O Outro Lado do Espelho

  A SINGULARIDADE MACAENSE  
        Roberto Carneiro

 

                              O fluir dos séculos pouco esclarecimento tem proporcionado a este fenómeno.

                              Com efeito, a singularidade macaense inscreve-se melhor no catálogo dos mistérios do que no das categorias racionais. Por esse motivo, ela foge aos limites estritos da previsão humana, escapa à inventiva do córtex cerebral e à sistemática das suas representações.

                              Desígnio da Criação? Mero capricho do destino? Acaso da História? Ou simples combinatória de mundos? Ninguém o sabe, verdadeiramente.

                              Todas as nações têm a sua narrativa. Umas mais densas, outras mais extensas.

                              A nação macaense mistura caminhos, baralha histórias, desconcerta trajectórias. Em boa verdade, ela estabelece um enigma: ela é uma excepcionalidade no espaço e no tempo, é um daqueles exemplares raros que decorrem de um desvio da história, resultam de um acidente, matematicamente improvável, ocorrido na química dos povos.

                              Esta singularidade é nómada.

                              A condição macaense está ferida de errância no mundo … e no próprio território-berço que a gerou. Ela nasceu migrante há quase cinco séculos, afectada por uma atávica pulverização, saudosa de raízes que transporta mas raramente implanta. Uma espécie de colectivo individual que dilacera o sentido de comunidade sem a destroçar.

                              Neste destino de entreposto, a vivência macaense está sempre por cumprir, como se de fadário inatingível e trágico se tratasse.

                              No seu sortilégio, a condição macaense no mundo joga-se contra um horizonte de contingência: tudo se cria, tudo se perde. Como um perpétuo jogo de azar. O desprezo pela quantidade e a ausência de medição são constitutivos: quantos são? que produzem? quanto valem? Pouco importa. A métrica pauta-se por parâmetros imateriais e pouco discerníveis para mentes ocidentais.

                              A "tecnologia" macaense reside, então, na sua enorme criatividade. Partindo de uma interpretação própria do mundo, que combina fètiches e teoremas, taoísmo e cristianismo, mistério e razão, a presença macaense é feita de artefactos que simbolizam uma forma peculiar de interpretar o universo do Yin e do Yang.

                              Os macaenses são a expressão corpórea dessa singularidade.

                              Nesse corpus de nação – as pessoas concretas - realiza-se o activo mais palpável de um legado consuetudinário, formula-se um credo de continuidade.

                              Falar de Macau contemporâneo, de macaenses talentosos, de criatividade intercultural, é falar de António Conceição Júnior.

                              Uma terra é grande quando sabe celebrar os seus maiores, admirar os que se distinguem em cada geração, identificar aqueles que pairam acima da lei da mediocridade. A grandeza de Macau é indiscernível da dos filhos da terra.

                              António Conceição Júnior representa, por si só, a personalidade colectiva dos macaenses, a nação mergulhada no complexo interior de um só Homem, a suprema contingência do ser e do viver nas dobras da história. Nele tem lugar a criatividade conjugada no plural, produto de uma sensibilidade plurifacetada, de uma personalidade multiforme.

                              Dotado de um invulgar talento e apoiado por uma cultura vastíssima, fruto de uma reflexão sofrida sobre as suas complexas origens e os seus amplexos destinos, António Conceição Júnior atingiu hoje a plena maturidade do filósofo, que em tudo descortina significado, e a do artista que nas mais ínfimas coisas lobriga beleza.

                              Ele é do melhor que Macau hoje lega ao Mundo, de uma estirpe que nenhuma outra nação, por mais poderosa ou rica, desdenharia albergar no seu íntimo. É o macaense no superlativo.

                              António Conceição Júnior é um aristocrata da cultura e um cidadão universal, que realiza, ao seu modo singular, a gesta macaense, igualmente singular. Uma meta-singularidade feita de paixão e brocada a ternura … pela sua terra, pela sua história, pelas suas gentes, pela sua aleatória condição.

                              Ele pertence a essa raça especial do Homo Creator. Uma estirpe de homens que não foram feitos para imitar. O seu reino é o da irrequietude, o da permanente criação. O seu diálogo com o mundo é sempre pioneiro, feito daquela vigília activa que prenuncia a irrupção produtiva a qualquer momento.

                              Elegante no fazer e eloquente no dizer, tudo reunindo no dizer fazendo ou no fazer dizendo, a sua devoção à obra é total, convocando entrega, devoção e plenitude.

                              Conhecer o Artista é um privilégio. Falar com o Homem é um prazer. Disfrutar a sua Criatividade é um acto de cultura. Trocar ideias com a Pessoa é uma fonte de inspiração. Partilhar projectos com o impenitente Sonhador é revigorar a Esperança. Conviver com a Família é perceber a fortaleza.

                              Agradeço a Deus o ter-me proporcionado o Dom de o encontrar.

                              Agradeço a Macau a generosidade de aceitar partilhar essa pérola humana, comigo e com o Mundo.

                              Agradeço ao António Conceição Júnior tudo o que me tem dado e ensinado.

                              A sua obra perdurará pelos tempos fora, como inestimável dádiva macaense a benefício do património da humanidade.

Roberto Carneiro

Presidente da Fundação da Escola Portuguesa • Macau
Presidente do Grupo Forum
Presidente do Centro de Estudos de Povos e Culturas de Expressão Portuguesa
Universidade Católica Portuguesa

 

 

 

 

 

 

 

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