O Autor e a Obra


Não há Obra sem Autor. Ela é criação de alguém que, com o tempo, se apaga para que só ela viva - ou que só nela viva a sua memória.
Em geral resiste-se, muito justamente, a ignorar o Autor que gerou a Obra porque, além do mais, se explicam mutuamente - pese embora a reconhecida autonomia da Obra, sobretudo nos sentidos diversos que ela pode vir a ganhar - e ganhará - na consciência dos outros, o público.
Pois António Conceição Júnior é precisamente o Autor de uma Obra já tão longa e variada, que bem se poderia aceitar que ficasse por ali, isto é, situada no desenvolvimento directo de coisas já feitas por si - ou até por outros, por que não?
Mas isso não é possível porque estamos perante um Autor que ainda não percorreu todas as regiões que o seu espírito reconhece (está apto a reconhecer), mas ainda não explorou. A multiplicidade dessas regiões frequentadas pelo espírito criativo de António Conceição Júnior é verdadeiramente surpreendente e dir-se-ia que essa multiplicidade se auto-alimenta, numa transferência de experiências que não pára de se desdobrar: do desenho à pintura, da banda desenhada à ilustração, da escrita ao design gráfico, deste ao design de moda, da medalhística à fotografia...
Pode surpreender e surpreende, de facto, que um Autor destes não tenha uma presença mais visível na cidade de Macau, na forma de uma intervenção de impacto visual urbano permanente. Mas uma pesquisa no rasto das suas realizações levará à descoberta de inúmeros vestígios de sua autoria: moedas, publicações de vária índole, eventos culturais, espectáculos, exposições, fotografias, medalhas, decorações, móveis, cenários, são alíneas no índice do seu curriculum criativo, marcado por um traço distinto: a procura da essencialidade, uma solenidade de inspiração ritual, qualidades herdadas de raízes orientais não assimiladas, mas congénitas e conscientemente assumidas.
Por isso, é preciso olhar esta Obra e (re)conhecer o seu Autor. Ele vai-nos oferecer mais novidades, fruto da sementeira que nele não pára de germinar e com isso ficaremos culturalmente mais ricos.

António Andrade

 

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