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O Tecer do Corpo
O corpo, puro e selvagem de um recém-nascido
vem pronto a ser modulado, marcado e orientado para um sentido e um desejo.
Mais tarde, o homem, ao olhar para o seu corpo e para o dos outros,
reconhecerá uma estranha duplicidade: um corpo socializado, que exibe o
signo do interdito, e depois outro, subterrâneo, que na privacidade
transforma os signos em objectos de desejo. Desenrola-se, então, um jogo
subtil de seduções, de aparições e desaparecimentos sucessivos, a
criação de ficções do próprio corpo.
O corpo tem de ser ocultado, é certo, mas talvez o mais importante não
seja a criação do interdito. Pelo menos a nós interessa-nos ver o outro
lado, a ritualização e investimento do corpo, a metamorfose dos sujeitos
sob o efeito teatral do vestuário.
Quem nos garante que a sua origem não se subtraiu à utilidade e passou,
sobretudo, pelo estranho fascínio que o vestuário provoca, que o
verdadeiro leit motiv do seu aparecimento não tenha sido a
estética? Vestir como acto cerimonial, ainda que de características
diferentes da cerimónia pública. Aproxima-se muito dos antigos ritos,
mas só por uma razão: devido ao alto nível emocional que lhe preside.
Ora esta emoção está directamente relacionada com o facto de se estar
perante um acto iniciático. Também no rito público se desenrola um jogo
que visa o domínio do universo, pela repetição e encenação das suas
formas, dos seus deuses e dos seus heróis.
A própria essência da feminilidade está ligada ao ornamento, à
construção do artifício, à subtil encenação dos vestidos. Deste
ponto de vista, a verdadeira essência do feminino não passa pelo
natural, reside na sua anulação, na sua extinção. O artifício marca o
momento em que se dá a Natureza à morte, pela criação de um signo que
paira acima das formas naturais e as re-significa. Há um endeusamendo
neste acto, uma divinização, um investimento sagrado muito próximo do
ritual.
Assombra todo este processo uma relação de erotismo
silencioso com o próprio corpo, um acréscimo narcísico, quer pela
descoberta das suas próprias formas, expostas ou ocultas pela roupa, quer
pelo toque dos tecidos, uma outra pele sobre a pele, a sensualidade dos
movimentos que vestem um corpo, a um tempo matérica e espiritual, à
medida dos sonhos privados. Nesse investimento do corpo, é sobretudo o
seu carácter de ocultação/desolcultação que encerra uma forte
componente sensual, esse jogo exasperante destinado ao olhar. O corpo
transforma-se em objecto primordial, em espaço de organização afectiva.
António Conceição Júnior empresta às suas criações
uma ambivalência própria da sua condição particular de encontro entre
o Oriente e o Ocidente. Sobretudo, opera um trabalho de reconstituição
de trajectos entre a semi-realidade e o imaginário, que presidiram à
origem histórica desse encontro. E desse Oriente, "donde vem tudo, o
dia e a fé (...) onde deus talvez exista realmente e mandando em tudo..."
(Álvaro de Campos, Ode à Noite), vem agora o carácter ritual, a mise-en-scène
da cerimónia, as figuras semi-divinas que se cruzam no espaço sem
realmente tocarem a superfície.
No mundo de hoje, o Oriente mítico é ainda um
espaço-para-o-sonho, na medida em que não foi totalmente codificado pela
matriz ocidental. Milhares de séculos de história e de cultura, não
são facilmente aniquilados por dois séculos de avanços tecnológicos e
tudo está ainda por jogar. Daí que em António Conceição Júnior
sejamos remetidos a essas fontes de inspiração antiga, às cidades
bárbaras em que homens e deuses conviviam, quando o vestuário assume
radicalmente a sua componente deificadora.
Se no caso das suas roupas masculinas, o arquétipo fundamental é o
guerreiro, com as suas linhas direitas e rígidas, a contenção formal
mas plenamente informada de sentidos e convenções, já no caso feminino
a preferência é dada à proliferação desmedida, quase caótica, do
tecido. No caos, no informe, surge o corpo feminino divinizado,
mulher-deusa com atributos de brandura ou crueldade, sempre, através da
criação de uma intangibilidade absoluta.
A procura desta deificação responde da melhor maneira ao impasse que o
mundo de hoje incorporou, à perda de valores, ao esgotamento dos
arquétipos. Todos os objectos se pretendem fétiche, mas só alguns
carregam em si a marca da transcendentalidade. Só através de uma
assumpção clara e radical do elemento fétiche é possível recuperar os
objectos para o mundo do imaginário, libertando-os do desfilar rápido e
efémero das mercadorias. Mas aí é fundamental a referência, a
existência de uma ligação directa ou indirecta a um corpus
simbólico. Investido de sentidos, o objecto adquire uma perenidade que
lhe advém da sua libertação do tempo.
Na obra de António Conceição Júnior é o espaço - e
não o tempo - que define coordenadas.
Encontramos uma geografia, não uma história. Deparamos com a diferença,
não com a evolução. Não é, sequer, a história do encontro entre
Ocidente e Oriente, mas o trajecto de uma viagem incessante, que vem e que
volta - nomadismo - que atravessa desertos e aporta a cidades fantásticas,
encontra a bondade e o fanatismo, as grandes moles humanas do Oriente e
os homens solitários embriagados de deuses.
Esta é a resposta ao esgotamento, à falsidade da mercadoria. Consciente
ou inconscientemente, António Conceição Júnior transmuta a frivolidade
em conceitos, no desfilar banal e sucessivo de modelos introduz um
poderoso elemento fétiche, essa deificação, que se tornou a sua imagem
de marca. Os corpos são viajantes por espaços de um imaginário
simultaneamente particular e universalista. Habitante, ele próprio
ambivalente, desse Oriente/Ocidente, resume no seu trabalho a
deambulação permanente, alheamento ao supérfluo e, portanto, não é
nele surpreendente, mas inevitável, a emergência da essencialidade.
Carlos Morais José
Escritor, Jornalista e Antropólogo
Abril de 1993
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