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1. KISERU NO YUME
- SONHO DE CACHIMBO
Yamada Hiroshi
san satisfez-me uma das minhas velhas aspirações, a de ter uma gravura de
Kitagawa Utamaro, um do expoentes maiores do Ukyio-e. A
gravura era de uma mulher jovem, o kimono verde languidamente solto,
segurando um espelho que seria de laca preta, iniciando os preparos do
dia.
Comprei-lhe a estampa, impressa em washi, papel japonês, e levei-a
cuidadosamente comigo a caminho do Ryokan (hospedaria tradicional)
onde me tinha alojado, em Kyoto.
No regresso, caminhando sem pressa, e procurando registar tudo o que via,
deparou-se- -me uma pequena casa tradicional de madeira escura, igual a
muitas outras, que vendia antiguidades.
A casa era estreita e comprida. Ao contrário de outras do género, esta
possuía a austeridade de ter poucas coisas. Ao fundo, uma Ô-Yoroi
(grande armadura) contemplava sentada, um vale invisível, distante mais no
tempo que na geografia. Talvez quem envergara aquela espantosa armadura
tivesse estado em Sekigahara, pensei.
O ambiente era sombrio, o mês de Março estava fresco mas nesta velha casa
respirava-se uma grande serenidade. A luz era apenas a suficiente para se
vislumbrarem os objectos, presenças silenciosas de tempos idos. À minha
direita, sobre um armário, repousava uma caixa de laca com gavetas,
encimada por uma calote de metal perfurado, a deixar adivinhar que
serviria para nela se queimar carvão. A presença próxima de um tabuleiro
repleto de cachimbos longilíneos convenceu-me de que a caixa tinha sido de
um abastado fumador.
Como por simpática necessidade suscitada pelos outros cachimbos, acendi o
meu quando, por detrás de mim uma voz feminina me dizia gentilmente:
ohaiogosaimasu. (saudação)
Virei-me e uma senhora de idade, envergando um kimono castanho e preto
muito discreto, o obi totalmente negro, tudo em perfeita
consonância com as tonalidades do ambiente, sorria-me com um ar de bondade
digna, algo que sendo acolhedor não era jovial. Na sua voz sussurante
disse-me algo que não entendi no meu superficial conhecimento do japonês.
É curioso como as japonesas dizem, ao iniciar uma frase, um ah,
como quem se lembra de algo, uma como que tomada de fôlego, de que
resulta, no subsequente discurso, uma espécie que acorde inicial,
impregnado de uma harmoniosa forma de abordar um assunto novo. Dir-se-ia
que essa aspiração significa o primeiro passo de um bailado verbal, com
compassos suaves onde se percebe a delicadeza posta nas palavras.
Sumimasen, (desculpe) respondi-lhe como pude, watashi nihon
go... ié, (eu, de língua japonesa...não) devolvendo à senhora o
sorriso. Ela foi dizendo mais qualquer coisa de onde discerni a palavra
tabacô enquanto se dirigia para o tabuleiro dos cachimbos, levando a
palma da mão direita em direcção ao nariz, como que a aspirar o ar.
Percebi que gostara do cheiro do tabaco. Ah, imitei eu, gomen
nasai (outra forma de dizer desculpe por incomodar).
Ié, ié, respondeu-me sorrindo. E percebi que poderia continuar a
fumar.
Cuidadosamente a mão direita foi percorrendo os cachimbos até pegar num
cuja madeira brilhava, escurecida pelo uso. A fornalha tinha um pequeno
ornato gravado e o metal estava despolido. Fez menção de mo entregar com
as duas mãos mas vendo que tinha as minhas ocupadas uma com um saco onde
trazia a gravura e a outra com o cachimbo, indicou-me uma mesa baixa para
que os pousasse. Desajeitadamente coloquei o saco na mesa, mas tão
incompletamente que a gravura resvalou para o chão limpo.
Ah, fez a senhora quando viu a estampa. Ambos nos baixámos para a
apanhar, ela com a mão direita tapando o espanto que a boca revelaria. E
ficou a contemplar longa e enigmaticamente aquela estampa, e eu a olhar a
senhora do kimono escuro, perdida naquela inexplicavel contemplação.
Caiu subitamente em si, novamente com um ah quase surdo, quase
apenas um baque. Virou-se para mim e com uma profunda vénia disse-me
gomen nasai e, apontando para a estampa com os olhos, segurou-a
cuidadosamente, arrumou-a no saco, levantando-se com um sorriso, os olhos
baixos.
Pegando novamente no cachimbo que escolhera, entregou-mo com as duas mãos,
dizendo Nihon no yume kiseru (cachimbo japonês de sonhos). Peguei no cachimbo e depois de o admirar,
devolvi-lho. Ela disse que não, e com a palma da mão virada para cima,
apontada para mim, repetiu o gesto para que o compreendesse. Entendi que
era uma oferta. Ora olhava para o meu cachimbo ora apontava para o
cachimbo que me entregara, arrastando meigamente as frases finais,
imperceptíveis para mim. Senti-lhe porém a determinação e limitei-me a
retribuír a vénia com um domo arigato gosaimashita (obrigado
formal). Respondeu-me que não,
que não era preciso agradecer. Depois dirigiu-se à caixa de laca, abrindo
uma gaveta de onde retirou um estojo em esteira antiga e uma bolsa em
brocado. Por momentos julguei ver encostado à caixa, um espelho redondo
com uma pega, todo em laca preta. Tabacô, disse-me, mostrando a bolsa.
Nihon no tabacô.
Aos meus agradecimentos respondeu ié, ié, entremeado de um sorriso
bondoso.
Embrulhou-me as ofertas que estranhamente me fizera, com grande perícia,
num lenço de uma côr verde jade com padrão de corações e pintas brancas. |
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2. YUME - SONHO
Tomei um reconfortante banho quente, mergulhado na tina, enquanto meditava
sobre o encontro com a velha senhora na casa de antiguidades, observando o
vapor da água quente, como se nessa condensação estivesse a resposta.
Vesti o yukata (espécie de kimono mais simples) que trouxera
comigo, atei o hakata obi (cinto) com o nó de cauda de peixe que
aprendera a fazer há muito, pus o haori (sobre-kimono curto) azul
escuro e aguardei que me chamassem para o jantar no quarto forrado a
tatami, onde uma pequena mesa baixa constituía, juntamente com um
tabuleiro de pé e uma televisão, a mobília visível do quarto, uma divisão
bastante grande de oito tatami.
Decidira que depois do jantar voltaria a examinar a gravura e as prendas
que a senhora da casa de antiguidades me havia estranhamente dado.
Jantei a pensar nas razões para aquele comportamento. Ter um cachimbo não
era razão suficiente para receber outro, sobretudo um gaijin que ela nunca
vira.
Regressado ao quarto, já tinham colocado no chão um confortável e
lindíssimo futton, forrado com uma protecção de linho alvo a
anunciar uma noite confortável. Os embrulhos lá estavam sobre a mesa,
agora arredada para o lado.
Sentei-me no chão, retirei do saco a gravura de Utamaro e
contemplei-a de novo. Sempre achara que o ponto mais erótico que uma
mulher vestindo kimono apresentava era o anúncio da nuca e do pescoço. Mas
aqui a mulher estaria a mirar-se num espelho ao acordar, examinando o seu
rosto, o cabelo ainda protegido parcialmente por um lenço, o kimono
deixando ver um breve decote solto pelo sono.
Olhei para o embrulho de tecido que a antiquária fizera. Olhei de novo a
gravura. Era certamente uma coincidência, talvez demasiada coincidência
para o ser. O tecido do embrulho era muito macio, ligeiramente texturado.
Ao desatar o embrulho pude ver que o lenço fora cuidadosamente debruado à
mão. Trouxe-o para junto da gravura. Não havia dúvida, o tecido era
exactamente igual ao do kimono da estampa de Utamaro.
Apeteceu-me subitamente fumar. Olhei para o estojo de esteira antiga e
decidi que iria provar o tabaco que a senhora me oferecera no respectivo
cachimbo. Abrir o saco do tabaco que não tinha cheiro e era mais amarelo
que o meu e enchê-lo devagar, serviu para me distraír, adiando todo o
espanto de que me encontrava possuído.
Peguei num cinzeiro, pu-lo ao pé do futton e decidi deitar-me.
Fumaria deitado, consumindo rapidamente aquela pequena quantidade de
tabaco japonês que cabia na fornalha.
O tabaco soube-me estranhamente ao sabor que uma flôr pode ter. Aspirei o
fumo para melhor o sentir. Mas o mais surpreendente era que este parecia
desproporcionado em relação ao que eu exalara, originando uma espécie de
nuvem que me deixou confuso e perplexo. A nuvem crescia por si,
disseminando-se como névoa, a luz do candeeiro iluminando essa súbita
cortina imaterial que ia lentamente ocupando o quarto todo. Em pouco tempo
tudo mudara. Apenas se via uma névoa iluminada e o tatami no chão. E eu,
estranho em terra estranha, a pensar se já teria adormecido e sonhava.
Mas pelas minhas narinas perpassou um suave cheiro a óleo de flores,
semelhante ao choji (cravo-da-índia), enquanto o silêncio nocturno
do quarto era irrompido por um som de rua acordando, povoando-se, gente a
falar, respirações ofegantes de homens que pareciam carregar algo pesado.
Tudo foi acontecendo rapidamente, como o tempo que leva entre o fim da
madrugada e a alvorada.
Ali no quarto, mesmo além dos meus pés, ouvi um suave bocejo, sons
femininos de uma mulher a acordar. Adivinhava o espaço distendido bastante
para além do que sabia serem os limites do quarto.
Pressenti que tudo aquilo que se estava a passar, ainda não sabia o que
era, se sonho se alucinação, ou se efeito de tabaco estranho, começava a
ter um sentido, uma lógica que obedecia a um ordem talvez onírica,
portanto, imprevisível.
A luz do dia inundou a neblina e ainda, eu sabia, a noite mal começara.
Com algum esforço curioso pude descortinar um vulto soerguendo-se do chão,
a luz iluminando a silhueta, dando-lhe enfim côr. E a côr se fez
revelação. Como que a névoa cedendo à figura, uma jovem mulher japonesa
acabara de se erguer lânguidamente, vestindo sobre a pele um kimono macio,
exactamente igual ao da gravura, o decote mais aberto do que o normal, uma
pele mais branca que o habitual. Num gesto elegante, passou a mão pela
face direita e afagou a pele até ao pescoço, como que a avaliar a sua
suavidade. Tinha o cabelo ligeiramente desalinhado e um lenço sobre a
testa para proteger o penteado. Pegou num espelho de laca preta, que o seu
corpo tinha ocultado, e olhou-se prescrutando o rosto, o fácies, as
sobrancelhas erguidas como que ajudando a ver melhor. Lentamente, foi
colocando alguns alfinetes no cabelo para o prender mais seguramente.
Depois sorriu-se ao espelho. Pude então ver-lhe os dentes negros,
tingidos. Curiosa e estranha esta deliberada remoção da presença dos
dentes. Seria que o sorriso constituía uma interdição? Percebi, porque mo
ensinaram, que era uma mulher casada do período Edo (1603 a 1868). Mas que
fazia eu num tempo que já passara? As coordenadas tinham-se dilatado? O
sentido do Tempo tinha-se modificado? O que era isto senão um sonho?
Ah, mas quem é você? O que faz no meu quarto? Nova estupefacção.
Ela falava a minha língua, trazendo-me repentinamente de regresso das
minhas dúvidas e cogitações.
Era preciso responder-lhe: No seu quarto? Mas eu estou no meu quarto,
num Ryokan de Kyoto. A sua mão direita tapava familiarmente a boca. A
outra mão fechava instintivamente o kimono solto. Olhou-me fixamente, os
olhos procurando prescrutar-me a mente, depois pestanejou e pareceu
acalmar-se. Mas você é estrangeiro. Que faz aqui depois da interdição ?
Quer desgraçar-me? Ah, mas como entrou? E como fala japonês? Sabe que sou
uma mulher casada?
Todas aquelas perguntas eram feitas num tom ligeiramente mais agudo, mas
numa voz semi-sussurrada, suave, mesmo doce. Ouvi-me a ouvi-la e a
deliciar-me com a maneira como falava. Neste ambiente insólito, percebia
tudo o que ela me dizia. Para ela eu falava japonês, para mim o que dela
ouvia não era definitivamente japonês. Deixei instintivamente que as
perguntas se sucedessem, ritmadas, deixando nascer uma pausa antes de
responder.
Tudo isto não tem uma explicação lógica. Ou por outra, eu não a
encontro. Até há pouco tempo estava eu tranquilamente no meu quarto
e quando acendi este cachimbo tudo começou a mudar… e mostrei-lhe o
cachimbo já apagado, ainda que a neblina se mantivesse. Como é que
explica que eu a entenda se não falo japonês fluente? E como é que me
entende a mim? Isto parece um filme.
A jovem mulher olhou para mim com um ar que eu não soube interpretar. Não
havia no rosto dela nenhuma emoção. Apenas os olhos inquiriam de uma forma
discreta, ora na minha direcção ora para o cachimbo que eu lhe mostrava,
ora ainda para dentro de si própria. Baixou os olhos, respirou fundo,
olhou a mão direita pousada sobre o regaço. Hesitou antes de falar : O
que é um filme?
Custa-nos sempre adaptarmo-nos a novas circunstâncias onde o nosso
vocabulário mental se tem de reconfigurar. Soube-o ali mesmo, com aquela
simples pergunta vinda do século XVIII:
Olhe, é como termos um sonho, só que vamos a uma sala especial para vermos
esse sonho retorqui, agora já plenamente consciente de que, por
qualquer razão, a língua não era um obstáculo.
Ah, fez ela, e eu gostava da maneira inocente como o fazia, é
como o Kabuki?
Estabelecera-se entre nós uma maior tranquilidade e mútua curiosidade. A
disputa dos nossos territórios – o meu quarto no Ryokan e o quarto
dela fundidos num mesmo espaço pela eteriedade de uma persistente neblina
– esmorecera, desaparecera mesmo, para dar lugar àquela forma de
aprendizagem mútua, ainda não totalmente despojada de algum
constrangimento.
Acho que sim. É isso mesmo, é como o Kabuki, mas não existe aqui
neste tempo, disse, levantando o olhar para ela que, mais segura,
levantara ambas as mãos para ajeitar os alfinetes do cabelo, peças de
madeira de rara beleza.
Não existe neste tempo? Olhou-me espantada. Espere, você é muito
estranho. Não é japonês mas fala-me em japonês, tem um penteado estranho
que não é o dos nossos homens, tem a pele escura, mas as suas mãos não têm
calos. Tem uma altura maior que a normal. Fez uma pausa prolongada,
talvez tensa. Você quem é ? O que é esta neblina que não me deixa ver
os contornos das coisas? Veio da floresta?
Sorri para dentro. Eu sabia que ela falava nos espíritos que habitam as
florestas. Enquanto o sonho durasse, se sonho era, eu tinha de perceber
que estava na Kyoto do séc. XVIII. Tive de me concentrar: Não, sou um
viajante a quem uma velha senhora deu este cachimbo e este tabaco
embrulhado num tecido igual ao kimono que veste.
Deliberadamente omiti a alusão à gravura, estendendo-lhe o lenço.
Inclinámo-nos para permitir que aquele testemunho passasse de mãos. Ela
pegou no lenço com um gesto delicado, o decote abrindo-se pelo peso do
próprio tecido, porventura esquecida de como estava. Endireitou-se, pegou
no lenço com as duas mãos, dobrou-o cuidadosamente em três partes,
analisou o debruado, levantou os olhos para mim com ar assustado. Mas
como pôde uma velha senhora ter- -lhe dado este lenço se eu o fiz do resto
deste kimono? Olhou em seu redor angustiada, o lenço de encontro ao
peito. Foi você que mo tirou enquanto dormia, certamente. A voz
agora estava insegura, trémula.
Olhei-a com ar sereno. O que eu lhe disse foi a verdade. Uma
velha senhora de uma loja de antiguidades embrulhou este cachimbo e este
tabaco no lenço.
Ela tinha uma maneira doce de olhar, mesmo quando incrédula. Transpirava
feminilidade e olhou-me mais uma vez, prescrutando-me, os olhos por vezes
semi-cerrando-se. As mãos estavam agora pousadas no regaço, alisando
continuamente o lenço.
En murmurou. En, destino, ordem inatingível. Levantou-se
graciosamente. Não era alta, mas era longilínea, delgada, frágil. A bruma
desfazia-se à medida que ela se movia. Puxou uma mesa baixa para perto da
janela, pegou numa caixa- -estojo em madeira escura de onde retirou um
pincel, vi a pedra de fazer tinta. Depois desenrolou uma folha de papel e
escreveu, de costas para mim. Admirei-lhe a nuca suave e aquele cabelo
sedoso e negro, abundante sem dúvida, talvez dando-lhe pela cintura, se
não estivesse penteado. O obi (cinto japonês feito de uma longa
faixa) que trazia era simples, de um branco jade, quase solto. Voltei a
ouvir o ruído da rua. Os meus sentidos tinham-se deslocado, mas não
descurei a jovem.
Quando se virou para mim, a folha de papel tinha ficado dobrada inúmeras
vezes, como se fosse uma régua. Dobrou-a ao meio à minha frente e fez um
nó idêntico aos votos e promessas que tinha visto pendurados nas árvores
do templo de Kyoto.
Por favor, disse-me, estendendo o papel e o lenço cuja pertença ela
reivindicara, tomarei providências para que visite esta noite Sakura
dayu. Leve tudo o que a velha senhora lhe deu. É uma visita
que a mim me está interdita. Providenciarei para que seja conduzido à sua
presença. Dissera aquilo com uma resolução tal que recebi a carta e o
lenço sem questionar.
Levantou-se, curvou-se na minha direcção, olhou-me uma vez mais e murmurou
Adeus e afastou-se rapidamente. A bruma fechou-se, engolindo-a.
Conhece Utamaro, Kitagawa Utamaro? Quase gritei. Os passos quase
silenciosos pararam. Ouvi-lhe apenas a voz. Meu marido vive em Edo.(Tóquio)
A névoa tudo cobriu de novo, rodeando-me inexoravelmente, e os meus
sentidos todos cederam a um sono profundo. |
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3. PREPAROS PARA UM
ENCONTRO
Acordei de uma forma única: Uma mão passando os dedos pelos meus cabelos,
penteando-os repetidamente para trás, ora massajando ora simplesmente
acariciando.
Primeiro tem-se a sensação de que o espírito e a alma se renovam. Um bem
estar apoderava-se de mim ainda num estado de dormência. Mas a repetição
dos movimentos tácteis, percebi depois, fazem-nos despertar de uma forma
única, como recém-nascidos olhando o mundo.
Abri os olhos lentamente, já sintonizado para aquela insólita forma de
despertar. Olhei para a minha direita virando a cabeça, e vi a jovem
acabar de retirar repentinamente a mão, os olhos fitando o colo. Estava
agora rigorosamente arranjada mas, curiosamente, o kimono era o mesmo. E
eu estava desperto, tão acordado que tinha reparado que não havia neblina
O quarto não era o meu, mas não era muito diferente. Apenas as madeiras
eram mais escuras. Uma lanterna sabiamente colocada atrás de mim iluminava
o ambiente sem ferir os olhos. A jovem olhava-me de forma diferente. Não
vislumbrava nela nenhum receio ou distância maior que aquela que era
conveniente. E mesmo assim, eu tinha dúvidas. Ela acordara- -me duma
maneira que eu poderia interpretar de forma dúbia. Mas, mais que isso, ela
voltara, apesar da sua despedida.
Esteve a dormir o dia todo e a hora de se avistar com Sakura san
aproxima-se. É preciso que jante, não comeu nada. Espero que goste
do jantar disse, virando-se e trazendo-me um tabuleiro de pé alto que
me permitia comer sentado no chão, e que já deveria estar preparado quando
ela me acordou.
Tudo estava disposto numa rigorosa ordem. Comi o peixe, o arroz e bebi um
delicioso caldo. Reparei que um pequeno caule ainda verde, com botões de
amendoeira cor de rosa ornava a borda de um dos pratos. Durante todo o
tempo em que estive a comer, ela permaneceu imóvel a observar-me sem
trocarmos palavra alguma. Bebi o chá e, quando pousei a tigela no
tabuleiro, dando por terminada a refeição, senti por detrás de mim um
movimento de tecido roçando sobre um corpo e uma outra mulher,
silenciosamente, ajoelhou-se, saudou-me curvando-se, pegou na bandeja e,
erguendo- -se, retirou-se do meu campo de visão.
Percebi que saíra quando ouvi a porta deslizar para se abrir e fechar
suavemente.
Ficámos em silêncio, olhando por momentos um para o outro. Depois, da
prega do seu kimono ela tirou a minha bolsa de cabedal e o meu cachimbo.
Não estranhou o mecanismo que fazia abrir a bolsa. Devia já tê-la
examinado, estava certo disso. Nada disse enquanto eu enchia o cachimbo
com gestos tão diferentes dos que ela deveria estar habituada a ver.
Extraí da bolsa o isqueiro e acendi o cachimbo. Pude perceber uma pequena
centelha de surpresa. Quando expeli o fumo, ela olhou-o a subir e,
segurando a manga do kimono, trouxe a palma da mão para diante do nariz e
aspirou fechando os olhos. Este tabaco tem um aroma agradável,
murmurou.
Algo, como que prenúncio do fio de uma meada, começou a formar-se na minha
mente.
Olhou para trás de si nesse tempo que se distendia, como se procurassemos
prolongar a presença um do outro. Segui-lhe o olhar. Foi difícil
encontrar um traje para o seu tamanho. Reconheci um hakama
(calças largas tradicionais) azul cinza com um padrão de pintinhas, um
kimono liso azul escuro e um haori da mesma cor com cordões
brancos. Ao lado estava um capacete de oficial com um mon (símbolo
de clã nipónico) dourado na frente.
Mesmo de noite é preciso ir bem disfarçado. É difícil passar
despercebido, murmurou.
Percebi que a altura do encontro se aproximava. Ela bateu as palmas e um
homem com o penteado tradicional, a cabeça rapada por cima, o cabelo
oleado e cuidadosamente penteado e atado numa espécie de trança curta que
assentava sobre a parte superior do crânio, entrou de joelhos. Reparei que
a sua expressão era impenetrável e a idade indefinida.
Muraoka Tsunetsugu ajudá-lo-á a vestir-se convenientemente. E saiu,
deixando-me com aquele que designara para me ajudar. Quando ambos nos
levantamos pude perceber que no século XVIII os homens eram sensivelmente
mais baixos do que os do tempo de onde eu provinha. Rapidamente desatei o
obi que Tsunetsugu pegou e dobrou cuidadosamente. Recebeu depois o
yukata.
Reparei que alguém me tinha vestido uma roupa interior tradicional, uma
faixa branca que se enrolava até às minhas costelas, servindo
simultaneamente de calções interiores. Tsunetsugu pegou em cada peça de
roupa e ajudou-me a envergá-la, numa sequência lógica. Primeiro um
sub-kimono de algodão branco. Depois o kimono azul escuro, a que se seguiu
um hakata obi que ajudei a ajustar. Depois foi a vez do hakama,
cuja atadura complicada ele fez rapidamente, apertando bem e esmerando-se
no nó cruciforme. Calcei as tabi, meias japonesas em algodão que
separam o dedo grande dos restantes. As minhas eram azuis escuras e, para
cúmulo, serviam-me, o que não deixou de me intrigar pela eficiência da
jovem. Seguidamente entregou-me um leque fechado com ar expectante.
Tomei-o e pu-lo à cinta, do lado direito. Sabia que o leque era um
elemento indispensável no vestuário tradicional. Tsunetsugu mantinha-se
numa posição semi-ajoelhada que lhe permitia baixar-se e levantar-se
harmoniosamente. Olhei para mim próprio, examinei o nó e o leque.
Entregou-me de seguida o haori e ajustando-o à frente, atou
cuidadosamente os cordões brancos. Olhei o nó e pensei como eram belos os
nós chineses e japoneses. O haori ostentava à frente um mon
de cada lado do peito. Quando levantei os olhos Tsunetsugu tinha nas mãos
uma wakizashi cuja bainha estava lacada de azul escuro. Olhava
intensamente para mim, a espada curta na horizontal, o lado convexo
correspondente ao fio da lâmina virado para ele, o cabo do lado da sua mão
direita. Sabia que me testava. Estendi a mão direita e agarrei na bainha,
muito próximo do cabo, e já com o fio virado para cima, usei a mão
esquerda para ajudar a inserir a bainha no hakata obi. A wakizashi
deslizou suavemente, ficando num ângulo de cerca de 30 graus em relação ao
meu plano frontal. Realizei estes movimentos sem tirar os olhos dele. De
pé, de onde estava, sorri vagamente para dentro.
Tsunetsugu baixou os olhos, levantou-se com a katana na mão direita,
estendendo-ma com uma vénia curta e brusca. Entre nós não basta um
homem estar correctamente vestido. Precisa de se vestir no seu interior e
saber enfrentar a morte de frente para ela. Era a primeira vez que
falava.
Não lhe respondi. Peguei na katana com a mão direita, trouxe-a para junto
do meu corpo, o braço estendido, o fio cortante virado para trás. O meu
corpo e o meu espírito, à medida que iam sendo investidos destas peças de
vestuário, iam-se transformando. Os músculos relaxaram-se, mas estavam
atentos. A mente estava clara, vazia, desperta, pronta a receber. Não
precisava de me ver, sentia-me. Havia como que uma transformação que me
permitia apreender o que o homem que fora encarregado de vestir um
estrangeiro dissera. Não era uma crítica, não era uma repreensão sequer.
Sentia-o antes como um apelo ao meu comportamento, mascarado na forma de
uma afirmação.
Muraoka Tsunetsugu fitou-me surpreendido. Na tua terra, és da casta
samurai? A evocação da minha terra derrubou a vontade de ostentação
que eu quisera exibir face a alguma etiqueta que eu melhor conhecia.
Não respondi, não sou. Não acredito em castas.
A porta abriu-se e a jovem entrou, o olhar baixo. Devia ter estado a ouvir
a conversa, sentada do outro lado da porta. Tsunetsugu pegou no capacete
lacado de preto e, dirigindo-se à jovem, disse: estamos prontos Osode
san.
Ouvi o seu nome pela primeira vez. Osode san repeti eu. Sim,
disse, e o rosto enrubesceu, os olhos baixaram pudicamente. Via agora que
era bastante mais alto que ela. Tinha-a visto sempre deitado ou sentado,
não me tinha apercebido da sua fragilidade. Vamos, disse, abrindo-me a
porta e esperando do lado de fora.
Tsunetsugu acompanhá-lo-á. Está uma liteira à espera em baixo. É
conveniente que vá o mais discreto possível. Descíamos as escadas para o
andar térreo. Fez questão de me levar a katana que segurou femininamente
com as duas mãos.
Um estrado em madeira escura terminava a meio da área inferior, onde o
chão de terra começava. Ali mesmo estava uma liteira de aspecto leve, com
as cortinas corridas. Os carregadores levantaram-se e olharam-me
estupefactos. Havia quatro homens, dois dos quais traziam lanternas.
Osode devolveu-me a espada, pegou no lenço verde, novamente tornado
cuidado embrulho, e colocou-o entre o meu kimono, olhando-me com um ar
ansioso, a mão esquecida sobre o volume do lenço. Pus o capacete que
Tsunetsugu atou.
Os carregadores tinham erguido a liteira, e um dos porta-lanternas
segurava a cortina que me ocultaria.
Não sei quando é que isto tudo vai acabar. Osode olhou-me com ar
controladamente ansioso e respondeu-me com uma pergunta. Onde conseguiu
a gravura? |
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4. REVELAÇÃO
A liteira serpenteava por ruas nocturnas que eu naturalmente desconhecia
mesmo que as cortinas não estivessem cerradas. O movimento oscilante da
liteira tornava-se num embalo, como regresso à infância. Só que agora as
questões que punha não se limitavam ao porquê pueril, e não me tinha senão
a mim, não para dar respostas, mas antes para as encontrar. Não fizera
perguntas, apenas quisera uma gravura de Utamaro, nada mais.
A cada passo que os carregadores davam, mais se acentuava a expectativa
que sentia. Sakura dayu, quem seria para ter um nome destes? Porque é que
Osode me fizera vestir desta maneira se o meu rosto não deixaria dúvidas a
ninguém? As perguntas sucediam-se. Olhei para a grossa corda de seda que
pendia do tecto da liteira, onde eu me segurava com a mão direita e
procurei afastar as perguntas que me punha. Era tudo, ironicamente, uma
questão de tempo. Sorri perante a óbvia conclusão a que chegara. O Tempo,
essa nossa invenção de contar as horas como se fosse aquele a variável e
não nós, que por ele vamos deslizando.
Os sons da rua mudaram, diluindo-se, bem como a luz nocturna que entrava.
A liteira fez uma curva à esquerda e foi abrandando. Os pés dos
carregadores mudaram o embalo ao pisarem cascalho e, a passo, a liteira
parou. Ouvi vozes cumprimentando-se enquanto me poisavam no chão. Deixei
que as formalidades terminassem e rapidamente decidi que me iria deixar
conduzir pelos acontecimentos. Reagiria em função deles.
A cortina foi levantada e a luz de um dos lampiões bateu-me em cheio na
cara, ferindo-me os olhos já habituados àquela semi-obscuridade em que
viera. Senti as pernas dormentes, mas ignorei-as. Tsunetsugu estava
dobrado respeitosamente a uns passos de mim.
Senti que o chão era de gravilha, mas não o olhei. Intuí que não deveria
olhar para o chão. Estávamos num jardim, mesmo depois do portal que
interrompia o muro da casa. Havia uma ponte vermelha, onde em cada
extremidade uma lanterna em forma de telhado, iluminava o caminho. Seja
bemvindo excelência, ouvi dizer e percebi, apesar da escuridão, a
figura feminina curvada, vestida de tons que iam do rosa, ao vermelho e ao
roxo. Quando se ergueu observei que tinha o rosto branco e um penteado
elaboradíssimo onde se adivinhavam inúmeros ornamentos. Espero que
possa encontrar na nossa casa repouso para as suas inúmeras tarefas.
Baixei a cabeça, e ela, indicando a ponte, iniciou o cortejo. Pude ver que
o seu obi estava atado de tal modo que a parte final da faixa
pendia, atrás, até à dobra dos seus joelhos.
A ponte atravessava um lago, e o jardim tinha muito de influência chinesa,
decididamente Tang. As luzes da casa estavam todas acesas.
Descalcei as sandálias e subimos para o corredor exterior, que sem dúvida
circundaria todo o edifício de dois pisos. Senti Tsunetsugu atrás de mim.
Avançou com a mão direita estendida, como que a pedir passagem, embora o
espaço fosse amplo. Com passos rápidos alcançou a mulher e sussurrou-lhe
algo. Ah, so deska! Wakarimasu. Hai! (Ah, pois. Compreendi. Sim)
respondeu ela num tom que me pareceu estudado.
Continuámos a andar como se nada tivesse acontecido. Tsunetsugu aguardou
que eu passasse, fez-me nova vénia, pondo-se de seguida dois passos atrás
de mim. Caminhámos contornando o conjunto de edifícios que se encaixavam
uns nos outros.
A jovem, que andava alguns passos à nossa frente, parou. Ajoelhou-se, fez
deslizar uma porta até metade com uma das mãos, e finalizou a abertura da
porta com a outra mão, tudo numa economia de gestos que fui fixando. Tudo
era estudado até ao mais ínfimo pormenor. Nada cortava a harmonia.
Do lado de lá da porta de correr, outra jovem igualmente de cara pintada
de branco, que eu já adivinhara ser uma gueixa, saudou-me
harmoniosamente, curvando-se.
Tsunetsugu abeirou-se de mim num instante e, com as mãos estendidas,
murmurou: a katana. Fiz uma revisão instantânea. Devia ter-lhe
estendido a katana que levava na mão direita. Penitenciando-me por essa
desatenção mantive a atitude altiva. Tsunetsugu ficaria portanto cá fora à
minha espera. A jovem, levantando-se graciosamente, conduziu-me para o
interior. À medida que observava o percurso onde reinava um estranho
silêncio, inquiria-me o que teria levado Osode a mandar-me para um lugar
destes? Afinal ia-me divertir? Mas pensaria ela que eu me divertia assim?
Novamente tentei afastar o chorrilho de perguntas que se avizinhava e
concentrei-me no ambiente.
Enquanto subia as escadas para o primeiro andar, senti um aroma suave,
novamente de flores, apesar da fileira de velas que iluminavam os
corredores. Seriam as próprias velas? Segui mecanicamente os passos da
jovem ao longo do corredor. Ela abrandou, olhou para mim por cima do ombro
direito, e parou. Ajoelhou-se graciosamente, repetiu os mesmos gestos de
fazer deslizar a porta e, de novo, me saudou curvando-se, murmurando algo.
Hesitei um segundo, lembrei-me do capacete que trazia. Desatei o nó que o
segurava ao queixo e passei para o outro lado da porta que imediatamente
se fechou por detrás de mim.
À minha frente, a cerca de 4 metros, estava uma parede. No chão, um
pequeno candeeiro quadrado de papel e madeira ocultavam a vela que dentro
ardia e iluminava um biombo pintado a dourado, aves voando em formação. À
minha direita, fechada, nova porta, cujo papel deixava antever uma luz
suave, vagamente avermelhada. Senti a tensão do momento, sobretudo agora
que nem o capacete ocultava o meu cabelo, sem dúvida estranho para aquela
terra. Respirei fundo quando estendi a mão para afastar a porta que me
separava de Sakura dayu. Abri-a rápida mas suavemente e entrei. Julgo que
entrei.
Reuni todas as minhas forças para me manter impávido, ainda que o que se
me patenteava me invadisse a mente como alterosas vagas de insólito. |
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Era-me dado ter uma
magnificente visão do predomínio do vermelho, como o rubor anunciando o
despertar dos sentidos. O amplo compartimento estava iluminado por uma
única luz, estrategicamente colocada por detrás e à direita da estática e
fulgurante figura que dominava toda a cena. Sakura dayu estava vestida de
todas as cores de luxo, brocado e seda, vermelho e dourado, padrões
hexagonais fundindo-se com cenas descritivas, uma flor que lhe dava o nome
por cima do peito esquerdo, onde o pouco que se via do kimono era cor de
rosa. O cabelo, soberbamente penteado, era uma coroa de decorações de
alfinetes e pentes, talvez de madrepérola ou tartaruga. O rosto era
espantoso. A tinta branca que cobria totalmente a pele criava uma máscara
que era em simultâneo uma distância e uma proximidade. As pálpebras
estavam levemente coradas a rosa. As sobrancelhas formavam suaves arcos e
os cantos exteriores dos olhos estavam pintados a vermelho, tal como a
boca, um desenho de um vermelho igual, intenso, que combinava
esplendidamente com o liso kimono rubro interior que assimetricamente saía
de entre outras camadas de vestuário sabiamente combinadas. Trazia uma
capa segura pelos braços, espraiando-se pelo chão, coberto por um tapete
de feltro igualmente vermelho, sobre o tatami. O corpo dela perdia-se
nessa esplêndida capa que na frente ostentava, sobre fundo vermelho, o
desenho de uma fénix.
Fixava-me com o anúncio de um sorriso, a comissura esquerda da boca mais
subida que a direita. Baixou lentamente a cabeça, numa saudação
silenciosa. À sua frente, no prolongamento da mão que segurava um
cachimbo, lacado também de vermelho, havia um tabacô bon (tabuleiro
para cachimbo e tabaco). Foi com a mão direita que iniciou a conversa, num
breve gesto. Por favor seja benvindo. Sente-se confortavelmente.
Falava pausada e seguramente, a voz mais grossa do que as que ouvira
anteriormente, mais profunda.
Mantive-me em silêncio enquanto me sentava, puxando para mim uma almofada
vermelha das muitas que estavam harmoniosamente espalhadas. Ela sentiu a
minha perturbação e delicadamente iniciou a conversa. Sakê? Aquece o
corpo e sossega o espírito. Sorri contrafeito. Obrigado, por agora
não.
Sakura dayu sorriu cortêsmente, olhou para a mão que segurava o cachimbo.
Sei que já fumou dos nossos cachimbos. Gostou? Compreendi
quão diferente era a função e o ritual de uma mulher como ela, das suas
congéneres ocidentais. Perguntava-me mesmo se haveria correspondência.
Suspeito que foi essa experiência que hoje me conduziu aqui,
recuperava lentamente o domínio dos meus pensamentos. Não sabia o que
iria encontrar… arrependi-me imediatamente.
O que faz a vida interessante é mais a busca que o encontro, o percurso
em direcção ao aperfeiçoamento do que a perfeição, respondeu sem
pressa, sorrindo. Sentia nela, por vezes, como que a emergência da sua
pele real em relação à máscara de pintura de que se revestia. Mas ainda
era cedo para tirar conclusões. Estudava-mo-nos mutuamente, mas eu intuía
que ela era profunda conhecedora dos homens.
Perdoe-me a pergunta, agora o tom era muito suave. Deixou que
passassem alguns momentos, mexendo com a fornalha do cachimbo nas cinzas
da tigela de porcelana. Será que eu o intimido? A pausa estudada,
não tinha sido suficiente para dissolver a perfurante pergunta. Seria uma
provocação destinada a encaminhar a conversa para outros lados? Mas ela
tinha rompido a etiqueta. Decidi que iria ser eu próprio e confrontar-me
com as diferenças do tempo.
Não sei se me intimida. Admito que estou mais curioso e
intrigado que intimidado. E apeteceu-me fumar para me segurar a algo.
Gostaria de fumar? perguntou-me imperturbável, lendo-me os
pensamentos. Garanto-lhe que o tabaco não é o mesmo… Percebi que
estava inteiramente informada.
O que sabe disso tudo? Perguntei, recusando o cachimbo com um
gesto. Sakura dayu sorriu vagamente, vagueou os olhos que pareciam raiados
de sangue pela pintura. Depois olhou-me: uma mulher como eu, mesmo
tendo a categoria de Oiran (grande cortesã) não deixa de ser procurada
pelos homens pelas mesmas razões que justificam estas casas.
Ouvimo-lhes insondáveis segredos, somos como que o lenço dos seus prantos
reprimidos, o poço que querem que seja regaço. Primeiro damo-lhes a
importância que eles precisam de sentir que têm, por muito ilusória que
seja, depois, quebrado o gelo e desfeitas as defesas, somos confidentes,
recipendiárias de tudo. Compreenderá que estamos treinadas para ouvir,
para receber e dar. Por muito que a dádiva seja supérflua, é importante
para os que nos procuram sentirem que dando, recebem.
A conversa tomava um rumo estimulante. Sempre gostei de mulheres
inteligentes, e Sakura dayu, apesar de jovem, conhecia bem os homens. Não
era um prelúdio para coisa nenhuma, começava a ser uma conversa onde ela
transgredia deliberadamente os limites do comportamento que era suposto
ter.
Mas, comecei, eu não sabia sequer que existia assim.
Depois, Osode san arranjou este encontro. Ela sorriu de novo. Eu
sei, e percebo que, não sendo japonês, não tem os mesmos valores, os
mesmos códigos, o mesmo raciocínio. Acendeu o cachimbo, lançou uma
baforada de fumo e continuou. Fui educada não só por meus pais mas por
homens que queriam converter-nos, estrangeiros como você. Hoje sei como
pensam, suspirou discretamente olhando o fumo a desfazer-se.
Entre nós há uma diferença radical, continuou suavemente implacável.
Nós temos uma cultura baseada na vergonha, vocês têm uma cultura baseada
na culpa. A vergonha a que me refiro não é a do corpo. Esse não nos
envergonha, é parte de nós. Entende-me? Eu vim para este mundo nocturno
mas não me culpabilizo. Aceito pacificamente o que está escrito.
Aprendemos muito com os chineses. Depois transformámos, adaptámos os seus
conhecimentos os seus clássicos confucionistas. Como eles também nos
casámos com a Natureza, percebemos os seus múltiplos ensinamentos e
apelos, quisemos ir ao extremo da percepção. Fez uma pausa, poisou o
cachimbo no tabuleiro. Desde há muito que temos medo de ter vergonha.
Por isso aprendemos desde cedo todos os preceitos do comportamento para
todas as situações. Existe uma ordem que interpretamos como divina. Tal
como os chineses, convivemos com mais que uma religião. Não as
incompatibilizamos porque a ordem do mundo é a consonância, o que
significa que a harmonização implica necessariamente a conjugação de pelo
menos duas fontes.
Olhou para a sua direita e bateu as palmas suavemente, numa certa
cadência. Havia como que um código estabelecido. Uma jovem entrou e
entregou-lhe um instrumento de cordas e uma peça achatada, grande, feita
de marfim, segundo me pareceu. Sakura dayu começou a tocar. Arrancava
notas aparentemente soltas do shamisen (instrumento de três
cordas). Havia uma linha melódica permanentemente descontínua. A enorme
palheta tangia as cordas e aquela música ia-me entrando lentamente,
fazendo-me intuir os mais ínfimos sons da terra, da inaudível floração até
às nossas próprias pulsões.
Estava embrenhado nos meus pensamentos quando o último som se finou.
Lentamente, Sakura dayu pousou o shamisen e olhou para mim. Acho
que entendi, disse-lhe, até porque não suportava o silêncio daquele
momento. Ela tinha dado o tom e a direcção à conversa. Eu iria
continuá-la. Ouvi o que disse e estive a reflectir, mas nada é
absoluto. No ocidente a razão preside…ela, insolitamente
interrompeu-me. Transgredia todas as regras, entusiasmava-se, o que eu
sabia ser contra toda a etiqueta. Perdoe-me tirar-lhe a palavra. Mas a
razão é subjectiva. Nem Platão com o seu discurso da justiça é linear. É
preciso que cada um saiba exactamente o que fazer em cada momento. O
inesperado não é tolerável. Provocava-me certamente, provocava-me até
fora dos limites do seu papel. Talvez quisesse que eu perdesse a
compostura para depois apontar a minha fraqueza. Ou talvez, quem sabe, me
quisesse estimular. Mas atravessara completamente a fronteira da sua
compostura de Oiran.
Ah, fez ela, levando a mão direita à boca. Gomen nasai disse
humildemente, prostrando-se. Não tem importância, não se esqueça que eu
não sou japonês, portanto não se obrigue a esta etiqueta. Ergueu-se
lentamente, subitamente fragilizada. De cabeça baixa respondeu-me num
murmúrio. Perdão, excedi-me inadmissivelmente. Não tenho desculpas.
Ela poderia ter aludido a que se entusiasmara com a conversa, que lhe era
mais grato conversar e sair daquela máscara e daquela pele imposta do que
repetir o que fazia quase sempre. Em vez disso evitou qualquer
justificação, assumiu a responsabilidade.
Peço-lhe, continuemos. E jovialmente continuei perante o seu ar
compungido que eu sabia genuíno. Quero confessar-lhe que não sou deste
tempo. Não vim para este tempo de livre vontade. Vive-se aqui num regime
feudal com o qual eu não posso – vindo do meu tempo – concordar. Mas não
sei como sair disto.
Não havia nenhum preconceito, suspeição ou surpresa na maneira como me
olhava. Sabe, disse já recomposta e algo apaziguada, alguém me
ensinou alguns rudimentos de interpretação de situações…
chamemo-lhes que enigmáticas. A natureza oferece-nos compostos naturais
que, usados de determinadas maneiras, nos fazem avançar ou retroceder no
tempo. O nosso espírito viaja através de memórias esquecidas de outras
vidas de que não nos lembramos conscientemente.
Pode ser, repliquei. Mas que tenho eu a ver com tudo isto?
Apenas entrei numa casa de antiguidades e uma senhora de idade deu-me um
cachimbo e uma bolsa de tabaco embrulhado num lenço que Osode san diz
pertencer-lhe.
Sakura dayu, ouvindo atentamente, voltou a pegar no cachimbo e a
acendê-lo. Fazia-o graciosamente, como graciosas eram as suas pausas. Uma
conversa – tal como um desenho existe nos riscos e nos espaços brancos por
riscar – é feita de pausas e de palavras. Mas é preciso que os
interlocutores entendam isso. E aqui o nosso entendimento era perfeito.
A sua gravura desencadeou tudo isto, murmurou a Oiran, cujo
conhecimento dos antecedentes já me não espantava. Osode san foi a
modelo preferido de Utamaro Sensei (Mestre). Por razões que ela
nunca disse, depois de casarem, regressou a Kyoto, vinda de Edo e leva uma
vida retirada, vivendo dos rendimentos que a sua família lhe deixou. A
vela do candeeiro bruxuleou, dando pequenos estalidos. Senti um ar
apreensivo em Sakura dayu. Com um ar de discernível ansiedade contida
perguntou-me: a casa de antiguidades fica perto de um rio, junto a uma
ponte? Confirmei-lhe que sim, e que a ponte ainda tem aplicações de
bronze nas madeiras. Essa mesma, disse. Senti-lhe novo sobressalto
quando a vela do candeeiro novamente trepidou.
Sakura dayu prostrou-se numa longa vénia. Receio que o privilégio de
termos conversado me esteja a ser retirado em breve. A vela deu outro
estalo grande e apagou-se.
Fiquei mergulhado numa completa penumbra. Subitamente toda a cor tinha
desaparecido. Não consegui vislumbrar quase nada. Sakura san,
chamei. Quase já de muito longe, ouvi qualquer coisa como é preciso que
queime a gravura.
Fiquei sentado em quase total escuridão, não fosse o pequeno candeeiro
exterior. Queimar a gravura de um autor que eu esperara décadas para poder
ter uma...Porquê?
Levantei-me e saí. O corredor estava escuro e silencioso. Desci
cuidadosamente os degraus. A casa estava deserta. Quando saí para o
exterior, o céu tinha o tom cinza azulado do anúncio do dia.
Tsunetsugu ao sentir-me, levantou-se rapidamente. O sono espelhava-se no
seu rosto. Sem uma palavra, saímos.
Quando chegámos ao pé do palanquim, virei-me para ele e perguntei-lhe:
Por acaso Osode san mora ao pé de um rio e de umas ponte que o atravessa?
Sim. É para lá que vamos, ripostou Tsunetsugu.
A minha mente cansada, tal como o dia, começava a clarear. |
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5. TODOS OS TEMPOS
Os acontecimentos sucediam-se num encadeamento que tinha certamente um
sentido, conduzindo a uma interpretação que eu ia apenas suspeitando.
Sentia-me exausto no caminho de regresso. O tempo invertera-se, ainda me
recordava. Era agora manhã quando deveria ser noite. Ou será que eu estava
tão inexoravelmente preso a este tempo que me era já impossível regressar
ao meu?
A liteira oscilando tornava-me ainda mais
sonolento e a fome anunciava-se. O dia era já uma realidade e as ruas já
se povoavam da mais variada gente.
Regressei à memória do encontro com Sakura dayu. Perguntava-me como seria
o seu passado, a exposição aos gaijin (estrangeiros) que ela me
revelara, a razão da sua quebra de protocolo. A máscara que ela envergava
fazia-me querer saber como seria diurnamente, que nome verdadeiro seria o
seu. E o conhecimento que ela indiciara ter do ocidente parecia indicar
que tinha nascido ou vivido em Nagasaki, onde tinham ficado confinados os
estrangeiros. Tudo isto ocorria décadas depois de Tokugawa Ieyasu ter
implantado o seu Shogunato, mas o Japão que eu fora demandar lançara-se há
muito, numa feroz expansão económica.
A
chegada da liteira retirou-me dos meus pensamentos. Estava dentro do mesmo
local de onde partira. Saí tirando imediatamente o capacete, entreguei a
katana a Tsunetsugu, ansioso por me refrescar e comer. Movimentava-me
agora com muito mais à-vontade, consciente porém de que mantinha uma
postura condizente com as roupas que vestia.
Osode
san aguardava-me, bem como duas serviçais. O olhar dela era expectante.
Passei familiarmente por ela. Dormiu? Ela seguiu-me silenciosamente
ao andar superior. As duas serviçais precediam-nos, atentas.
Prefere tomar banho primeiro ou comer? Osode falou pela primeira vez,
como se nada se tivesse passado. Entrei no quarto onde ela me acordara,
hesitando na escolha, mas o estômago falou mais alto. Ela deu ordens às
duas raparigas que se retiraram correndo suavemente a porta. Ajudou-me a
desatar o nó do Haori, recebeu-o e, em passos pequenos pousou-o
cuidadosamente em silêncio. Tirei a wakisashi, olhei para a arma por
momentos, retirei uns centímetros de lâmina da saya e, deliberadamente,
poisei o polegar direito na face da lâmina. Queria deixar uma marca minha.
Osode recebeu a espada. O seu silêncio subsistia tanto como as suas
atenções para comigo. Decididamente havia um tempo para tudo. Retirei do
kimono o embrulho intacto. Entreguei-o novamente neste ritual de nos
despojarmos das coisas quando chegamos a casa. Osode recebeu-o com as duas
mãos, mas manteve-se imóvel, o embrulho junto ao peito, as mãos
envolvendo-o e o olhar cobrindo-me de mudas perguntas suprimidas.
Sumimasen, disseram do outro lado da porta. E um tabuleiro com comida
foi trazido e cuidadosamente colocado no lugar que lhe estava destinado,
por etiqueta, no aposento.
Coma,
disse a jovem docemente, deve estar com fome. E avançou para o
tabuleiro ajoelhando-se à sua esquerda, destapando o arroz que fumegava.
Sentei-me no lugar que sabia ser o correspondente ao de quem come.
Osode san, porque não come? Perguntei, embaraçado por comer só e a ser
observado. Ela encheu-me cuidadosamente a tigela com chá procurando ganhar
tempo. É, hesitou, é meu dever cuidar do seu bem estar…
O apetite abandonou-me. Percebi a angústia controlada dela. Osode san,
comecei, procurando as palavras. Por favor coma ao menos um pouco.
Não tenho fome, interrompeu-me ela. Olhei-a lentamente. Tinha os
olhos com lágrimas lutando para não resvalarem. Suspirei para dentro,
impotente. No ar pairava uma espécie de fatalismo, uma inevitabilidade de
algo que eu ainda não percebera. Olhei para a janela fechada, levantei-me
de repente na sua direcção. Osode correu atrás de mim. Não, não abra,
vai apanhar frio. A voz dela era angustiada, implorante. Fui mais
rápido e, correndo a janela, pus a cabeça e os ombros de fora, respirando
o ar frio daquela manhã cinzenta. Olhei instintivamente para a minha
esquerda, e lá em baixo, tristemente, corriam as águas do Kamogawa (rio
Kamo) por entre uma neblina que dele saía. Senti as mãos de Osode nas
minhas costas, tentando puxar-me para trás, lutando para fechar a janela.
Cerrei os olhos e por mim perpassou uma enorme nostalgia que deu lugar a
uma inexplicável tristeza. Osode chorava silenciosamente, as lágrimas
transbordando, pequenos rios no seu rosto suave. Levantei-lhe o queixo
para que me olhasse. As mãos torcendo-se uma na outra, não soluçava
sequer. Apenas os sulcos húmidos na pele delicada, e os olhos erguendo-se
com tristeza. Porquê? Inquiri com a suavidade que pude reunir.
Osode olhou para além de mim, para um ponto que se situava no infinito do
tempo. Senti as suas pequenas mãos procurando as minhas, agarrando-as
ansiosamente. Tinha entretanto arrefecido. Olhei em volta. Uma neblina que
eu já temia voltava a formar-se, rasteira, pelo chão. Osode soluçou, as
mãos apertaram-me com toda a força, as unhas dela magoando-me a carne como
se quisesse que eu percebesse a sua dor.
O quarto
arrefecera e a manhã ia escurecendo rapidamente. A jovem abraçou-me, o
rosto dela no meu peito, empurrando-o como se quisesse colar-se a mim. A
neblina cercava-nos já pela cintura. Osode afastou-se rapidamente, correu
para um canto da sala, mergulhou na bruma e retornou para junto de mim.
Acalmara-se e, tirando as mãos de trás dela, olhou a gravura e
entregando-ma, disse: foi o único homem além dele que me viu acordar…
Recebi a estampa que ela me estendia com as mãos ambas. Tudo se
precipitava, e havia em mim um inesperado conformismo que me enchia a alma
de amargura.
O
embrulho com o cachimbo, murmurei pedindo, a bruma quase
submergindo-a. Osode olhou-me, os seus olhos marejaram-se de lágrimas
novamente. Por favor, deixe-os ficar. Por favor. O pedido era
pungente, suplicante. Pude entrever no seu olhar a tristeza do rio que
corria lá fora.
A névoa
tapava-a já totalmente, eu sentia-a apenas, as mãos agarrando-me os
braços. Soluçava agora profundamente. Eu próprio começava a ver apenas uma
nuvem branca, luminiscente. Claro, claro que sim, sosseguei-a.
Mas porquê? Tinha de fazer a pergunta. Senti as mãos dela soltarem-se,
como que puxadas pela voragem de algo tão forte como o tempo. Por fim
soltaram-se definitivamente. Ficou apenas na minha pele a sensação da
presença delas. Mas porquê? gritei. Um murmúrio já distante rompeu
a bruma que tudo cobria. Para que o possa oferecer-lhe novamente.
Nostálgicas notas de shamisen fizeram-se ouvir então, ecoando sons
de vários tempos num mesmo. Percebi a intrínseca dissonância harmónica
daquela música. Osode san ainda não está emoldurada. Não pode haver nada
de estranho, nenhuma barreira. Aquela gravura é uma promessa de um eterno
retorno. |
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Gravura e fotografia são
pertença do autor |
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© António Conceição
Júnior 2000 |
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