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DIÁLOGOS ENTRE A
CIDADE REAL E VIRTUAL
VISÕES E CONCEITOS PRÉVIOS
Temos das coisas conceitos e ideias que, sendo em si diferentes, não
deixam contudo de conter algo de comum.
Por exemplo, a visão óptica como elemento aglutinador, referenciador e
condutor da primeira sensorialidade até ao cérebro onde se opera o
mecanismo analítico e mesmo decisório. Mas até este foi, desde sempre,
condicionado pela miragem óptica das coisas a que chamamos realidade,
delas se fazendo depender como acessório para a formulação da nossa
leitura do mundo.
Imagine o leitor como um invisual constrói o seu mundo. Imagine as mãos
percorrendo o rosto, o tacto substituindo a visão, uma modelação que se
vai formando na mente, um conceito resultante da topografia do rosto
descoberto. Será que o invisual vê por imagens mentais? Que se passará
nessa noite permanente? Será noite?
Por fim imaginemos aquilo que a ciência sabe. O golfinho tem uma
sensorialidade que excede o âmbito da visão e se estende pelo seu radar
que recolhe informação por toda a superfície cutânea. Sabendo-se que este
mamífero tornado aquático possui inteligência acima da média, como
poderemos nós, os humanos, entender esta visão pelos nossos parâmetros?
A conclusão a que chego é que não pode haver parâmetros, sob pena de nos
enclausurarmos no sufocante aconchego de uma perceptibilidade demasiado
limitada.
Tem este raciocínio, à guisa de metáfora, a função de reflectir sobre o
desafio que o mundo de hoje nos coloca sobre a capacidade de visão numa
sociedade ainda enformada por conceitos definidos como tradicionais, no
sentido da formulação assente na visão como mecanismo primeiro de
informação sensorial.
Se o século XX foi o mais veloz de toda a história do homem, a sua última
década veio anunciar a revolução da comunicação, da informação e dos
saberes, algo que o homem sempre procurou buscar, mesmo quando obrigado a
negar verdades já então óbvias.
Infelizmente o senhor Bill Gates passou de um “ninguém” a uma
personalidade mundial, não tanto por ter criado um sistema operativo que
resolveu mui justamente chamar de Windows, mas por ser o homem mais rico
do mundo. Como se hoje, os mecanismos de riqueza ainda estivessem por
debaixo de colchões de palha, na matéria-prima única ou em algo
verdadeiramente palpável.
O exemplo da Microsoft atesta como, numa escassa década, se operou uma
revolução tecnológica até então impensada, em perfeito entendimento e
sintonia com a world wide web, pondo metade do mundo a comunicar com a
outra metade e trazendo um manancial de informação a casa ou ao escritório
do utilizador.
QUE IDEIA DE CIDADE
Atravessamos uma era onde, um pouco por toda a parte, se vão derrubando
verdades até agora tidas como sólidas, e perante a informatização
galopante se vai entrevendo que o processo de mutação é bem mais rápido
que o da consolidação, levando a que se reflicta sobre todo o formato e
conteúdo de cidade.
Sabe-se que a cultura é inerente à cidade, específica desta, cada vez mais
miscigenada e questionada nas suas formas tradicionais. Sabe-se igualmente
que com as trocas trazidas pelo incremento das deslocações turísticas nos
dois sentidos a que acresce o turismo virtual, a mais valia de Macau
consiste exactamente na sua matriz diferenciada, há muito definida como
mediterrânica, aprazível pela natureza da sua miscigenação.
Também se sabe que ao ratio de crescimento urbano em matéria de construção
na década anterior não correspondeu um poder de encaixe, com evidente
perda de poder de compra por razões especulativas que têm vindo a
alimentar uma parte da economia paralela do território.
Porém, enquanto tudo isto se passa, tem-se sentido o esforço de corrigir.
Seria, contudo, interessante procurar encontrar um consenso sobre o modelo
de cidade que se deseja, que formatação económica se pode esperar, para
além da que já vem anunciada com a diversificação da principal fonte de
receita do território, a qual transporta também a factura dos novos
investimentos resultantes dessa mesma diversificação.
Será, pergunto-me, que a ideia de Macau ou de qualquer outra cidade
representa um conceito de impermeabilidade e fechamento, ou antes de
contiguidade? Será que Macau, enquanto lugar de diversão pode suplantar ou
mesmo sufocar a identidade que possui, enquanto lugar de permuta? Que
compatibilidade, convivialidade ou viabilidade poderá existir entre a
defesa de uma matriz e a implementação de projectos de potencial ludismo,
quando Hong Kong se prepara para lançar por 22.5 mil milhões o seu parque
temático Disneyland de 126 hectares projectado para 2005, potentado que à
partida desqualifica qualquer competição nesta área?
Estas opções decorrem também elas não da projecção de um wishfull thinking
empresarial que não pode, em nome do prestígio do território, ficar-se
pelas inevitáveis sobras do consumo, mas sobretudo porque Macau não tem
espaço físico para a sua implantação.
Recordo-me que nos anos 80 defendi que a importância da preservação do
Património edificado e da sua classificação, não poderia decorrer apenas
de mera legislação, mas antes de uma pedagogia que compatibilizasse o
usufruto dos bens classificados e não na sua mera imobilização.
Confesso que não mudei de ideias, e foi com bastante satisfação que vi
nascer, fruto das dinâmicas e sinergias próprias da população, zonas
específicas de restaurantes no Porto Interior, de antiguidades na Rua de
S. Paulo e bem mais recentemente ao surgimento das “docas”, movimento
espontâneo de investidores que importaria ler. Nada como ler e aprender
com a dinâmica intrínseca do organismo vivo que chamamos cidade.
É neste e noutros pressupostos omissos que importaria também ver a
emergência de um contrato social entre quem manda e quem elege, no
pressuposto de que a grande essência de Macau é não apenas a sua
permeabilidade e contiguidade, mas acima de tudo o potencial trânsito de
ideias entrosáveis com a natureza da cidade.
Todo este prelúdio reflexivo tem a ver com a emergência e consolidação de
novas tecnologias que anunciam cidadanias paralelas em todo o mundo,
conduzindo à inevitável reflexão de que as renovações e contratualizações
presentes devem ter em linha de conta um futuro de pelo menos vinte anos
de antecipação relativamente às transformações que se anunciam,
decorrentes de ordens novas e conceitos emergentes das evoluções
tecnológicas. Macau não tem espaço para o imediatismo, quando possui todos
os ingredientes para a ficção do real, ou, se se quiser, para a realidade
ficcionada que se chamará sempre futuro.
CONCEITOS E NOVAS ORDENS NO FORMATO DO
ENTREPOSTO
A emergência e implantação da internet veio anunciar novas ordens a
requererem novos conceitos, ou, pelo menos, a disponibilidade de
acolhimento e convívio dessas inovações, já consolidadas em alguns
(muitos) lugares geográficos.
Se acredito firmemente que grande parte deste século XXI será o século das
cidades - na convicção de que estas são os módulos revolucionários por
excelência, sobretudo num mundo ligado em rede – afigura-se-me ser de
extrema importância reconhecer a importância das urbes como organismos
vivos e dinâmicos, para entender o que se avizinha.
Crescemos enformados em valores, conceitos e práticas de convivialidade
que muito proximamente irão ter de ser revistos perante o fenómeno da
globalização. Tanto quanto a nossa visão nos conforma a um conceito de
realidade, importante se torna aceitar a coabitação de outros.
Com o advento da televisão disse-se que esta matou as conversas. A
referência era o serão passado a conversar ou a ouvir tocar piano. Hoje a
televisão é um instrumento de recepção de informação e divertimento, de
comunicação e de venda publicitária, condicionante de gostos e
preferências.
Estamos ainda na infância da internet, encontrando-se ainda bastante
iliteracia informática em algo que irá ser no futuro próximo – já o é em
muitos casos e lugares - institucionalizada forma de comunicação,
aprendizagem e informação.
Um desafio enorme se depara às cidades, talvez mais facilmente solúveis em
cidades como Macau, pela sua caracterização logística, potencialidades e
dimensão.
Esse desafio constitui-se na conjugação entre uma vida urbana de grande
riqueza e fruição e o modo como se irá aplicar a realidade que já é a nova
cidadania virtual com o préstito de benefícios, responsabilidades e
consequências.
No imperativo ético daí decorrente, importa auscultar um pouco do que o
futuro pode trazer em matéria de inovação e renovação.
CONTEÚDOS E HERANÇAS
Enquanto vou assistindo aos intermináveis debates sobre a questão da
defesa das línguas como patrimónios que inegavelmente são, não deixa de
ser curiosa a constatação de que porventura este meio de globalização que
é a internet irá conduzir a uma encruzilhada que anuncia uma dualidade: a
necessidade de uma literacia informática de base e a constatação de que a
grande maioria dos conteúdos são de língua inglesa. Este fenómeno de
generalização do inglês torna-o sobretudo num instrumento de comunicação –
mais do que numa língua - onde o Esperanto falhou.
É nessa dualidade ou encruzilhada entre a virtualidade e a tactibilidade
do mundo imediato que o homem deste século se irá cada vez mais embrenhar
e confrontar, sobretudo porque provém ainda de culturas onde a
sensorialidade, a materialidade e a socialização são pesadas e ricas
heranças humanísticas.
Contudo, a revolução caminha de tal modo, que no futuro de uma geração, a
memória das heranças irá ser ultrapassada pela implantação de outras
formas organizacionais e de sociabilidade, agora ainda olhadas de soslaio,
porque tudo o que é novo sempre mete medo. Tanto mais que se poderá
eventualmente criar um conflito existencial entre realidade e
virtualidade.
Ainda é cedo para se tecerem conclusões sobre esta matéria porquanto ainda
não se entrou num estado de total virtualidade nem se deixa de encarar,
neste momento, a tecnologia, sobretudo como um estado de instrumentalidade
que libertou o homem das geografias e das constrições do tempo.
CONVERGÊNCIA E ESTATALIDADE
Assim, num mundo onde a tecnologia e a sua manipulação vão adquirindo uma
dimensão equiparada aos saberes mais tradicionais, todo o universo virtual
reclama uma nova ordem, uma nova estatalidade virtual que possa conferir
um estatuto de entendimento onde os saberes, as economias e comércios
virtuais, a ética e mesmo uma jurisprudência cibernáutica possam ter lugar
como nova ordem social paralela, onde já nem a criminalidade falta.
Nada disto é, afinal novo, se atentarmos sobretudo a que convivem na nossa
era diversas idades da história do homem, da longuíssima idade do
ferro-tornado-aço à era digital, em trajectórias paralelas e tantas vezes
confinantes.
Por tudo o que aqui fica indiciado, há que prever uma nova estatalidade
ou, dizendo de outro modo, a implantação progressiva da coabitação de duas
ordens, até que a transição para a nova se faça naturalmente, em data que
se deseja progressiva, face às disrupções que a mutação acarretaria
necessariamente.
Também por esta razão se verifica quão importante é o papel das cidades no
desempenho desta fase de transição. Também por Macau ser cidade com
vocação histórica de entreposto, aliada à sua dimensão humanizada,
reduzida e laboratorial, se constata a facilidade e mesmo a prioridade que
deveriam ser dadas a esta área que encontra na RAEM fértil campo de
implantação e manobra. É nesta percepção de uma nova forma de coexistência
transitiva, entre a organização citadina tradicional e a inevitável
conversão à nova forma de estatalidade urbana, que se formula a
transmutação entre o passado e o presente.
ALGUNS INSTRUMENTOS FUNDAMENTAIS
Já em plena era digital, onde a banda larga se encontra disseminada e onde
a fibra óptica há muito se encontra implantada, devem ser dados à
população todos os instrumentos para se poder operar a transmutação
anteriormente aludida.
Sempre defendi que Macau, na sua dimensão laboratorial e enquanto espaço
de convergência cultural que é bem mais significativa e essencial do que o
termo em si deixa antever, poderia beneficiar de implementações várias que
atingissem o vulgar cidadão numa contratualização de serviços que a todos
iria fazer lucrar, restabelecendo-se a ideia de Entreposto que sempre foi.
É neste contexto do mundo virtual que falta o estabelecimento de alguns
instrumentos que permitam uma maior fruição das virtualidades de Macau
enquanto potencial pequena-grande cidade.
ECONOMIA VIRTUAL: num momento em que 40 por cento das transacções
comerciais de retalho da economia mundial se fazem pela internet, torna-se
justificativo e mesmo normativo que a banca local ofereça prontamente aos
seus clientes a capacidade de operarem transacções pela internet, mais
concretamente a possibilidade de em Macau existirem, disponíveis, os
merchant accounts através dos quais é possível a aceitação de forma
segura de cartões de crédito em pagamento de pagamento de bens e serviços.
Nestes casos é bem mais certo que a procura se suceda à oferta,
propiciando em pouco tempo, uma resposta ao auto-emprego, se não mesmo à
diversificação do pequeno e médio comércio de retalho para todo o mundo,
processo interactivo que traria uma busca de conteúdos de comércio e a
consequente interligação com outros serviços como o das comunicações,
transportes. Enfim, a cidade navegando no futuro.
Não custará muito a perceber que novos produtos da banca possam surgir
como consequência desta medida.
PORTAL: do mesmo modo, seria desejável que a Administração Pública
tivesse sob um mesmo portal todos os serviços públicos, com toda a
informação prévia normalizada, conducente ao processo global de informar e
preparar previamente o utente com as informações necessárias, avisos e
toda a demais burocracia que, felizmente, não é abundante em Macau. Em
resumo, uma antecipação de uma Loja Virtual do Cidadão, onde o acesso a
cada serviço pudesse, como já se disse, estar disponibilizado.
BANCO DE IMAGENS: Os motores de busca da internet são sempre bons
apontadores de tudo o que a Macau possa importar para a sua projecção no
universo virtual. Um banco de imagens sobre Macau, decorrente de
criteriosa selecção temática por via da contribuição de fotógrafos de
Macau e dos seus funcionários para isso destacados, não deixaria de
constituir significativa mais valia.
UMA NOVA FORMA DE NOVA CIDADANIA?
Entrar em força no universo virtual significa não só ordenar e qualificar
os conteúdos, mas sobretudo entender a importância da revolução global que
está a ter lugar diariamente por todo o mundo.
Se é agradável constatar o número de conteúdos * que Macau já possui, não
deixa de ser imperativo entender que é apenas o início de um processo
normativo que importa fomentar.
Se os novos conceitos do saber se radicam hoje na já enorme capacidade de
consulta dos conteúdos, é na sua potenciação que reside o futuro.
Foi necessariamente com agrado que pude constatar que futuramente os
impostos se poderão pagar por via informática. Será com agrado idêntico
que acolherei o reconhecimento de que na nova ordem, que já vai convivendo
com a velha, é a produtividade que importa, não a velha lei do cartão de
ponto.
É que não custa a crer que nas novas formas de sociabilização, se
incorpore o trabalho em rede, o que ouso acreditar que, no prazo de uma
geração será uma realidade incontornável, onde a produtividade terá uma
cotação bem mais elevada que o conceito disciplinador de assiduidade.
Hoje, mais do que a fruição lúdica, a neo-sociabilização virtual - a
requerer uma cada vez maior literacia informática – constituirá um novo
estádio do homem, exigindo uma total revisão das regras sociais que
naturalmente se irão impôr, mesmo se contrariadas.
É a inevitabilidade tecnológica, é o regresso a uma neo-sociabilização
cuja urbis será um computador, cada vez mais potente, cada vez mais
integrado com o rádio, a televisão.
O jovem de hoje é o arauto das novas formas de cultura onde
neo-tribalismos anunciados pelas perfurações desconvencionadas revelam o
mesmo sentido da revisitação que anuncia uma ruptura. Estão em queda as
convenções imutadas e em ascensão as dúvidas que sempre antecedem novas
certezas em interminável ciclo histórico.
A educação, a saúde, o trabalho, a língua, os saberes estão em confronto e
mutação. Já nada será como dantes. Por tudo isto, se espera que a maçã
edénica, possa agora ser mastigada sem mácula, para que o homem saiba de
todo este universo distinguir do joio o trigo.
Tanto mais que até o Santo Nome de Deus se escreve em 010101 01,
código binário que o Mesmo deu ao homem para se renovar.
* Conteúdos: páginas alojadas na world wide web, portadoras de
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