JOSÉ SANTOS FERREIRA

PATRÍCIO GUTERRES

JORGE RANGEL

CASA DE MACAU - LISBOA

NOTICIA DO IPOR

DEOLINDA DA CONCEIÇÃO
por
José (Adé) dos Santos Ferreira


Para ela, o poente da vida despontou cedo. Foi quando, talvez, as primeiras brisas de felicidade mal haviam começado a acariciar-lhe os dias. Oh! Quanto ansiou ela essa felicidade!
Com a chama do amor ainda a flamejar-lhe no coração, a inteligência a resplandecer-lhe no cérebro, a esposa e mãe carinhosa que sofreu porque amou com verdadeiro amor, a mulher instruída que marcou posição de relevo no campo das letras, cedo se apartou de tudo e de todos, deixando angustiados não poucos corações. Grande foi o vácuo produzido pelo seu desaparecimento no meio literário em que evidenciou talento. Admirada pela personlidade e firmeza de carácter, a mulher de fino trato, dotada de um coração singular sedento do bem e da perfeição, levou quase a vida inteira a lutar pelos seus ideais, sempre confiante no triunfo, mas só naquele que desejava alcançado por via da rectidão e méritos próprios. Por isso se fez trabalhadora activa, intransigente nos seus princípios honestos e justiceiros, infelizmente nem sempre bem compreendidos.

Dedicada aos amigos, que acolhia a todo o momento com redobrada estima e a quem não regateava ensinamentos e conselhos válidos quando lhos pediam, sabia também abrir o coração para compreender o infortúnio alheio. Nunca foi rica. Mas generosa foi sempre a socorrer os necessitados que a procuravam, dando-lhes quanto podia do pão ganho à custa de árduo trabalho. De tudo isso fomos testemunha várias ocasiões.
Era assim a saudosa DEOLINDA DA CONCEIÇÃO, a Amiga de grande estima com quem tivemos o privilégio de conviver durante largo tempo e, mais de perto, naqueles memoráveis anos em que, juntamente com outros honestos trabalhadores do jornalismo amador, integrámos o corpo redactorial do "Notícias de Macau".
Extremamente sensível às coisas belas da vida, sempre idealizadora, imaginativa, Deolinda teve também sonhos inebriantes a retratar a sensibilidade delicada da sua alma. Nem tudo, porém, se lhe tornou realizável. Muitos dos seus sonhos acalentados com desmedido entusiasmo e enlevo não passaram, afinal, de imagens de cores bonitas que acabaram por desbotar na tela de doces quimeras. Deus lhe encurtou o caminho da vida, impondo-lhe cedo a chegada da negra noite. Lutadora aguerrida embora, nessa luta sucumbiu perante a força irresistível do destino.
Partiu resignada e cheia de fé a esposa e mãe, a alma crente. Partiu saudosa a escritora macaense de valor, que dignificou e amou Macau. Com profunda mágoa foi a sua perda sentida. Também a chorou sua terra ao ver partir para a viagem sem regresso uma filha prendada, de excelsas qualidades, de sentimentos elevados.
Deolinda da Conceição vive ainda na memória de quantos a conheceram bem e a estimaram muito. Deolinda da Conceição é um nome de que Macau e as suas gentes bem se podem orgulhar.

José dos Santos Ferreira
1987

texto inserio na Fotobiografia de Deolinda da Conceição
Comemorativa dos 30 Anos do seu falecimento