MEMÓRIA DA MEMÓRIA

Por circunstâncias várias tenho adiado a conclusão de um sítio, há muito iniciado, dedicado a minha Mãe, Deolinda da Conceição. Por ocasião da celebração dos 50 anos do seu falecimento pude, finalmente, dedicar-me à construção deste novo sítio, coincidindo com o lançamento da 4.a edição do seu livro "Cheong Sam" (A Cabaia), publicada pelo Instituto Internacional de Macau e com a homenagem prestada pelo Instituto Português do Oriente, abrindo um ciclo de conferências sobre a Mulher e publicando online um conto do seu livro.

Importa que se recorde que, em 1987, o Instituto Cultural de Macau também tinha promovido uma homenagem a Deolinda da Conceição, por ocasião dos 30 anos do seu falecimento, publicando nessa ocasião uma Fotobiografia.

A todos quantos, ao longo dos anos, quiseram recordar  Deolinda da Conceição, vai o meu profundo reconhecimento.

Meus pais trabalhando, frente a frente, na redacção do "Notícias de Macau"

 

O "NOTÍCIAS DE MACAU" constitui para mim não uma miragem, mas uma memória. Tive o grande privilégio de, ainda criança, e já depois do falecimento de minha Mãe,  ter podido, pela mão de meu Pai, visitar as instalações do velho casarão onde funcionava o jornal, na íngreme Calçada do Tronco Velho. Olhar os velhos tipógrafos chineses que, logo na sala da esquerda, à entrada, compunham à mão e em tipos móveis, textos cujo conteúdo desconheciam - milagre dos milagres - e poder subir as escadas para a Redacção e Administração onde, invariavelmente, encontrava a grande mas fugidia figura de Luís Gonzaga Gomes, e o mitico  "Monteiro das barbas", Hermman Machado Monteiro, que me dava cinquenta avos para os rebuçados, enquanto era recebido com um "ora viva" de Patrício Guterres, ou com um sorriso de Raúl da Rosa Duque.Aí me ficava a ver o Sr. Anízio, me espantava com as máquinas velhíssimas, já sem letras nas teclas gastas, e olhava o velho Jacob que, com ar sério por detrás das grossas lentes, trazia para a revisão os linguados de papel impresso, a tinta ainda fresca, para revisão.
As velhas secretárias, com candeeiros de mesa de abat-jours verdes em forma de concha, tresandavam a tempo. Muitas vezes acendi e apaguei aquelas luzes, pensando qual seria a que iluminara a mesa de minha Mãe.
Recordo-me de um dia ter ido ao Hotel Riviera com o meu Pai, e com ele subi ao enorme quarto onde vivia Hermman Machado Monteiro, proprietário do jornal, que naquele seu modo tranquilo e quase silencioso, por detrás das barbas já grisalhas, me perguntou, com ar cúmplice, se queria um charuto.
Aos 14 anos, regressado de um colégio que frequentei em Portugal, quis seguir as pisadas dos meus pais e, com grande benevolência de todos, iniciei uma página juvenil, escrevendo e ilustrando, olhando orgulhoso as zinco-gravuras que o Jacob me trazia.
Foi também ali que, além de outros redactores, com enorme paciência e ternura, duas senhoras me contaram coisas sobre minha Mãe.
Meu Pai foi o último director do "Notícias de Macau", e viu fecharem-se as portas quando, ironicamente, a liberdade do 25 de Abril, por via de uma estranha comissão ad hoc, desferiu o golpe final a um jornal que tinha por tradição juntar Administração, Direcção, Redacção, Tipógrafos, todos sem distinção, à mesma mesa. Meu pai escreveu o último editorial, à guiza de saudação final, Spartacus - morituri te salutant.

Para muitos tudo isto constituirá novidade. Este texto possui um objectivo único: dar um modestíssimo testemunho da importância que teve - dentro da memória de uma memória -  o "
NOTÍCIAS DE MACAU" para a vida cultural de Macau, numa época onde o anacronismo dos meios não obstava à vontade denodada de pessoas como Luís Gonzaga Gomes, Deolinda da Conceição, Hermman Monteiro, Cassiano da Fonseca, Raul Rosa Duque, Patrício Guterres, José dos Santos Ferreira, António Maria da Conceição,  Adelino Barbosa da Conceição e tantos outros  que, renunciando aos prazeres do ócio, construiram diariamente, por amor, um jornal.

António Conceição Júnior