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A
Fotografia nasceu pobre e hesitante, mas a prometer muito, nos
anexos da residência onde a Gravura vivia uma veterania reconhecida.
Desdenhada inicialmente pela Pintura, prima de ambas e aristocrata
rica altamente prestigiada, à Fotografia, nova intrusa no mundo da
representação visual, engendrada em processos que se apresentavam
demasiado impessoais e mecânicos, não foi prognosticado grande
papel. Isto durou uns tempos, não muito longos afinal, enquanto não
se entenderam claramente os domínios próprios de cada uma e
definiram as competentes regiões demarcadas e respectivos papéis,
desistindo de rivalidades descabidas e mesmo ridículas.
Hoje, olhando o panorama geral da produção resultante dessa coexistência
feita de percursos ora paralelos, ora cruzados e diferenças e
coincidências de atributos e funções, percebe-se que, não só podem,
Pintura, Gravura e Fotografia, assumir tranquilamente cada uma seu
desempenho específico, como reconhecer os benefícios recíprocos que
colheram e colhem do próprio confronto amigável de linguagens,
meios, objectivos, processos e repercussões culturais.
Pois é: afinal, as primas, inicialmente mergulhadas em rivalidades
desconfiadas, já longe uma (a Fotografia) dos balbucios da infância
e democratizada até à saturação, e recuperada a outra (a Pintura) do
medo da perda de parte do seu território, dão-se perfeitamente e até
colaboram entre si a vários níveis, sendo que o mais importante de
todos eles é o de trocarem ensinamentos para o olhar, abertos a
todas as experiências dialogantes, ampliadores da sensibilidade
(visual, simbólica, icónica, narrativa, etc.) e, não raras vezes,
emprestando uma à outra sugestivas referências plásticas e
vocabulários formais, sem que isso seja motivo de ofensa, ou
acarrete o anátema de qualquer escandaloso plágio.
Se assim é, tal deve-se, além do mais e em boa medida, à clara
diferenciação de meios: os processos de produção e o potencial
criativo que contêm, os suportes, os métodos, as velocidades de
realização, enfim, numa palavra, as respectivas culturas
processuais, definidas em contextos oficinais distintos, claramente
identificados e facilmente reconhecíveis.
Sem dúvida que Pintura e Fotografia delimitam universos de
comunicação próprios, mesmo quando as imagens resultantes possam
invocar - e convocar - muita experiência comum a ambas, nomeadamente
aquela que, insisto, sobre todas as demais importa aqui: a
experiência do olhar atento, no múltiplo alcance do observar, do
registar e do sentir-pensando o que é visível.
E é esse intercâmbio, longo e variado, entre Pintura e Fotografia,
que permite a ambas abastecerem-se continuamente de sugestões,
postas à disposição de quem olha e redescobre ligações e analogias
pictóricas e fotográficas, em sucessivos momentos de identificação
ou confronto.
É verdade que hoje não é possível dizer-se quem nos ensinou a sentir
pensando o que vemos, tão submetidos que estamos a um intenso
bombardeamento visual, muito dele intencionalmente orientado e do
qual resultam também novas formas de cegueira pelo embotamento da
sensibilidade, quantas vezes sujeita a condicionamentos pavlovianos…
Também por isso, porém, continua a ser válido, e cada vez mais
pertinente, o aviso “pare, escute e olhe” empunhado, qual apelo de
urgência, por quem resiste com tenacidade ao domínio, potencialmente
absoluto, das imagens portadoras de conteúdo
propagandístico-panfletário e nos propõe o regresso à experiência do
olhar primordial sobre objectos primordiais, quero dizer, ainda não
humanos.
Porque me parece ser disso que, nesta exposição de António Conceição
Júnior, se trata fundamentalmente: Olhar e Ver - mas numa direcção
predefinida, decididamente não à procura do episódio dramático de
marca humana (propositadamente evitado ou já irreconhecível), ou do
triunfo do cânone da beleza natural, mas antes, simplesmente, na
demanda da enfatização da pele dos materiais que, sujeitos ao labor
invisível e lento das intempéries no decurso do Tempo, apresentam
dele um resultado surpreendente, fixado numa espécie de escrita
involuntária que a nossa cultura estética pode contextualizar,
atribuindo-lhe então um lugar e um sentido próprios.
O gozo que isso dá, resulta em grande medida de ser possível captar,
em Fotografia, fragmentos assim domesticados, descobertos e colhidos
na imensa produção selvagem dessa oficina anónima universal,
residuais e materialmente pobres, mas plasticamente carregados de
alusões fortes, trazidos ao contacto com as memórias que conformaram
a nossa sensibilidade, fertilizada nas múltiplas experiências
visuais anteriores, às quais acrescentamos agora mais estas que, por
isso mesmo, alcançam a evidência feérica de uma espectacularidade
até esse momento ignorada.
Eis, então aqui, uma selecção dos sinais deixados pela mão invisível
desse discreto pintor virtuose, a que poderemos chamar acção do
tempo comandada pelas leis da Física e da Química, mediados pelo
olhar solidário e fascinado de um outro Pintor que foi no seu
encalço, os fotografou e os expõe num registo que parece querer-nos
dizer o quanto ele próprio gostaria de ter sido seu autor original –
que afinal de facto é, visto que para nós só existe o que é
revelado. |