, pelas sacudidelas caóticas do
trânsito, o estrépito das buzinas, de tantas tensões aleatórias que
figuram o caos. Viemos do profanum...
E o que vemos à nossa volta chega para nos fazer reconstituír o
templo, no estimular a ver claro e a descortinar a luz por entre os
sucessivos mantos da noite.
Sabemos qual o tema, porque nos foi dado como bordão, pelo autor –
primum lumen – a primeira ou primordial luz. Mas creio que,
sem nenhuma indicação, nos seria a todos acessível intuír e até
compreender o que nela se derrama de sentido.
Fui passando os sucessivos fotogramas no écran do computador e,
esforçando-me por contornar a tentação literária que eles reclamam,
fui registando em duas folhas de papel:
* a constante e resistente “pressão” da luz para abrir clareiras na
espessura da noite * transparências, “linhas de água” nas manchas
opacas * massas nocturnas a estrangular rasgos luminiscentes *
estremecimentos de matérias dúcteis * grutas onde se rasgam, já
gloriosos e triunfantes, focos, luzemas de claridade * auras de luz
vaporosa * poalhas, expansões gasosas de matérias mais subtis *
efémeras palpitações de focos luminescentes * claro-escuro de
radiografias * tímidas claridades tintadas de desmaiadas colorações,
luzes que inventaram já o seu império no escuro rasgando janelas e
pórticos * nascentes arquitecturas de vidro fungido * ondeações
marmóreas * águas estremecidas pelo sopro dos zéfiros, delicadas
crispações de epidermes * expansões vibratórias de invisíveis
violoncelos * em tudo, a noite a povoar-se de luzes e sons.
Não vos posso agora dizer as razões racionadas de algo de comovente
que me aconteceu no momento em que observava tudo isto: a evocação
fulminante de um poema que apaixonou a minha juventude, o poema
“Ofélia” de Rimbaud – onde magicamente se conjugam a noite
primordial, os astros acabados de doirar, o requinte dos “hallalis”
a ondeação dos longos cabelos da jeune Ofélie, “belle comme la neige”
na corrente pura do rio.
Talvez Ofélie tenha encontrado a morte, porque, ao mirar a sua
imagem no espelho das águas, apenas se tinha visto a ela própria,
admirada de si. E é necessário não remirar, mas contemplar; que vem
de templo.
Mas digo que o poema assistiu à criação do mundo, e que partilhou o
acto genesíaco.
Desde muito cedo que a pintura me interessou, mas o meu fascínio foi
atraído pela – assim a vi designada então – “pintura metafísica”.
Aquela que, como dizia Camões da grande poesia, “faz que leia mais
do que vê escrito”: Ou seja, a que deusa de sentidos, provoca o
conhecimento do visível para o invisível, a que propondo o problema
estimula à desvendação do enigma e, depois, à iluminação do mistério.
É perante isso que estamos. E, uma das suas marcas identificativas,
é que ele é maior do que o seu autor, e diz mais do que ele diz ou
quis dizer. Porque ele foi visitado por um mundo transcendente.
Perante ele abrem-se os labirintos das maiores profundidades e os
azuis das mais gratificantes iluminações. Ainda por cima, neste caso,
porque ele nos conduz quase ao centro do mundo e ao mistério dos
mistérios. Abrem-se, em cruz, todos os caminhos, todas as visões,
intuições, apreensões do ser e do real.
Acercamo-nos da fronteira abísmica da loucura ou das revelações, com
um arrepio de terror. Ele já não pertence ao autor ou mediador que a
transmite. Ele é nosso, é de cada um que quer ver em cada fotograma
um sinal de trânsito, um semáforo luminoso de desvendação da noite,
da luz e da noite que o habitam.
Como ondas de uma mar infinito, ela é sopro que nos provoca
interrogações sobre interrogações, sem terminar nunca.
À Beira do Abismo
Foi um jorro inestancável de coisas que se sangrou no meu espírito
ao percorrê-la.
Rememoração de leituras antigas, reminiscências de pensamentos e
conquistas antigas, leituras novas e consideração de novas teorias e
conhecimentos redescobertas e, sobretudo, renovação de antigos
caminhos.
Não vou agora, nem posso, entediar-vos com a rememoração de inúmeras
citações sobre a obsessão da luz em todas as grandes e até pequenas
tradições de todos os tempos desta Humanidade. Em todas elas, mais
ou menos coincidentemente, (tradição oriental e ocidental, da Índia
ou da China, do budismo ou do islamismo, da judeo-cristã, dos
neoplatónicos, aos gnósticos, aos alquimistas passando pelos
idealistas alemães ou pelos surrealistas, por Goethe, Shakespeare,
Novalis ou Camões) em todas elas o mistério reside na Luz, a
divindade revela-se na Luz, a divindade é Luz, e os grandes heróis
são os que triunfaram na escalada para a “posse” da Luz. E, narrados
de formas tão diferentes, todos os processos de realização
espiritual são anunciados ou marcados por momentos epifânicos da luz,
o sagrado por hierogamia luminosa.
Provar nas trevas para alcançar a luz.
Assim o podemos ver, por exemplo, simbolicamente representado nos
ritos de iniciação de algumas sociedades secretas ou discretas, em
que o neófito, de olhos vendados, tem de encontrar o caminho para a
iluminação, a luz que lhe é dada então. Aí se repete a
reconstituição dos tempos primordiais, “quando” a luz ou logos
ordenaram o caos em cosmos.
Ou, outro entre mil exemplos, no ritual cristão do baptismo, que
primitivamente significava “dar a luz” (fotosmos).
Por trevas se entendia, nestas tradições, o estado caótico das
formas não manifestadas, o mundo informal, confuso, homogeneizado,
das formas e seres em pura potencialidade, antes de serem
actualizadas, entificadas em seres, formas ou mónadas individuais,
por obediência à “ordem” do “fiat lux”.
E, entre as mil vias possíveis, a direcção que nos indicaram quase
sempre é a da reconquista do estado original depois de atravessar o
Paraíso, virar o curso do rio para a nascente, retroceder nas etapas
já percorridas para adunação ao princípio de tudo e de nós, operar a
coincidência, com dois perfeitos anéis, entre o nosso vazio e o
vazio primordial, bem aventurados os pobres em espírito. Reencontro
glorioso da pequena com a grande luz, como a pequena onda que se
espraia mas é reintegrada no infinito oceano luminoso.
Trememos de pequenez perante isto tudo, ao mesmo tempo esmagados
pelo terror de partilharmos inconscientemente dimensões tão grandes
e forças tão poderosas.
Luz e Sombras
Mas olharmos e sabermos aqui também que não podemos fugir à fatal
complementaridade da luz e da treva. A luz insinua-se no mistério
das trevas, as trevas esperam e obductam a luz. Tudo branco, ou tudo
negro, não havia história; era tudo perfeito em sua positividade ou
negatividade. Não havia movimento, e por isso, princípio movente, ou
alma das coisas.
Era inexistência cristalizada, o nada ou a “verdadeira morte”. Mas
felizmente que isto não existe. Não há morte no Universo.
Então começa a aparecer-nos claro que o espírito “precisa” da
pluralidade da matéria informe, se não não tinha objecto, nada que
ordenar e enformar.
E que, analogamente, a Luz apela à existência das trevas, se não
nada teria para iluminar. Essencialmente fala-se aqui da mesmíssima
coisa, pois que, depois de descortinar milhentos véus finalmente
concluímos que Luz é o Espírito.
Assim aprendemos que não há irredutibilidade antitética nem
dualidade entre luz e treva, mas que a luz está penetrada de treva e
que toda a treva está povoada de luz, como se vê eloquentemente na
leitura dos símbolos do Yin e do Yang.
Nos vários planos em que a podemos considerar, no plano cosmogónico
ou no plano interior, a luz está depois das trevas. As trevas
precedem a luz. A noite parece ter uma existência simbólica autónoma,
porque todo o universo, toda a matéria nos parecem em fremente ânsia
de visitação da luz.
No “Fausto” diz a Rainha do Céu: “A minha luz triunfa de toda a luz...
Eu gero a luz, mas as trevas pertencem também à minha natureza”. Por
via da graça ou do amor, ela transmuta as trevas em Luz.
Luz é via e é fim. Mas a noite também é caminho. Dentro da noite
sofremos enganos, falsas pistas, tropeções e quedas. Mas é o nosso
caminho.
Diz-nos o António que é preciso “emboscar” a luz, numa operação para
a captar, isto é, cabendo-nos a nós iluminar a própria luz. Como a
luta de Jacob contra o anjo do Senhor, durante uma noite inteira.
Triunfante ele diz: “Que terrível lugar este. Este não é outro lugar
senão a Casa do Senhor”. Sim, é preciso conquistar a Luz. Explicá-la.
A iniciação, a iluminação, a intuição, têem que ser reconstituídas
pela filosofia, a razão racionante.
Mas sabemos também sem equívocos, que ocultar é revelar. Tapando-nos
os sucessivos caminhos, as trevas são afinal as psicopompas das
nossas travessias nocturnas, os guias da nossa peregrinação.
Lembremo-nos de Sampaio Bruno: “A verdade é um erro sucessivamente
menor”. Lembremo-nos de Goethe e de Kleist: “os escolhidos para
heróis são aqueles que tombam no pecado e no erro, os que tropeçam e
caem nos obstáculos da noite, os das repetidas quedas, mas que
sempre se levantam para prosseguir”.
“Aqueles que nunca desistem da ascensão, esses podemos salvar”
(Goethe).
Depois da treva há a luz, mas depois da luz a treva.
Diz o texto vetero testamentário que, no Sinai, Moisés “penetrou na
treva divina”. Lemos num antigo texto da Índia que o Deus Criador do
mundo talvez não fosse Consciente, mas sonhasse.
Dizem-nos outros autores que o Autopator (o autor de todas as
coisas) continha em si tudo o que existe, no inconsciente, isto é,
na ausência de conhecimento de si próprio.
Com Jung, detectamos aí a potencialidade de se tornar consciente o
existente em estado de latência.
Para se conhecer, o Incogniscível teve de cindir-se em Outro, porque
não há conhecimento sem sujeito do conhecimento e objecto do
conhecimento.
Na imagem reflectida veio a gnose. Libertou-se o espírito que é a
razão que toma consciência de si própria. Esplendeu a luz. Mas, com
a cisão potenciou-se a queda e as trevas. Durand diz: “Mirar-se é
já, de algum modo, ofelizar-se e participar na vida das sombras”...
Que só não existem para O que vive na unidade do Espírito Santo.
Fui, nestes últimos minutos disperso, ou confuso e aparentemente
contraditório. Fi-lo de propósito: porque não devemos iluminar
certas sombras e porque, simbolicamente, quisemos criar uma zona
obscura no meio da nossa palavra.
“Todo o renascimento passa pela confusão para se elevar à claridade”
(Carl Jung)
Primum Sonis
Dissemos atrás que a grande obra transcende o artista, o excede em
capacidade de consciência. Também nos é evidente que as linguagens
das artes são limitanas para nos expressar o pensamento abstracto.
Para nos sugerir a visãa das origens o António recorreu à subtileza
das imagens. Mas nelas, talvez por superior intuição intelectiva,
estão lá mais coisas do que os avatares da luz. Porque por todo o
lado mudam os registos da omnipresente vibração. Esta mostra poderia
também chamar-se – primum lumen, primum sonis.
Porque são indissociáveis, porque estão intrínsecamente adunados, a
luz e o som.
Muito jovem me intrigou e surpreendeu na filosofia grega (Aristóteles
dictum) a prioridade concedida ao ouvido sobre a visão. Via
então nisso a humildade e a segurança da transmissão da tradição.
Mas torna-se agora evidente que o ouvido é o sentido da noite, e é
de noite que estamos rodeados.
Ir ao fundo da noite é penetrar no cenário sobre o qual pode
esplender o brilho vitorioso da luz. Aqui a noite nos surge
sacralizada, como a própria substância do tempo que é negro, porque
é irracional.
Mas como morcegos colados ao veludo preto do cenário, no secretum
imo residem os arquétipos, ordenadores inconscientes das
representações, como os define Jung. A noite é também o tempo e o
ventre morno das germinações, da gestação, das conspirações, dos
murmúrios que são as sementes das palavras claras.
Toda a simbologia da caverna nos surge então clara, como raíz de si-mesma,
ventre seguro do inconsciente; penetrar na caverna seria o mesmo que
consumar uma aventura iniciática, para alcançar finalmente a
iluminação.
Atentámos, com os românticos, que o “tempo da luz é medido, mas o
reino da noite não conhece nem o tempo nem o espaço”. Todos também
temos da nossa observação comum como nos invisuais se apura o
sentido da audição..
Sem dúvida de que, na noite, os ouvidos são mais poderosos do que a
visão, aí quase cega.
Lawrence: “o ouvido pode ouvir mais profundamente do que os olhos
podem ver”.
Gaston Bachelard diz: “As trevas são o próprio espaço de toda a
dinamização paroxística de toda a agitação. O negrume é a própria
“actividade”, e toda uma infinidade de movimentos é desencadeada
pela falta de limites das trevas nas quais o espírito procura
cegamente o nigrum nigrius nigro !!
“A Obscuridade é amplificadora do barulho, é ressonância. As trevas
da caverna retêm nelas o grunhido do urso e o respirar dos montros”.
É na noite e na noite da caverna que melhor pode ouvir-se e ressoar
a palavra. No Evangelho de S. João, a palavra é associada “à luz que
luz nas trevas”.
Nos Upanishads – luz é isomorfa de fogo e de palavra;
Nos antigos egípcios e judeus, a palavra presidiu à criação do
universo (a ordem de fiat lux.)
Carl Jung mostra que a etimologia indo-europeia de “aquilo que luz”
é a mesma daquilo que significa falar.
Há íntimo parentesco do mantra indiano e tibetano com a
dhikr muçulmano – valorização homóloga do isomorfismo entre o
visual e o som falado.
Transmite-nos Gilbert Durand, que na tradição Upanishádica, Brahman
se manifesta primeiro como nome sagrado e essa palavra sagrada foi
Sphota, causa real do universo.
Sphota, o logos hindu, viria de Sphout, (partir, rebentar) parente
do adjectivo Sphonta (aberto,aberto em evidência) e o seu sentido
seria então “rebentar bruscamente como um grito” - Big Bang.
Assim, mais sensivelmente percebemos a poesia que vê nas mulheres,
nas flores e nas estrelas, a o arquétipo da Beleza, a irradiação
luminosa da Verdade.
Percebemos também melhor o significado e sentido ritual dos
murmúrios vibrantes de certas sociedades.
O Coral marulhante dos monges budistas, a recitação dos mantras,
palavras dinâmicas, fórmulas mágicas que pelo domínio da respiração
e do verbo domam o universo.
E fere profundamente a nossa sensibilidade a “Ode à Noite” de
Novalis e a “Ode à Noite” de Fernando Pessoa. Artistas da palavra,
os poetas terão que ser os grandes discípulos nocturnos.
E termino este capítulo citando Gilbert Durand: “Enquanto as cores,
no regime diurno da imagem se reduzem a algumas raras brancuras
azuladas e douradas, preferindo as cambiantes da paleta a nítida
dialéctica claro-escuro, sob o regime nocturno, toda a riqueza do
prisma e das pedras preciosas vai desenvolver-se”
Quem diz pedras preciosas diz sensibilidade feminina. Diz “processo
alquímico”, marcadas as fases pelas cores puras.
Diz a imagem apocalíptica de Jerusalém celeste encrustrada de pedras
preciosas de tpdas as cores.
Mas deixo-vos uma inquietação de Novalis: “A luz ri e joga na
superfície das coisas, mas só o calor penetra”.
POETAS À SOLTA
E vou encerrar (que quer dizer guardar, fechar, ocultar).
E todo o encerramento requere uma chave.
Esta exposição é a obra-prima do António Conceição Júnior. Depois
dele, da iluminação que a gerou, ele já não será o mesmo – porque
todo o progresso espiritual é assinalado com epifanias luminosas.
Eu, também não serei o mesmo - por misteriosa convocatória fui
chamado a um encontro de onde ressaltou uma subida na escala que
gradua a nossa ascensão aos céus. Obrigado António por este encontro.
Ele próprio, no conjunto, é um símbolo do processo de cosmogénese –
sendo várias expressões múltiplas do mesmo significante, permite-nos
pensar que todas elas poderiam condensar-se e referir-se a um só
único fotograma, a imagem original e ideal onde concepção e
manifestação estivessem contidos na sua perfeita e cabal expressão.
Aí, o lugar do arquétipo invisível, antes do tempo e do espaço, que
se manifestou em todos os múltiplos fotogramas. Aí o vazio que a
todos originou.
Do que lemos e do que fomos aprendendo, verificamos hoje que a
pluralidade dos antiquíssimos textos sagrados é convergente com as
mais surpreendentes “descobertas” da ciência.
A sabedoria antiga fala-nos de onda luminosa e vibração sonora, a
física quântica descreve-nos o ínfimo elemento da matéria, que é
energia luminosa, como, simultaneamente, partícula e onda.
Não fez a Ciência outra coisa, ao longo dos séculos do que desmentir-se
e contradizer-se sincrónica e diacronicamente.
Somos sensíveis ao grande drama dos homens, como que em jangada
fragilíssima sobre o oceano dos séculos, ansiosos de uma âncora, uma
estaca segura.
Compreendemos e comungamos muito com as especulações de Bachelard e
Durand sobre o imaginal, as estruturas profundas, os arquétipos
dinâmicos, sujeitos criadores de inconsciente partilhados por toda a
Humanidade, que são para André Breton, “a justiça suprema” – diante
da qual a contínua flutuação do progresso científico aparece como um
fenómeno anódino e sem significação.
Para a cosmovisão quântica, o mundo onde estamos como que se
sobrepõe ao vazio original, é como o mundo das possibilidade
infinitas. A manifestação ganha carácter sucedâneo e ilusório.
O mundo interior é que cria o mundo exterior.
A matéria é toda igual (a que faz o elefante e o nenúfar, o cristal,
a flor e o homem). Mas a matéria sólida não é nada, é totalmente
insubstancial – parece-se com um pensamento, como um bit de
informação concentrado.
A sobreposição quântica postula que uma partícula pode estar em mais
do que um lugar ou estado ao mesmo tempo. Tudo aparenta serem
movimentos possíveis da consciência, que elege a existência de um
objecto entre as várias possibilidades.
Tudo são ínfimos grânulos luminosos, o que não se sabe, o que é
mistério é o factor unificante, o princípio da polarização ou
individuação que lhes dá substância, e forma e existência.
Não se deixam observar e reagem diferentemente consoante o
observador.
Todos os processos cerebrais de captação do real estão estudados e
localizados nas zonas do cérebro. Só uma coisa nunca foi encontrada:
o lugar ou centro do observador.
A criação, portanto, não é, nem implica nenhuma mudança de
substância. As partículas acorrem a uma voz secreta, um polo que
magnetiza a sua confluência para dar forma a uma existência.
A consciência surge como o fundamento do ser.
Antigas sabedorias e física quântica convidam-nos para ”ver” que
estamos num mundo material que é ilusório, como se estivessemos em,
ou como se o Universo fosse um grande holograma.
E que reside, no mais íntimo sacrum secretum de nós, aquilo que tem
o poder de convocar os milhões de milhões de grãos luminosos do
universo para lhes dar as formas, princípio essente.
Acabo a citar Mircea Elíade: “o significado da luz é, em suma, uma
descoberta pessoal, e por outro lado, cada um descobre o que
cultural e espiritualmente estava preparado para descobrir”.
O Big Bang foi amanhã. É agora já. O momento revelador desta mostra
participou dele. Será sempre assim, quando a graça da iluminação nos
eleva a criadores, a imagens do criador que vê a concepção e
manifestação do universo simultaneos em sua eternidade.
Como nos anunciava Agostinho da Silva: vamos todos ser poetas à
solta!
|