ENTREPOSTO
A ideia de entreposto concentra em si um lugar de permuta. Macau é isso mesmo. Só falta é que todos o percebam.
António Conceição Júnior

CORPO INTERDITO · CORPO CODIFICADO
Como é sabido, o corpo, mediante a cultura com que é olhado, constitui-se numa interdição predestinada a sucumbir, ou em fonte de estudo e cultura, logo sujeita a um sistema directamente inverso ao interdito, isto é, o codificado.
É fácil de constatar que me refiro a conceitos sobre o corpo entre Ocidente e Oriente.
E se a Poente subsistiu até bem tarde a herança do pudor nascido da dentada de Adão na maçã do conhecimento, seguida de todas as interdições conhecidas, é de recordar que a Grécia clássica exaltava o corpo como obra-prima da criação, sem que a nudez fosse em si vergonhosa, tanto mais que já então se saberia como hoje, que nus nascemos todos, só depois aprendendo a encobrir o corpo e o resto, por mantos e artifícios.
Se porém, a Levante a nudez não se exibia, não era o corpo fonte de pecado nem a carne interdita, constando que, desde cedo, no recém unificado Império de Qin Shi Huang (259-210 a.C.), se queimavam em autos públicos tudo o que era livros, de entre os quais os primeiros manuais de acupunctura, indicando do corpo os meridianos e as suas terminações, enquanto no século XX se descobriam estações arqueológicas contendo crânios trepanados e finas agulhas em bronze.
Esta abertura ao corpo enquanto sede e fonte do saber, produto subsequente ao shamanismo do Estado de Zhou e do primeiro dos três pilares do pensamento chinês: o Confucionismo - a que se seguiriam Taoísmo e Budismo – cuja grande contribuição, entre outras, residiu na implementação ética da “responsabilização dos comportamentos e suas benéficas consequências”, seguindo-se-lhe o aparecimento do Taoísmo no período final de Zhou ( 480 – 221a.C.) com todo o seu préstito de observações e postulados que ainda hoje se mantêm firmemente entrosados em realidades tão óbvias como o princípio dos polos positivo e negativo. Tal entendimento antecipado da energia vital ou Chi anuncia uma abertura e compreensão de mecanismos, que só vinte e cinco séculos mais tarde seria mensurável pela ciência ocidental numa das suas formas: o electroencefalograma.
Do mesmo modo, Sun Tzu - cujo nascimento se situa nebulosamente no século V a.C., originário do Estado de Ch’i cuja capital era Lin Tzu – escreveu A Arte da Guerra num período em que, sendo a guerra de vital importância, não se desqualificaram com o tempo tais fundamentos, apesar dos meios arcaicos então existentes. Sun Tzu percorreu os estados vizinhos como estratega. Só bem mais tarde, nasceriam O Príncipe e Gorin-no-Sho de Myiamoto Musashi.
Não será assim de estranhar que Mao Ze Dong não tenha lido apenas Marx, Engels ou Lenine, mas tenha percebido a indeclinável importância dos saberes legados do passado e deles tenha feito a sua estratégia para resgatar a China.
Por fim, e ainda à guisa de intróito, valerá a pena comparar o modo jovial como a terceira idade chinesa pratica o T’ai Chi nos jardins de Macau e por toda a China, em oposição à total renúncia do corpo que ocorre em muito Ocidente, onde os músculos se abandonam ao apoio de uma bengala e o olhar se perde no horizonte de uma memória assente num banco de jardim, silenciosos, o olhar e a memória.
Perante um corpo a Ocidente interdito responde o Oriente com outro, codificado pelos diversos saberes que pelo tempo se foram acumulando, e que ainda hoje são, por alguma erudição preconceituosa, olhados como modos menos nobres de usar o corpo, como se o bailado fosse, por si, a única expressão possível, e o corpo fosse um fim e não apenas meio.
CORPO RESGATADO
Face ao que ficou dito, e porque o corpo também tem as suas expressões - desde as mortificações da Idade Média, umas por auto-punição, outras por memória, como as navalhas xiitas chorando a morte de Hussein, e ainda outras, para as bandas da Índia, como via para outros estados de consciência – que também passam pela percepção do tempo e do espaço na codificação do corpo enquanto instrumento.
É este último que, indefeso, é quase sempre tido como culturalmente incorrecto quando se organiza e sistematiza as suas próprias potencialidades.
Contudo nada disto é novo, e se ao pancrácio se não chamava arte marcial, e o circo romano servia de palco à morte como gáudio, a Oriente, da Índia ao Japão, com especial incidência na China, nascera há muito a auto-defesa.
Não deixa de ser curioso constatar que é ao fim de muitos séculos que as diversas sistematizações alcançam formas novas de síntese. No Japão, as múltiplas formas de jiu-jitsu encontram no Aikido de Ueshiba Morihei uma síntese final, com a formulação do conceito filosófico de que o corpo é apenas via e não fim.
Radica o Aikido no Daito-Ryu Aiki-jutsu do clã Takeda, cuja época áurea foi o século XVI, Período Momoyama, pouco antes da emergência do Shogunato Tokugawa implantado por Tokugawa Ieyasu, em 1602.
Contudo, se no princípio dos anos setenta, a política internacional era para a China a prioridade fundamental, então rompidos os laços com a União Soviética, faltavam heróis no exterior.

TORNA-TE COMO A ÁGUA
Os chineses, sobretudo os que viviam fora do agora primeiro regime, precisavam de um herói contemporâneo, de alguém que pudesse consubstanciar em si uma resposta pronta às ainda frescas memórias das Guerras do Ópio e das imigrações e maus tratos sofridos.
Bruce Lee surgiu nos finais dos anos 60 nos ecrãs de Hong Kong como um furacão nascido nos Estados Unidos, depois de rápida passagem por uma época na televisão americana.
Os primeiros filmes são de pequeno orçamento e baixa qualidade. Contudo o que emerge é um jovem chinês de cerca de trinta anos, capaz de eliminar tudo e todos.
Como mais tarde diria: A melhor arte é a não-arte. A forma máxima é a não-forma. Torna-te como a água. Não tenhas forma, adapta-te ao que te rodeia.
Quando combato, não sou eu que combato. Algo combate por mim.
E de repente o mundo olha incrédulo a figura franzina do último verdadeiro mestre desfeitear os enormes campeões americanos e europeus. O povo chinês encontrava em Bruce Lee, o pequeno dragão, o resgate da sua imagem e a projecção do seu ego, o herói étnico tornado actor.
O entusiasmo natural fez contudo esquecer a verdadeira via das artes marciais. Contrariamente ao que deixam pressupôr, e em sintonia com a máxima de que aquele que conhece os outros é inteligente, aquele que se conhece a si é um sábio, a via marcial do corpo não é mais do que um método para a percepção de outros estádios de consciência, até porque a competição não passa de mera ilusão. Não se derrotando ninguém, encontramo-mos sempre perante o mesmo dilema. Masakatsu agatsu: a única vitória é aquela que operamos sobre nós próprios.
Com o prematuro desaparecimento de Bruce Lee há vinte e cinco anos, insubstituível e insubstituído, o mundo ficou suspenso de qual teria sido a sua evolução filosófica, porque a corporal já a tinha visto. O cinema pouco se preocupa com estas coisas.
E num tempo em que também os ideais de Mahatma Ghandi e Martin Luther King Jr. se foram implantando, tornando – pelo menos na aparência – os homens mais iguais, aqui mesmo ao lado se finou o ícone cuja memória vai tendo, um pouco por todo o mundo, cultores.
Porque este lugar de escrita é Entreposto, também de memórias culturalmente tidas por inadequadas, se reporta esta data. Afinal as verdades já não são monolíticas e a Memória por vezes ajuda a descodificar preconceitos, sobretudo se pensarmos que Macau possui no seu palmarés 7 títulos mundiais de karate-do conquistados no Japão.
Afinal se esta cidade, lugar de permutas, não é verdadeiramente um Entreposto, não sei que dizer da interposição. ■


HISTÓRIA BREVE DE UMA ESSÊNCIA

 

 

 

 

 

 

Ueshiba Morihei

Terry Dobson foi um dos primeiros estudantes estrangeiros de Aikido no Japão.
Viajava no Japão nos primórdios dos anos 60 em um combóio, quando um homem bêbado e violento embarcou, mostrando-se fisicamente ameaçador para com os passageiros, aos quais empurrava e abusava.
Dobson treinara intensivamente Aikido diariamente durante os últimos três anos. Embora soubesse que o seu mestre diria que o Aikido era a arte da reconciliação, e mesmo só pela vontade de lutar estaria perdido o contacto com o universo, estava ansioso por alguma acção. Queria o jovem resolver a situação com o bêbado.
Exactamente quando Dobson procurava chamar a atenção do violento personagem, fez-se ouvir a voz de um velhinho que alegremente chamou pelo bêbado, fazendo-lhe amistosas perguntas, indagando da família e da árvore que teria em casa. Pouco depois o agressivo exterior desfazia-se em lágrimas, contando que perdera a mulher, o emprego, a casa, e que a sua vida era um destroço. Assentava a cabeça no colo do velhinho, chorando convulsivamente, enquanto o interlocutor lhe afagava o cabelo docemente, apaziguando-o.
Terry Dobson olhou então mais cuidadosamente para o pequeno velhinho que chamara o homem, e descobriu o fácies amável do fundador do Aikido: Ueshiba Morihei.
Revelou-se-lhe aí a essência do termo Arte da Paz.

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