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CORPO INTERDITO · CORPO
CODIFICADO
Como é sabido, o corpo, mediante a cultura com que é olhado,
constitui-se numa interdição predestinada a sucumbir, ou em fonte de
estudo e cultura, logo sujeita a um sistema directamente inverso ao
interdito, isto é, o codificado.
É fácil de constatar que me refiro a conceitos sobre o corpo entre
Ocidente e Oriente.
E se a Poente subsistiu até bem tarde a herança do pudor nascido da
dentada de Adão na maçã do conhecimento, seguida de todas as interdições
conhecidas, é de recordar que a Grécia clássica exaltava o corpo como
obra-prima da criação, sem que a nudez fosse em si vergonhosa, tanto mais
que já então se saberia como hoje, que nus nascemos todos, só depois
aprendendo a encobrir o corpo e o resto, por mantos e artifícios.
Se porém, a Levante a nudez não se exibia, não era o corpo fonte de
pecado nem a carne interdita, constando que, desde cedo, no recém
unificado Império de Qin Shi Huang (259-210 a.C.), se queimavam em
autos públicos tudo o que era livros, de entre os quais os primeiros
manuais de acupunctura, indicando do corpo os meridianos e as suas
terminações, enquanto no século XX se descobriam estações arqueológicas
contendo crânios trepanados e finas agulhas em bronze.
Esta abertura ao corpo enquanto sede e fonte do saber, produto
subsequente ao shamanismo do Estado de Zhou e do primeiro dos três
pilares do pensamento chinês: o Confucionismo - a que se seguiriam
Taoísmo e Budismo – cuja grande contribuição, entre outras,
residiu na implementação ética da “responsabilização dos comportamentos
e suas benéficas consequências”, seguindo-se-lhe o aparecimento do
Taoísmo no período final de Zhou ( 480 – 221a.C.) com todo o
seu préstito de observações e postulados que ainda hoje se mantêm
firmemente entrosados em realidades tão óbvias como o princípio dos polos
positivo e negativo. Tal entendimento antecipado da energia vital ou
Chi anuncia uma abertura e compreensão de mecanismos, que só vinte e
cinco séculos mais tarde seria mensurável pela ciência ocidental numa das
suas formas: o electroencefalograma.
Do mesmo modo, Sun Tzu - cujo nascimento se situa
nebulosamente no século V a.C., originário do Estado de Ch’i cuja
capital era Lin Tzu – escreveu A Arte da Guerra num período
em que, sendo a guerra de vital importância, não se desqualificaram com o
tempo tais fundamentos, apesar dos meios arcaicos então existentes. Sun
Tzu percorreu os estados vizinhos como estratega. Só bem mais tarde,
nasceriam O Príncipe e Gorin-no-Sho de Myiamoto Musashi.
Não será assim de estranhar que Mao Ze Dong não tenha lido
apenas Marx, Engels ou Lenine, mas tenha percebido a indeclinável
importância dos saberes legados do passado e deles tenha feito a sua
estratégia para resgatar a China.
Por fim, e ainda à guisa de intróito, valerá a pena comparar o modo jovial
como a terceira idade chinesa pratica o T’ai Chi nos jardins
de Macau e por toda a China, em oposição à total renúncia do corpo que
ocorre em muito Ocidente, onde os músculos se abandonam ao apoio de uma
bengala e o olhar se perde no horizonte de uma memória assente num banco
de jardim, silenciosos, o olhar e a memória.
Perante um corpo a Ocidente interdito responde o Oriente com outro,
codificado pelos diversos saberes que pelo tempo se foram acumulando, e
que ainda hoje são, por alguma erudição preconceituosa, olhados como modos
menos nobres de usar o corpo, como se o bailado fosse, por si, a única
expressão possível, e o corpo fosse um fim e não apenas meio.
CORPO RESGATADO
Face ao que ficou dito, e porque o corpo também tem as suas
expressões - desde as mortificações da Idade Média, umas por auto-punição,
outras por memória, como as navalhas xiitas chorando a morte de Hussein, e
ainda outras, para as bandas da Índia, como via para outros estados de
consciência – que também passam pela percepção do tempo e do espaço na
codificação do corpo enquanto instrumento.
É este último que, indefeso, é quase sempre tido como culturalmente
incorrecto quando se organiza e sistematiza as suas próprias
potencialidades.
Contudo nada disto é novo, e se ao pancrácio se não chamava arte
marcial, e o circo romano servia de palco à morte como gáudio, a
Oriente, da Índia ao Japão, com especial incidência na China, nascera há
muito a auto-defesa.
Não deixa de ser curioso constatar que é ao fim de muitos séculos que as
diversas sistematizações alcançam formas novas de síntese. No Japão, as
múltiplas formas de jiu-jitsu encontram no Aikido de Ueshiba Morihei
uma síntese final, com a formulação do conceito filosófico de que o corpo
é apenas via e não fim.
Radica o Aikido no Daito-Ryu Aiki-jutsu do clã Takeda, cuja época
áurea foi o século XVI, Período Momoyama, pouco antes da emergência
do Shogunato Tokugawa implantado por Tokugawa Ieyasu, em
1602.
Contudo, se no princípio dos anos setenta, a política internacional era
para a China a prioridade fundamental, então rompidos os laços com a União
Soviética, faltavam heróis no exterior.
TORNA-TE COMO A ÁGUA
Os chineses, sobretudo os que viviam fora do agora primeiro regime,
precisavam de um herói contemporâneo, de alguém que pudesse consubstanciar
em si uma resposta pronta às ainda frescas memórias das Guerras do Ópio e
das imigrações e maus tratos sofridos.
Bruce
Lee surgiu nos finais dos anos 60 nos ecrãs de Hong Kong como um
furacão nascido nos Estados Unidos, depois de rápida passagem por uma
época na televisão americana.
Os primeiros filmes são de pequeno orçamento e baixa qualidade. Contudo o
que emerge é um jovem chinês de cerca de trinta anos, capaz de eliminar
tudo e todos.
Como mais tarde diria: A melhor arte é a não-arte. A forma máxima é a
não-forma. Torna-te como a água. Não tenhas forma, adapta-te ao que te
rodeia.
Quando combato, não sou eu que combato. Algo combate por mim.
E de repente o mundo olha incrédulo a figura franzina do último
verdadeiro mestre desfeitear os enormes campeões americanos e europeus. O
povo chinês encontrava em Bruce Lee, o pequeno dragão, o resgate da sua
imagem e a projecção do seu ego, o herói étnico tornado actor.
O entusiasmo natural fez contudo esquecer a verdadeira via das
artes marciais. Contrariamente ao que deixam pressupôr, e em sintonia com
a máxima de que aquele que conhece os outros é inteligente, aquele
que se conhece a si é um sábio, a via marcial do corpo não é mais
do que um método para a percepção de outros estádios de consciência, até
porque a competição não passa de mera ilusão. Não se derrotando ninguém,
encontramo-mos sempre perante o mesmo dilema. Masakatsu agatsu:
a única vitória é aquela que operamos sobre nós próprios.
Com o prematuro desaparecimento de Bruce Lee há vinte e
cinco anos, insubstituível e insubstituído, o mundo ficou suspenso de qual
teria sido a sua evolução filosófica, porque a corporal já a tinha visto.
O cinema pouco se preocupa com estas coisas.
E num tempo em que também os ideais de Mahatma Ghandi e
Martin Luther King Jr. se foram implantando, tornando – pelo menos na
aparência – os homens mais iguais, aqui mesmo ao lado se finou o ícone
cuja memória vai tendo, um pouco por todo o mundo, cultores.
Porque este lugar de escrita é Entreposto, também de
memórias culturalmente tidas por inadequadas, se reporta esta data. Afinal
as verdades já não são monolíticas e a Memória por vezes ajuda a
descodificar preconceitos, sobretudo se pensarmos que Macau possui no seu
palmarés 7 títulos mundiais de karate-do conquistados no Japão.
Afinal se esta cidade, lugar de permutas, não é verdadeiramente um
Entreposto, não sei que dizer da interposição. ■ |