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30 ANOS DE DECORAÇÃO
Se o vestir constituiu, aparentemente, a primeira necessidade humana, o abrigo foi indubitavelmente o necessário resguardo na sua relação com os elementos. Desde a sua fase embrionária, o ser humano transportará consigo, num interminável ciclo de repetições, a suave memória esquecida do envolvimento uterino. Esse conforto protector ir-se-á projectar sucessivamente, pela idade do Homem, num processo que evoluirá do aproveitamento da gruta – generosidade ainda uterina da Natureza – para a deliberada construção, realizando-se a vontade do homem na assumpção da sua tecnologia. É neste processo de evolução da tecnologia, do conhecimento e dos signos que acompanharão o homem ao longo da sua evolução, que se opera radicalmente a transformação do utilitário em significante, melhor dizendo, se acrescenta ao necessário uma correspondente heráldica denotativa da cultura em presença. E desde os tempos em que Marco Polo narrou as incontáveis maravilhas e preciosidades da Capital do Império do Meio, então chamada Khanbalik, veludos e sedas percorriam já há muito perigosos desfiladeiros e áridos desertos trazendo para a Europa incríveis tecidos que uma civilização avançada produzia. Sedas, brocados, veludos eram tesouros disputados pelos poderosos. Mas nem todos têm do vazio o necessário saber e entendimento para o preencherem da forma mais aprazível e, mais uma vez, reconfortante. Se a austeridade Medieval encontra na Renascença uma forte vaga de renovação, influenciando todos os domínios da arte, num fausto inteligentemente equilibrado no mármore de Miguel Ângelo Buonarroti, o Barroco constitui já a explosão do poder centralista de Luís XIV, projecção e espelho de uma corte devassa, onde o pueril convive com a graça venenosa e o homem se investe de cabeleiras que coroam a futilidade da vida faustosa da corte francesa. Toda a história da Arte é uma história do homem e dos seus gostos e opções ao longo do fio da História. Feita esta longa introdução cheguemos à actualidade, um dos momentos da Pós-Modernidade e das diversas tendências de investir, vestindo as habitações, os escritórios e as empresas daqueles que podem, de sinais de poder e decorrente conforto que lhes é inerente. Ora apresentar uma exposição de design de interiores em Macau será no mínimo insólito, mas nem por isso menos pedagógico porquanto o seu autor, Pedro Guimarães, além de completar este ano 30 Anos de profissão é, não só um dos expoentes mais importantes de Portugal no seu métier, como um homem que tem pela arte chinesa um grande fascínio, sendo ele próprio coleccionador e assíduo visitante de Pequim e outras cidades chinesas. Pedro Guimarães é alguém que, como todos os grandes autores, é simples, acessível, generoso, cavalheiro de extrema delicadeza, verdades que são meras constatações de quem, como eu, tem o privilégio de o conhecer há mais de década e meia. Autor e portador da confiança plena dos seus inúmeros clientes, os quais lhe dão carta-branca para conceber as suas residências, Pedro Guimarães tem invariavelmente incorporado nos trabalhos que faz, uma componente multi-cultural, com especial ênfase, como se disse, para obras de arte chinesa, sempre em harmoniosas integrações entre as estéticas do ocidente e do oriente. Um pouco à semelhança de Marco Polo e dos orientalistas, Pedro Guimarães incorpora a Ocidente, no habitat de cada cliente, alguma da sua vasta experiência e amor pela China. Nestes ambientes multi-culturais, tem realizado por esta via, Pedro Guimarães, um acto de aproximação de culturas sem recurso ao fácil, antes incorporando um requintado gosto que é herança e construção, criando ambientes onde o espírito dos homens encontram o refúgio e o afago do conforto cujo sinónimo é, mais do que eventual luxo, o bem estar que se deseja, possa um dia ser estendido a toda a humanidade. Enquanto tal desígnio de progresso e bem estar constitui ainda uma aspiração e sonho, vale a pena realçar que Pedro Guimarães escolheu Macau para celebrar, com esta exposição-instalação, 30 Anos do seu trabalho. O catálogo, de que este texto é modesta introdução, constitui uma viagem por alguma da vastíssima obra que Pedro Guimarães tem realizado e que por total impossibilidade de a reproduzir na íntegra, se deixam alguns exemplos, dos que foram possíveis de reunir. Macau, Junho de 2000 António Conceição Júnior |