Macau, Sábado, 19 de Novembro de 1949
Visado pela Censura

A MULHER MODERNA
Por Deolinda da Conceição


Desde que a mulher saíu do círculo limitado em que vivera condenada durante muitos séculos, muito se tem dito e escrito sobre o seu espírito, a sua inteligência, a sua eficiência profissional e sobretudo àcerca da influência por ela exercida no campo cultural, social, económico e até político.
A mulher moderna não é nem mais inteligente nem mais espirituosa do que aquela que só saía de casa aos domingos, acompanhada pela sua ama, para ir à Missa ou à procissão onde ia expôr uma piedade muitas vezes forçada e que não tinha senão o brilho do verniz da capa do livro que ela folheava distraidamente afim de esconder a sua abstracção de momento.
O que distingue a mulher moderna da sua irmãe de há um século é a liberdade de que se vê revestida, que lhe permitiu cultivar o espírito, educar a sua natural inteligência, colocando-a ao pé do homem nas escolas, universidades, institutos, tornando-a assim habilitada a ingressar no mundo que lhe era vedado até muito recentemente. A sua inteligência, o seu espírito, a sua visão política até, conseguiram que ela fosse admitida naqueles círculos restritos onde se discutem os destinos deste nosso planeta, onde a sorte da humanidade é pesada numa balança cujo fiel é regulado mais pela sagacidade que pela justiça ou razão. A sua presença faz-se sentir no campo científico, onde o seu concurso se tornou bem apreciável, ao campo literário tão povoado das suas criações, na arte, na música, enfim em quase todos os ramos da vida onde o homem imperava sem rival.
Desde o fim da primeira guerra mundial, a liberdade adquirida pela mulher tem aumentado de tal forma que hoje ela é nas fábricas, nos laboratórios, nas minas e até nos serviços militares uma potência respeitável.
Porque essa liberdade lhe exigia uma actividade física mais desenvolvida que aquela que lhe era permitida nos tempos em que se dançava o minuete, a evolução do seu vestuário foi-se fazendo relativamente às necessidades crescentes.
Tempos houve em que muita tinta se gastou e muito papel se desperdiçou combatendo o uso de “slacks” pelas mulheres, mas o tempo demonstrou que ela adoptou essa espécie de vestuário, privativo dos homens, devido à conveniência das suas múltiplas actividades, pois que lhe permite uma maior desenvoltura assim vestida.
As mulheres que descem às minas, aquelas que se viram transformadas, pela guerra, em motoristas, mecânicas de aviação, em correios, viajando em bicicletas ou motocicletas, vieram provar que se a moda pareceu leviandade, tinha também o seu quê de útil e necessário.
Mas essa liberdade que a mulher conquistou à força do seu trabalho, da sua aplicação e do seu esforço, não deve ser motivo para liberdades que firam a sua sensibilidade feminina ou tornem o homem isento das suas responsabilidades que lhe eram impostas pelo código social até então.
A mulher que sabe bem interpretar a sua liberdade, aquela que lhe permite invadir os laboratórios e as fábricas, o senado e as embaixadas, não se deprime aos olhos do sexo oposto, antes se coloca num nível de igualdade, onde no entanto, a sua dignidade de mulher nunca é esquecida nem deslustrada.
É sobretudo no campo social que a mulher joga a sua liberdade. A mulher que se diz da idade moderna, que se iguala ao homem em liberdades só a ele permitidas, porque a ele não lhe ficam mal, essa não conhece o verdadeiro sentido da liberdade. A liberdade que certas mulheres usam ou de que abusam, no trato directo com o sexo forte, é uma liberdade que não lhes grangeia nem o respeito nem a admiração que lhes são devidos pela sua inteligência, espírito, ou outro dote qualquer que normalmente constituíriam objecto de devoção.
Quer por ignorância, quer por uma educação deficiente ou quer ainda por uma interpretação duvidosa do sentido da liberdade, há mulheres que abdicam de todo o direito ao respeito alheio com atitudes equívocas que lhe roubam não só o encanto da sua feminilidade como também a protecção a que tem direito e que pode exigir à Sociedade.
Mas, desde quando ela interprete mal o sentido da verdadeira liberdade, o seu bem-estar, a sua segurança até, ficam entregues à sua própria guarda e é então que ela se torna não livre, mas escrava de caprichos e paixões funestas.
Hoje em dia, já se nota que os homens se não levantam à entrade de certas mulheres. É que se elas aparecem de cigarro ao canto da boca, batendo-lhes nas costas com uma familiaridade inacreditável, tornam-se iguais a eles, portanto... não há que haver cerimónias.
Passam pela rua e surpreendem olhares indiscretos ou ouvem ditos desrespeitadores. Mas se ela se permite a liberdades de trajes inconvenientes ou atitudes equívocas... porque ofender-se com aquilo que ela provocou, ou de que só ela tem a culpa?
A liberdade, sobretudo quando é usada excessivamente, não liberta verdadeiramente a mulher. Prende-lhe aos pés uma grilheta, e toda a mulher de bom senso sabe que o seu uso discreto e limitado a colocará em situação não só de superioridade perante o homem, como fará dele o seu mais dedicado servidor.