O PARADOXO DA RAZÃO  
        António Conceição Júnior

 

                              Depois do fazer é preciso o refazer. Como em tudo, para que o todo se cumpra.

                              E o acto de criar implica conclusões, por demais inconclusivas, pelo menos para mim, e no que me diz respeito.

                              Daí que, desenhar móveis, por exemplo, é desejar que tudo recomece outra vez — mesmo estando como já estão — feitos. Trata-se então de ir à margem das razões e reconstruír o que existe, espécie de peregrinação ao passado dos objectos, destroços de si mesmos, e operar uma apropriação das suas histórias, reconvertê-los, retirando-lhes a funcionalidade que tiveram, integrando-os numa nova história onde o tempo, esse sim, se reinvente. No fundo, e mesmo à superfície, é negar-me ao sentido que do sentido me fazia a concepção e o conceito.

                              É-me necessário reinventar um outro. Penetrar visual, física e simbolicamente nas partes de um todo e reconstituí-las agindo na desmontagem, desconstruíndo a razão de uma ordem para, por vezes no isolamento ou eleição de um detalhe, ritualizando tudo o que seja parte, re-integrar num novo todo, como se de ícones antigos de uma nova religião se tratassem, inventada em noites de vigília, reflectindo sobre essas eternas nuvens que pairam, também sobre Wang Shan, a Montanha Sagrada e Amarela que nunca visitei, mas cuja grandeza intuo no meu imaginário de déjà vus a acontecerem.

                              A linearidade da razão tornou-se-me fastidiosa, tanto quanto me atrai o paradoxo oriental.

                              Nada precisa de ser explicado e no entanto dou-me conta de que me estou a contradizer, dando às peças uma razão que deveria dispensar, para que elas existam por si mesmas, como tudo o que é.

                              O paradoxo apenas existe em função da razão. Destituíndo-a de um sentido utilitário, ela recria por si mesma a sua lógica própria, onde estas desmontagens, montagens ou remontagens se cumprem. Apenas me questiono se para criar o que já existe, tem a lógica qualquer função outra que não a de um álibi intelectualmente caduco, que tem de estar presentificado nesta escrita para cumprir a sua inutilidade.

                              Não quero, neste breve texto, deixar de agradecer o honroso convite que me foi endereçado pelo IPOR, o apoio concedido por esta Instituição, pelo Instituto Cultural de Macau , e ainda pela Fundação Oriente.

Macau, Setembro de 1998

António Conceição Júnior

 

 

 

 

 

 

 

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