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   Baudelaire não se contentou em reproduzir, na obra de arte, a cisão entre valor de troca e valor de uso. Propôs-se criar uma mercadoria absoluta, na qual a sua transformação em fétiche fosse ao ponto de anular a realidade da mercadoria enquanto tal.
  
   Giorgio Agamden


   O Tecer do Corpo

   O corpo, puro e selvagem de um recém-nascido vem pronto a ser modulado, marcado e orientado para um sentido e um desejo. Mais tarde, o homem, ao olhar para o seu corpo e para o dos outros, reconhecerá uma estranha duplicidade: um corpo socializado, que exibe o signo do interdito, e depois outro, subterrâneo, que na privacidade transforma os signos em objectos de desejo. Desenrola-se, então, um jogo subtil de seduções, de aparições e desaparecimentos sucessivos, a criação de ficções do próprio corpo.
O corpo tem de ser ocultado, é certo, mas talvez o mais importante não seja a criação do interdito. Pelo menos a nós interessa-nos ver o outro lado, a ritualização e investimento do corpo, a metamorfose dos sujeitos sob o efeito teatral do vestuário.
Quem nos garante que a sua origem não se subtraiu à utilidade e passou, sobretudo, pelo estranho fascínio que o vestuário provoca, que o verdadeiro leit motiv do seu aparecimento não tenha sido a estética? Vestir como acto cerimonial, ainda que de características diferentes da cerimónia pública. Aproxima-se muito dos antigos ritos, mas só por uma razão: devido ao alto nível emocional que lhe preside. Ora esta emoção está directamente relacionada com o facto de se estar perante um acto iniciático. Também no rito público se desenrola um jogo que visa o domínio do universo, pela repetição e encenação das suas formas, dos seus deuses e dos seus heróis.
A própria essência da feminilidade está ligada ao ornamento, à construção do artifício, à subtil encenação dos vestidos. Deste ponto de vista, a verdadeira essência do feminino não passa pelo natural, reside na sua anulação, na sua extinção. O artifício marca o momento em que se dá a Natureza à morte, pela criação de um signo que paira acima das formas naturais e as re-significa. Há um endeusamendo neste acto, uma divinização, um investimento sagrado muito próximo do ritual.

Assombra todo este processo uma relação de erotismo silencioso com o próprio corpo, um acréscimo narcísico, quer pela descoberta das suas próprias formas, expostas ou ocultas pela roupa, quer pelo toque dos tecidos, uma outra pele sobre a pele, a sensualidade dos movimentos que vestem um corpo, a um tempo matérica e espiritual, à medida dos sonhos privados. Nesse investimento do corpo, é sobretudo o seu carácter de ocultação/desolcultação que encerra uma forte componente sensual, esse jogo exasperante destinado ao olhar. O corpo transforma-se em objecto primordial, em espaço de organização afectiva.

António Conceição Júnior empresta às suas criações uma ambivalência própria da sua condição particular de encontro entre o Oriente e o Ocidente. Sobretudo, opera um trabalho de reconstituição de trajectos entre a semi-realidade e o imaginário, que presidiram à origem histórica desse encontro. E desse Oriente, "donde vem tudo, o dia e a fé (...) onde deus talvez exista realmente e mandando em tudo..." (Álvaro de Campos, Ode à Noite), vem agora o carácter ritual, a mise-en-scène da cerimónia, as figuras semi-divinas que se cruzam no espaço sem realmente tocarem a superfície.

No mundo de hoje, o Oriente mítico é ainda um espaço-para-o-sonho, na medida em que não foi totalmente codificado pela matriz ocidental. Milhares de séculos de história e de cultura, não são facilmente aniquilados por dois séculos de avanços tecnológicos e tudo está ainda por jogar. Daí que em António Conceição Júnior sejamos remetidos a essas fontes de inspiração antiga, às cidades bárbaras em que homens e deuses conviviam, quando o vestuário assume radicalmente a sua componente deificadora.
Se no caso das suas roupas masculinas, o arquétipo fundamental é o guerreiro, com as suas linhas direitas e rígidas, a contenção formal mas plenamente informada de sentidos e convenções, já no caso feminino a preferência é dada à proliferação desmedida, quase caótica, do tecido. No caos, no informe, surge o corpo feminino divinizado, mulher-deusa com atributos de brandura ou crueldade, sempre, através da criação de uma intangibilidade absoluta.
A procura desta deificação responde da melhor maneira ao impasse que o mundo de hoje incorporou, à perda de valores, ao esgotamento dos arquétipos. Todos os objectos se pretendem fétiche, mas só alguns carregam em si a marca da transcendentalidade. Só através de uma assumpção clara e radical do elemento fétiche é possível recuperar os objectos para o mundo do imaginário, libertando-os do desfilar rápido e efémero das mercadorias. Mas aí é fundamental a referência, a existência de uma ligação directa ou indirecta a um corpus simbólico. Investido de sentidos, o objecto adquire uma perenidade que lhe advém da sua libertação do tempo.

Na obra de António Conceição Júnior é o espaço - e não o tempo - que define coordenadas.
Encontramos uma geografia, não uma história. Deparamos com a diferença, não com a evolução. Não é, sequer, a história do encontro entre Ocidente e Oriente, mas o trajecto de uma viagem incessante, que vem e que volta - nomadismo - que atravessa desertos e aporta a cidades fantásticas, encontra a bondade e o fanatismo, as grandes moles humanas do Oriente e os homens solitários embriagados de deuses.
Esta é a resposta ao esgotamento, à falsidade da mercadoria. Consciente ou inconscientemente, António Conceição Júnior transmuta a frivolidade em conceitos, no desfilar banal e sucessivo de modelos introduz um poderoso elemento fétiche, essa deificação, que se tornou a sua imagem de marca. Os corpos são viajantes por espaços de um imaginário simultaneamente particular e universalista. Habitante, ele próprio ambivalente, desse Oriente/Ocidente, resume no seu trabalho a deambulação permanente, alheamento ao supérfluo e, portanto, não é nele surpreendente, mas inevitável, a emergência da essencialidade.

Carlos Morais José
Escritor, Jornalista e Antropólogo
Abril de 1993

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