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ao livro
"Cheong-Sam"
(A Cabaia)
de Deolinda da
Conceição
Do conceituado matutino "Diário de Notícias", de Lisboa, transcrevemos,
com a devida vénia, o seguinte extracto da apreciação do conhecido
escritor, ensaista e crítico literário
Dr. João Gaspar Simões, ao livro de contos chineses "Cheong-Sam"
(A Cabaia), com que a nossa prezada colaboradora D. Deolinda da
Conceição
se estreou, como escritora.
Segue a transcrição:
Crítica
Literária
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CHEONG-SAM
(A CABAlA), contos chineses, por Deolinda da Conceição
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Quando abrimos o livro de Deolinda da Conceição - Cheong Sam (A
Cabaia) - livro que nos é apresentado com o subtítulo de "Contos
chineses", fizemo-lo com a mesma apreensão que nos toma quando visitamos
uma exposição onde se nos oferecem objectos de arte oriental. A mistura do
autêntico com o falso é hoje corrente em tais certames, e a loiça que
actualmente nos chega dessas paragens quase toda ela é produzida pela
máquina, sem a graça espontânea da criação manual. "Contos chineses", da
autoria de uma escritora macaísta, eis uma iguaria a saborear desde que a
cozinha europeia, com os seus processos mecânicos, não haja viciado o
paladar .. da "cozinheira." É claro que a tricomia da capa nos põe de
sobreaviso sobre a natureza dos temas abordados. Se déssemos inteiro
crédito à sua inspiração magazinesca, nem sequer teriamos hesitado -
julgar-nos-íamos, sem contestação, diante de uma Pearl Buck nacional, de
via reduzida, está claro. Felizmente, Deolinda da Conceição soube evitar
os perigos a que convida o exotismo profissionalizado de alguns dos mais
conhecidos escritores modernos, e o seu livro não nos desiludiu. Antes
pelo contrário. Se é verdade que muitos dos seus contos são de ambiente
moderno e que a China do nosso tempo, sobretudo depois da invasão
japonesa, com toda a sua odisseia de misérias, desempenha papel de relevo
na concepção de muitos deles, o certo é que a autora soube servir-se de
uma arte de contar que se filia muito mais na tradição dos apólogos
seculares da velha literatura budista que própriamente no conto moderno de
contextura magazinesca. E eis aqui onde os contos de Deolinda da
Conceição, retomando, por assim dizer, a maneira do apólogo e o seu
carácter singelamente oral, se isolam da tendência moderna deste género de
literatura, particularmente impopular e não poucas vezes destituída de
qualquer verdadeiro significado literário, tão inábil e acanhada se revela
a pena daqueles que porventura abordam o género sem a necessária
comparticipação do génio ou do talento.
Não diremos que a autora de Cheong-Sam é uma escritora de largos recursos,
nem esse é o seu propósito ao compôr esta série de contos chineses.
Natural de Macau, onde tem praticado o jornalismo, é este o seu primeiro
livro, e com ele recebe o baptismo das letras no solo metropolitano. Em
que medida é que a sua familiaridade com um povo "alheio às tradições da
sua lingua e às manifestações da psicologia comum à gente do meio em que
foi criada a habilitou com uma linguagem tão simples e uma arte de contar
tão pura - não o saberemos dizer.
Não há duvida, porém, que os contos de Deolinda da Conceição, na
simplicidade do seu estilo e na singeleza dos seus recursos narrativos -
muitos deles são breves narrativas, sem diálogo nem acessórios de
observação ou paisagem -, são qualquer coisa de invulgar no panorama da
nossa literatura de ficção. Humanos, comovidos, entre poéticos e
lendários, se em muitos deles somos postos em contacto com uma China
trucidada pela guerra e com um povo calcado aos pés do invasor, em não
poucos também se nos entremostra a pureza misteriosa de uma maneira de ser
que dá às mulheres a palma de sacrifício e aos homens essa enigmática
presença tão admiràvelmente desenhada na figura de A-Chung, o marido de
Chan Nui, a protagonista do primeiro conto, aquele que dá o nome à
colectânea - Cheong-Sam.
Já estávamos desabituados de ler histórias da tradição oral, e o certo é
que a leitura dos contos de Deolinda da Conceição, por mais realistas e
dolorosos que alguns deles se nos revelem, guardam seja o que for dessa
admirável magia das histórias de fadas - sobrevivência moderna dos velhos
apólogos orientais.
Pena é que a escritora, de quando em quando, afrouxe os seus cuidados, e a
sua pena, viciada pelo jornalismo, se abandone à prática do lugar comum,
necessàriamente prejudicial à frescura e à graça incontestáveis dos seus
contos, por vezes admiráveis. |