LITTLE BANG
 

para António Conceição Júnior




Eis uma gota de água

hesitante

entre ser apenas o que o céu lhe deu

e a fecunda gestação de novos gestos

impressos num portão

ou numa trave.

Mas nada se decide

entre uma coisa e outra:

em todo o caso o mundo cresce

à dimensão de outra arquitectura,

e seja como for um olho vê

a explosão de novos astros

- terrenos, sim, terrenos -

que já nada reprime.

Pedro Tamen

 

SÓ EXISTE O QUE NOS É REVELADO

 

A Fotografia nasceu pobre e hesitante, mas a prometer muito, nos anexos da residência onde a Gravura vivia uma veterania reconhecida. Desdenhada inicialmente pela Pintura, prima de ambas e aristocrata rica altamente prestigiada, à Fotografia, nova intrusa no mundo da representação visual, engendrada em processos que se apresentavam demasiado impessoais e mecânicos, não foi prognosticado grande papel. Isto durou uns tempos, não muito longos afinal, enquanto não se entenderam claramente os domínios próprios de cada uma e definiram as competentes regiões demarcadas e respectivos papéis, desistindo de rivalidades descabidas e mesmo ridículas.

Hoje, olhando o panorama geral da produção resultante dessa coexistência feita de percursos ora paralelos, ora cruzados e diferenças e coincidências de atributos e funções, percebe-se que, não só podem, Pintura, Gravura e Fotografia, assumir tranquilamente cada uma seu desempenho específico, como reconhecer os benefícios recíprocos que colheram e colhem do próprio confronto amigável de linguagens, meios, objectivos, processos e repercussões culturais.

Pois é: afinal, as primas, inicialmente mergulhadas em rivalidades desconfiadas, já longe uma (a Fotografia) dos balbucios da infância e democratizada até à saturação, e recuperada a outra (a Pintura) do medo da perda de parte do seu território, dão-se perfeitamente e até colaboram entre si a vários níveis, sendo que o mais importante de todos eles é o de trocarem ensinamentos para o olhar, abertos a todas as experiências dialogantes, ampliadores da sensibilidade (visual, simbólica, icónica, narrativa, etc.) e, não raras vezes, emprestando uma à outra sugestivas referências plásticas e vocabulários formais, sem que isso seja motivo de ofensa, ou acarrete o anátema de qualquer escandaloso plágio.

Se assim é, tal deve-se, além do mais e em boa medida, à clara diferenciação de meios: os processos de produção e o potencial criativo que contêm, os suportes, os métodos, as velocidades de realização, enfim, numa palavra, as respectivas culturas processuais, definidas em contextos oficinais distintos, claramente identificados e facilmente reconhecíveis.

Sem dúvida que Pintura e Fotografia delimitam universos de comunicação próprios, mesmo quando as imagens resultantes possam invocar - e convocar - muita experiência comum a ambas, nomeadamente aquela que, insisto, sobre todas as demais importa aqui: a experiência do olhar atento, no múltiplo alcance do observar, do registar e do sentir-pensando o que é visível.

E é esse intercâmbio, longo e variado, entre Pintura e Fotografia, que permite a ambas abastecerem-se continuamente de sugestões, postas à disposição de quem olha e redescobre ligações e analogias pictóricas e fotográficas, em sucessivos momentos de identificação ou confronto.

É verdade que hoje não é possível dizer-se quem nos ensinou a sentir pensando o que vemos, tão submetidos que estamos a um intenso bombardeamento visual, muito dele intencionalmente orientado e do qual resultam também novas formas de cegueira pelo embotamento da sensibilidade, quantas vezes sujeita a condicionamentos pavlovianos…

Também por isso, porém, continua a ser válido, e cada vez mais pertinente, o aviso “pare, escute e olhe” empunhado, qual apelo de urgência, por quem resiste com tenacidade ao domínio, potencialmente absoluto, das imagens portadoras de conteúdo propagandístico-panfletário e nos propõe o regresso à experiência do olhar primordial sobre objectos primordiais, quero dizer, ainda não humanos.

Porque me parece ser disso que, nesta exposição de António Conceição Júnior, se trata fundamentalmente: Olhar e Ver - mas numa direcção predefinida, decididamente não à procura do episódio dramático de marca humana (propositadamente evitado ou já irreconhecível), ou do triunfo do cânone da beleza natural, mas antes, simplesmente, na demanda da enfatização da pele dos materiais que, sujeitos ao labor invisível e lento das intempéries no decurso do Tempo, apresentam dele um resultado surpreendente, fixado numa espécie de escrita involuntária que a nossa cultura estética pode contextualizar, atribuindo-lhe então um lugar e um sentido próprios.

O gozo que isso dá, resulta em grande medida de ser possível captar, em Fotografia, fragmentos assim domesticados, descobertos e colhidos na imensa produção selvagem dessa oficina anónima universal, residuais e materialmente pobres, mas plasticamente carregados de alusões fortes, trazidos ao contacto com as memórias que conformaram a nossa sensibilidade, fertilizada nas múltiplas experiências visuais anteriores, às quais acrescentamos agora mais estas que, por isso mesmo, alcançam a evidência feérica de uma espectacularidade até esse momento ignorada.

Eis, então aqui, uma selecção dos sinais deixados pela mão invisível desse discreto pintor virtuose, a que poderemos chamar acção do tempo comandada pelas leis da Física e da Química, mediados pelo olhar solidário e fascinado de um outro Pintor que foi no seu encalço, os fotografou e os expõe num registo que parece querer-nos dizer o quanto ele próprio gostaria de ter sido seu autor original – que afinal de facto é, visto que para nós só existe o que é revelado.


António Andrade
Outubro de 2006