JOSÉ SANTOS FERREIRA

PATRÍCIO GUTERRES

JORGE RANGEL

CASA DE MACAU - LISBOA

NOTICIA DO IPOR

GAZETA MACAENSE, 23 DE SETEMBRO DE 1987
EVOCAÇÃO DE DEOLINDA DA CONCEIÇÃO

Palavras ditas ontem, na Galeria da Livraria Portugues, no XXX aniversário do seu falecimento.


Minhas Senhoras e meus Senhores,

Estamos aqui reunidos para evocar a memória de uma escritora e jornalista macaense, falecida há trinta anos: DEOLINDA DA CONCEIÇÃO. Merece os maiores encómios esta iniciativa do Instituto Cultural de Macau, a cujo conselho directivo preside um intrépido paladino das coisas e das gentes de Macau: o Dr. Jorge Morbey.
Esta Semana Evocativa de uma contista macaense, é prova mais que evidente, a juntar a tantas outras, do seu amor e desvelada dedicação pelos valores macaenses da Cultura Portuguesa.
Como dizia, estamos aqui para evocar a memória da Deolinda da Conceição. Recordo-me dela com viva saudade. Trabalhei com essa admirável jornalista e escritora macaense, que se fez e se impôs por mérito e esforço próprios, no velho “Notícias de Macau”, desde a sua fundação, nos dez primeiros anos da sua existência. E foi nas colunas deste jornal que ela revelou o seu inegável talento literário.
Dela e do seu esposo, o sempre lembrado Dr. António Maria da Conceição, recebi uma lição e um estímulo: a lição da sua dedicação sem limites pelo jornal, e o estímulo para prosseguir até hoje nessa tarefa árdua e ingrata, mas fascinante.
Não resisto, pois, à pressão interior de começar por evocar esse diário.
Na senda aberta pelo desaparecimento de “A Voz de Macau”, com a morte do seu proprietário e director, esse republicano ferrenho e democrata de gema, Capitão Domingos Gregório da Rosa Duque, surgiu a 25 de Agosto de 1947, o “Notícias de Macau”, fundado por Hermman Machado Monteiro, também figura marcante de republicano e democrata, esse português de lei, que nasceu eu Celorico de Basto e adoptou Macau como sua segunda terra natal. Aqui viveu a maior parte da sua vida. Aqui amou, sofreu e lutou, sempre de olhar fito na Bandeira verde-rubra, no engrandecimento da Pátria distante e no desenvolvimento económico desta terra. E aqui deixou os seus ossos, sonhando sempre no regresso do Sol da Liberdade e da Democracia. E morreu sem ter a suprema consolação de raiar a Alvorada de Abril.
Não é sem emoção que recordo os vinte e oito anos vividos naquele velho casarão da Calçado do Tronco Velho – hoje demolido e substituído por um moderno edifício multi-pisos, denominado “Edifício Dr. Caetano Soares” – onde funcionavam a Direcção, Administração, Redacção e Oficinas do jornal de Hermman Machado Monteiro. E hoje, funciona o “Jornal de Macau”, dirigido pelo colega João Fernandes.
Em “O Pós de um Prefácio”, no livro de contos “Cheong Sam” (“A Cabaia”) de Deolinda da Conceição, sua Mãe, reeditado em 1979 (23 anos após o aparecimento da primeira edição, em Lisboa) estampou António Conceição Júnior estas palavras que valem bem uma legenda.
“... O velho casarão da Calçada do Tronco Velho, que alojava o Notícias de Macau, ameaça ruína. Já no teu tempo o sobrado devia ranger. Porém, tu, Luís Gomes, Cassiano da Fonseca, Hermman Machado Monteiro, Rosa Duque, Patrício Guterres, meu Pai, o velho tipógrafo Jacob, defrontavam, quotidianamente, nocturnamente, em máquinas anacrónicas, a aventura de um diário. Hoje, as tábuas já não rangem. Usa-se betão armado...” (fim da citação)
Tantos lustros volvidos, lembro-me, com profunda saudade, desses vinte e oito anos (1947-1975). E, ao lançar um olhar retrospectivo pela senda percorrida, na vida daquele diário de expressão portuguesa, como jornalista sem canudo nem carteira profissional, apagado e quase anónimo, perpassam pela minha retina, numa sequência sucessiva de imagens, como no desenrolar de um filme cinematográfico, caras amigas daqueles camaradas de trabalho que, ao longo desses anos, foram tombando, um a um, a meio da jornada. E também daqueles que, felizmente, estão vivos, alguns deles aqui presentes.
A evocação dessas sombras que passam, dariam um livro de memórias. Por hoje limito-me a evocar a nossa homenageada desta tarde.

n

Minhas Senhoras e Meus Senhores

Deolinda da Conceição, em vida, acalentou dois grandes sonhos, que conseguiu ver concretizados um ano antes de nos deixar para sempre: visitar Portugal e publicar um livro.
Este livro tem por título “Cheong Sam” (“A Cabaia”) e reune um feixe de contos de temática chinesa e macaense, inicialmente dados à estampa na “Página Feminina” que ela mantinha no “Notícias de Macau”.
Bastou este seu único livro para a consagrar como contista, na opinião autorizada e insuspeita de João Gaspar Simões, Amândio César, e outros críticos literários de renome.
A primeira edição, datada de 1956, foi feita em Lisboa pela Livraria Francisco Franco, com prefácio de Afonso Correia (esse escritor que amou Macau) e capa de Bernardino de Senna Fernandes (artista macaense radicado em Lisboa).
A segunda edição foi publicada por iniciativa do seu filho, António Conceição Júnior, que ilustrou a capa e escreveu “Pós de um Prefácio”. Este “Pós de um Prefácio” é dos trechos mais sentimentais que tenho lido. Vale ouro. Como de ouro é o seu coração de filho e de artista.
Lança-se, agora a sua terceira edição, por iniciativa do Instituto Cultural de Macau.
E, no entanto, por ironia do destino, essa contista macaense, continua pouco conhecida na sua própria terra natal. O que não acontece fora de Macau. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, é lida e apreciada por luso-americanos.
Sabemos que o Instituto Cultural de Macau está empenhado em publicar novos volumes de contos e outros escritos da saudosa Deolinda da Conceição. Merece o maior apoio esta iniciativa, que julgo estar na linha da preocupação constante do ICM: arrancar do olvido da memória de tudo quanto em Macau represente a presença cultural portuguesa.
Como português natural desta terra, encaro com apreensão o futuro de Macau e dos Macaenses, o futuro deste chão sagrado pelas ossadas dos nossos antepassados e pela marca inconfundível de Portugalidade.
Por isso, tudo o que contribua para reavivar essa presença, para perpetuar essa memória, afigura-se-me cem por cento positivo. Creio que, neste ponto, estamos todos de acordo.

n

Minhas Senhoras e Meus Senhores

Escrevi estas palavras com a tinta da saudade e estou a lê-las ao ritmo do coração. Sinto-me, neste momento, dominado por inefável e irresistível emoção. Não sei nem posso continuar. Porque quando fala o coração, a pena ou a boca cedem-lhe o lugar. Para que as palavras não maculem a pureza do sentimento.
Cheguei, pois, ao fim. Obrigado pela gentileza da Vossa atenção. Mas antes de terminar, peço-vos uma salva de palmas em homenagem à memória da Deolinda da Conceição na pessoa dos seus familiares aqui presentes.
Porque uma salva de palmas e não um minuto de silêncio? Porque Deolinda da Conceição não morreu. A sua alma desprendeu-se, há trinta anos, da argila humana que a prendia à terra e voou para as regiões do Além. Mas ela continua viva na obra literária que nos legou, na lembrança íntima dos seus familiares e na saudade indelével de todos os seus amigos e admiradores, entre os quais me incluo.
Tenho dito.

Patrício Guterres.