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ALQUIMIA CRIATIVA
Em tempo de férias há quem opte por outros destinos mais próximos, mas nem
por isso menos interessantes, do que o retemperador retorno à terra natal.
Se para uns a praia é escape flutuante e recuperador da secura de onze
meses, para outros a descoberta ou, se se quiser, a redescoberta de
destinos próximos pode ser alternativa atraente.
Bangkok, simultaneamente barulhenta e suave, traz-me memórias de gente
lendária como Jim Thompson, pai da renovada seda tailandesa hoje
internacionalizada e objecto de larga demanda, que depois de lançar as
bases para a renovação da sedosa tradição desapareceu em 1967 durante um
passeio a pé pela Malásia, lembrando aquela estrofe do Tao Te Qing:
cumprida a obra, o santo afasta-se.
É todo este processo de transformação entre o que foi e o que poderá ser,
que mais uma vez vem à baila a inata vocação de Macau por entre liturgias
de outras vertentes já em exploração. Se tudo isto aconteceu e vai
acontecendo no reino do Sião, pode acontecer também em Macau.
Trata-se tão somente de recordar que Macau tem de facto uma vocação inata
para a conjugação entre passado e devir, entre linguagens e culturas,
entre realidade e ficção, porque por aqui se cruzaram e cruzam muitos
destinos, e muita coisa foi ficando por dizer ou registar, esquecida no
vão de uma qualquer escada já demolida, espaço aberto para a lenda.
De todo o processo criativo importa lembrar que radica na herança e na
memória, do velho se fazendo o novo, legado do primeiro ao futuro,
operando-se a transformação, tão natural quanto a cadência sucessiva dos
dias às noites e dos meses, pela transmutação, não da matéria mas antes da
ideia primeira que às subsequentes preside e de que é matriz.
DA MATÉRIA INOVADORA
O pensar criativamente já não pode ser um acto individual, mas antes um
exercício em cadeia, entre a percepção do que hoje é o mundo e o conceito
de produto, e a noção do que pode ser nesta matéria Macau no mundo, no
qual a economia é outro dos elementos fundamentais da engrenagem.
Esgotado o modelo económico que foi sistema operativo, sempre houve que
encontrar para este soluções que sendo realistas não podem deixar de visar
o longo prazo, coisa que pelas bandas dos sistemas especulativos não é
elemento de atracção pela inexistência de uma cultura empresarial.
Matéria a reflectir e ponderar não é já tão só o processo criativo que
envolve toda a rede urbana pela compreensão da essência do papel da
cidadania num processo de transformação gradual que se afigura inevitável.
O que importa ponderar e discutir é o formato de uma nova linguagem e
modelo económico que seja tão diversificado quanto possível e
culturalmente enriquecido por um dos mais importantes fenómenos da
actualidade: a informação e formação actualizadas.
Renovar implica sempre uma situação de aparente confronto entre o que é, o
que pode ser e o que se quer que seja. Simples mal-entendido porquanto a
inovação mais não é do que uma potencial mais valia para que se não
depositem os ovos todos numa única cesta.
A REINVENÇÃO DO ÁBACO
É
nesse instrumento de implementação de uma cultura empresarial que depende
e se joga algum do destino da economia da RAEM na medida em que ao
imobilismo repetitivo que se vem arrastando à décadas, há que ousar
encontrar alternativas aliciantes.
Hoje não existe álibi possível escudado em culturas específicas para
contornar situações. Hoje as sociedades tendem a desconhecer fronteiras e
a conjugar a mesma linguagem económica.
O que urge é dar a ver, é pôr á mesa encontros internacionais que rompam a
inércia ou o puro desconhecimento. Se existe uma lógica específica, esta
não é incompatível com uma outra comum, partilhada por todo o mundo.
Entreposto, sendo lugar de permuta, só o será se também se forem criando
dinâmicas internacionalizantes, e se o ábaco souber conviver com a
digitalização, e se de toda esta meada enovelada se encontrar o fio
condutor para uma radical actualização.
Até porque fica bem que Macau, segundo do primeiro sistema, se adapte
rapidamente às mudanças que vão pelo mundo ocorrendo, porquanto nada me
tira da cabeça, nem a Amartya Sen que, quando a economia se
transforma, é para todos. O resto tem outros nomes.■ |