A MULHER E A OBRA

 

Deolinda da Conceição, para além dos inúmeros artigos publicados nos Jornais onde colaborou (Voz de Macau, Notícias de Macau e Diário Popular), também escreveu contos, pequenos textos ficcionados que, tal como as suas crónicas, espelham a sua personalidade, sensibilidade e carácter.
27 destes contos foram seleccionados pela autora e compilados em livro, a que deu o título “Cheong SamA Cabaia” e subtítulo Contos Chineses.
Não tendo competência para uma leitura crítica da sua obra (já em 4.a edição, traduzida em chinês e com alguns contos também já traduzidos em inglês), deixo aos especialistas a sua análise.
Felizmente têm sido vários a debruçarem-se sobre o pequeno livro de contos, exactamente na perspectiva da capacidade de transparecerem a realidade multicultural da sua autora.

Relembro aqui, e que me perdoem os que por desconhecimento não mencione, a Prof. Doutora Ana Paula Laborinho, o Prof. Doutor David Brookshaw, o Prof. Doutor John Kelly, a Prof. Doutora Inácia Morais, a Mestre Manuela Vale, a Mestre Staci Chiu Ieong, o Mestre Gustavo Infante e a Socióloga Mónica Souza Simas.
Foi distribuído por todos, com o objectivo de encurtar o tempo desta conversa, entre outros textos, uma das primeiras análises feitas à obra, na abalizada leitura de João Gaspar Simões, ensaísta e crítico literário, publicada no “Diário de Notícias” de Lisboa, em 1956, quando “Cheong Sam – A Cabaia” foi dado à estampa, estreando Deolinda da Conceição como escritora.

Deolinda da Conceição era uma Macaense de identidade portuguesa, transportando em si, como a maioria dos seus conterrâneos, a capacidade de, desde o berço, conviver e falar o cantonense, e bem assim o inglês.
A condição de macaense permitia-lhe compreender o Outro, pois desde pequena se habituara à multi-culturalidade desta cidade, aos odores e sons característicos que povoavam Macau do seu tempo.
Por isso, considero de enorme mérito a crítica de João Gaspar Simões, feita há 52 anos, pois soube perceber a distinção entre a autenticidade da obra e a tentação, que uma leitura apressada poderia provocar, de a considerar exótica.

Deolinda não tinha grandes pretensões literárias, não buscava a exaltação da sua erudição. Os seus contos tinham a dimensão que o espaço de um jornal lhe poderia conceder. Estavam, à partida, limitados e ela tinha plena consciência disso.
Gaspar Simões escreveu:
A autora soube servir-se de uma arte de contar que se filia muito mais na tradição dos apólogos seculares da velha literatura budista que propriamente no conto moderno de contactura magazinesca.
Mais adiante refere:
Estávamos desabituados de ler histórias da tradição oral, e o certo é que a leitura dos contos de Deolinda da Conceição, por mais realistas e dolorosos que alguns deles se nos revelem, guardam seja o que fôr dessa admirável magia das histórias de fadas – sobrevivência moderna dos velhos apólogos orientais.

Preocupava-a, principalmente, transmitir, ficcionando, muita da realidade que vira no sofrimento, quase atávico, que caracteriza o povo chinês, aguçado em tempo de guerra.

As “heroínas”, os espaços, a realidade sobre que escreveu era a realidade com que também ela se identificava. Escreveu sobre a China, em português. O Outro era também ela própria, na sua dimensão humana. Partilhou com outros essa dimensão de ser GENTE, independentemente da condição, estatuto, religião ou raça.
Deolinda, enquanto macaense, descodificou aos portugueses, então numa situação de poder administrante em Macau, a realidade com que lidavam e que tinham o dever de dar solução.
Deolinda era também portuguesa. Nutria um amor profundo por Portugal, apesar de só o ter visitado um ano antes de falecer, que é algo que, para muitos que não conhecem a realidade de Macau, se torna incompreensível.
Deolinda da Conceição teve necessidade de escrever, nos idos anos 50, nas páginas do “Notícias de Macau”, sobre quem era esta comunidade. Com certeza que não se dirigia aos seus conterrâneos, mas para quem cá aportava e não compreendia quem encontrava.
Esta realidade multicultural foi, durante séculos, eivada de equívocos.
Nestes escritos, exaltados e pacificadores, Deolinda afirma a sua identidade, como que um apelo ao reconhecimento da sua matriz cultural.
Muita gente já não compreende esta noção étnica de Macaense. Esta afirmação de identidade hoje talvez já não seja necessária, nem sequer tenha sentido, mas quando se fala de cultura portuguesa em Macau, devo dizer que – como é lógico e evidente – quem verdadeiramente foi o portador bem como o usufrutário da cultura portuguesa, quem verdadeiramente a legitimou por via da sua adaptação, ao longo dos séculos, foi a comunidade Macaense, uma nação de indivíduos, cada um com uma espantosa história genética, autêntico caldo de DNAs.
Foram esses portugueses, e não os capitães-gerais, quem souberam naturalizar à geografia do lugar, a cultura portuguesa.

Deolinda di-lo de outra forma, noutro tempo e noutro contexto. Hoje o conceito de Macaense abandonou o contexto étnico para se inserir num âmbito mais lato e bem mais abrangente, abriu-se a todos quantos amam e aceitam Macau, independentemente da origem, nacionalidade, religião ou qualquer outra definição.
Mas Deolinda da Conceição e a sua escrita espelham também outra matriz. Ela possuía duas memórias: a memória deste lugar chamado Macau e uma outra – a China. Esta sua condição posiciona-a entre duas Culturas, melhor dizendo, convoca duas culturas.
Esta condição, isto é, esta capacidade, esta disponibidade para a aceitação, compreensão e absorção da diferença, permite-me compreender Deolinda e, como ela, outros que, em diferentes formas de expressão, têm Macau como palco para as suas ficções, porque encruzilhada de muitas culturas sem cenário, convidando à reinvenção ou à conjugação cultural ou, ainda, à criação de outras linguagens, à ficção como linguagem.
É assim que passo, ao nível da imagem, da iconografia, a tentar explicar esse palco de todas as ficções cuja leitura terá a legibilidade que cada um puder descodificar.

 

Esta edição da Peregrinação, reeditada pelo Expresso, com ilustrações de Carlos Marreiros e design de Vítor Marreiros, expressa bem o que acabo de dizer. Trata-se, para quem conhece a edição, de uma narrativa gráfica dentro da obra literária. É o espaço para a leitura multicultural dos lugares das visitações de Fernão Mendes Pinto.

 

 

 

É difícil encontrar melhor ilustração sobre a iconografia dos Macaenses do que estes dois cartazes realizados por Ung Vai Meng, director do Museu de Arte de Macau. Estamos neste caso perante uma leitura de um artista que sendo chinês de origem, estabelece brilhantemente a definição da nação macaense.

É difícil compreender a essência da pintura de Lio Man Cheong sobre os jesuítas se não se conhecer a cultura chinesa e as suas formas simbólicas de representação. Do mesmo modo, os hoquistas em campo aludem à memória de um dos desportos onde os macaenses mais se distinguiram. É mais uma vez a memória do lugar que define as diversas formas como cada um se exprime.

Konstantin Bessmertny dificilmente encontraria noutro lugar a diversidade de temas que, ao longo dos anos foi usando na sua pintura. Quer o tema irónico do Casino Republic quer a paródia às visões dantescas de Bosch ou Breughel.

 

É neste sentido que, a vários planos, se podem ficcionar discursos, face ao lugar, talvez mais imediatamente legíveis enquanto imagens. É a aquisição do vocabulário múltiplo da vivência e, com ela, da memória da multiculturalidade.

É também esse o sentido da escrita de Deolinda, invariavelmente manifesto, a meu ver, nos seus contos.

Deolinda da Conceição, embora genuinamente preocupada com a condição da Mulher, não se limita, não se fica por aí, como distraidamente pode parecer. O seu discurso é mais abrangente, revela uma postura militante contra as barreiras do preconceito, sejam eles de que ordem e origem forem. A mais valia desta mulher é ter deixado testemunhado que não há fronteiras culturais que resistam à disponibilidade de compreender o Outro, à liberdade de se afirmar quem é.
A esperança e a redenção que os seus contos acabam por ser, oferecendo sempre soluções, nem sempre simples e quase sempre dolorosas, são paradigma da sua visão do Mundo, da eterna condenação a entendermo-nos todos, a aceitar o Outro na sua plena dimensão de Ser Humano.

Por tudo isso me sinto honrado por poder chamar Deolinda da Conceição de Mãe.

António Conceição Júnior