COMUNICAÇÃO APRESENTADA NA
SESSÃO DEDICADA A DEOLINDA DA CONCEIÇÃO
POR INICIATIVA DO
INSTITVTO PORTVGVÊS DO ORIENTE


Dia 10 de Março de 2008
Galeria da Livraria Portuguesa

 

Gostaria de começar esta conversa agradecendo à Senhora Presidente do IPOR, Doutora Helena Rodrigues, a amabilidade que teve em se lembrar novamente de Deolinda da Conceição, dando-me o privilégio de, ainda que com as limitações que me caracterizam, viajar no tempo e na história de Deolinda.
Uma das razões que me levam à disciplina de escrever esta comunicação em vez de deixar-me discorrer ao sabor de meras notas, prende-se com a minha preocupação em não cansar a assistência.

Permitam-me assim, convidar-vos a viajarem por um tempo de Macau que alguns de vós conheceram, e para outros já impossível de conhecerem por inteiro.
Um tempo onde os ponteiros do relógio se moviam sem pressas, onde as casas eram baixas, invariavelmente brancas ou ocres, e as acácias enrubesciam na Primavera. Um tempo onde o sol queimava e as amas chinesas, de trança longa, vestidas em cabaias brancas, duras de goma, largas calças pretas, atravessavam as ruas cruzando-se com vendilhões ambulantes de quase tudo, e com riquexós e triciclos.
Era um tempo sem tempo, escoando-se lentamente ao som das cigarras e dos raros automóveis que se identificavam pelo som.

Esses tempos já remotos e diferentes, em que os palacetes da Praia Grande ofereciam as janelas à brisa marinha e os juncos pareciam imóveis na sua partida para a faina, esses eram os tempos e os cenários que viram nascer e crescer Deolinda Salvado da Conceição.
Partirei da sua vida relevando os pontos mais marcantes para que, a partir da Mulher, se possa compreender a Escritora.
Contudo, desejaria relevar aqui a minha total impreparação para falar academicamente de minha Mãe.
Qual o percurso desta mulher para ter surgido como escritora? Que vivências terão influenciado a sua forma de ver o mundo e os outros? O que terá provocado o seu olhar lúcido e humano em tempos tão conturbados e duros como foram os dos primeiros 50 anos do século XX?
O que vos posso contar por testemunho directo sobre a Deolinda, é muito pouco. Ela faleceu há 50 anos, quando eu era ainda criança. Prefiro guardar para o fim, se tivermos

tempo, as parcas mas significativas memórias que dela tenho.

Tudo o que sei dela chegou-me por via do meu Pai, do meu irmão Rui Alves, e de amigos que – bastas vezes de lágrimas nos olhos – me contavam episódios da determinação  e da generosidade de minha mãe.
Deolinda do Carmo Salvado foi a quarta de oito irmãos, filha de António Manuel Salvado, natural de Medelim, Concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, militar que por Macau ficou, e de Áurea Angelina da Cunha, filha de Francisco Manuel da Cunha Júnior, também militar, e neta de Francisco Manuel da Cunha, nascido em Goa.
Minha Mãe nasceu no dia 7 de Julho de 1913 na Freguesia de S. Lourenço.
Desta mistura paradigmática, daquilo a que chamo a nação macaense, sei que Deolinda Salvado foi aluna  

brilhante do Liceu de Macau, então situado no edifício onde hoje é a sede do Instituto Cultural de Macau ao Tap Seac, hoje nova praça desenhada pelo ilustre Arq. Carlos Marreiros.
Foi aluna de homens como Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes e Vicente Jorge Silva.
Em 1931 a jovem Deolinda, então com 18 anos, casa em Cantão com Luís Gaspar Alves, na ilha de Xiamin.
Do casamento, a que se seguiria o regresso a Macau, nasceram o meu irmão José Maria Salvado Alves, o Joe, em 1932, hoje a viver nos Estados Unidos, e o meu irmão Rui Cândido Augusto Alves, nascido em 1936 e falecido há menos de um ano.
Este casamento precoce anunciava já o carácter determinado da jovem Deolinda, nascida num tempo e numa sociedade guiada por regras de obediência das mulheres aos pais e, depois, aos maridos, de quem dependiam. Porém, ela regressou a Macau enfrentando, porventura, a ira paterna pela sua expressão de vontade própria.
Após o nascimento do meu irmão Rui, parte a família Alves para Xangai em busca de melhores horizontes que a então depauperada Macau não podia oferecer.
Deolinda tinha um excelente domínio do Inglês, escrito e falado, bem como de estenografia, não tendo sido difícil encontrar trabalho na cosmopolita Xangai, num horizonte promissor. Porém a invasão japonesa, o massacre de Nanquim depressa desfizeram as esperanças de todos quantos viviam na grande metrópole a Nordeste de Macau.
Perante a ferocidade e proximidade dos invasores, e face às voltas que a vida dá, Deolinda e os dois filhos embarcaram para Hong Kong com o estatuto de refugiados. Aí chegados, Deolinda não esmoreceu e torna-se Directora da Escola Portuguesa dos Refugiados de Hong Kong, enquanto se desdobrava no cuidado dos meus irmãos e ainda encontrando tempo para escrever e traduzir o serviço noticioso telegráfico de inglês para português para o diário “A Voz de Macau” fazendo igualmente parte da Missão de Protecção aos Refugiados.
A título de fait divers desses tempos de guerra, fome e morte, permitam-me que partilhe um episódio contado pelo meu irmão Rui. Há alguns anos estávamos juntos a falar das nossas vidas, quando ele me contou que a história do filme de Spielberg “ O Império do Sol” lhe tinha sido “roubada”. Com o seu riso também barbudo, o meu irmão contou-me que, quando preso com a nossa mãe e irmão no Campo de Refugiados de Hong Kong durante a invasão dos japoneses, como era então pequeno e franzino, chamavam-no de lou si chai, o ratinho, e de como ele escondia batatas nos calções e as levava para as diferentes casas do campo, e de como assistiu, do terraço, a um bombardeamento dos Mitsubishi Zero dos japoneses, provocando o alvoroço aos da casa, que não sabiam dele.
Deolinda, então jovem mulher de 32 anos, que vira e enfrentara os horrores e provações da guerra, regressa em Macau sem nada, mantendo a mesma determinação, agora já suficientemente temperada pelo sofrimento precoce.
Com a sua infindável energia, passa a ensinar Português no Colégio do Sagrado Coração do Instituto Canossiano e torna-se Directora da Escola de Refugiados patrocinada pela A.P.I.M. - Associação Promotora da Instrução dos Macaenses.
Cumulativamente adere ao jornal que o auto-exilado Republicano Hermman Machado Monteiro fundara em 1947, o “Notícias de Macau”, depois de fechado “A Voz de Macau”, por morte do seu proprietário e director, Capitão Rosa Duque.
Como o destino também reserva boas surpresas, no jornal encontra outro membro da redacção, António Maria da Conceição, professor, que regressara de Portugal onde se licenciara em Filologia Românica. Os ex-colegas de liceu reencontram-se, escrevendo frente a frente, ele sobre desporto e Deolinda, inicialmente Secretária da Redacção, escrevendo e coordenando o Suplemento Feminino.
Era a única mulher numa redacção de homens, abordando um tópico até aí inédito no jornalismo local: o do papel da Mulher na Sociedade.
Ouçamos este escrito de Deolinda pela voz da sua neta Beatriz: A Crítica


Deolinda da Conceição divorcia-se e casa com António Conceição. Corriam os anos quarenta do século passado, e o divórcio era, por si, um estigma que poucas mulheres aceitariam carregar.
Em consequência dessa frontalidade, dessa profunda coerência com que vivia, foram-lhe retirados todos os cargos docentes.
A cerimónia de casamento realizou-se a 29 de Maio de 1948 nas instalações do “Notícias de Macau”, apadrinhada por Hermman Machado Monteiro, o proprietário do jornal, e Cassiano da Fonseca, o director, na presença de todos os colegas entre os quais Luís Gonzaga Gomes, José dos Santos Ferreira, o Adé, e Patrício Guterres.
Em 1951, no Hospital de S. Rafael, nasce o terceiro filho de Deolinda: eu.
Deolinda escreveria mais tarde no “Notícias de Macau”, curiosamente no dia 25 de Abril de 1953, um texto sob o título A Mulher Moderna que mais uma vez a sua neta nos irá ler.

Vale a pena perguntar quem era, de facto, Deolinda do Carmo Salvado da Conceição. De tudo o que se pode compreender e depreender, Deolinda era uma Mulher emancipada, suave, graciosa mas impenitente lutadora pelos valores em que acreditava firmemente.
Como se pode constatar mais uma vez destes inéditos para o público em geral, Deolinda não perdia ocasião para, com grande sensatez e fina ironia, apelar às mulheres não só para se libertarem, fazendo sensato uso dessa liberdade, como a consciencializar-se da sua igualdade relativamente aos homens, seus pares, sem para isso ser necessário deixarem de ser femininas.
Estamos, vale a pena repetir, nos fins dos anos 40, princípios dos anos 50.

Deolinda, jornalista, não se vendia nem por um prato de lentilhas. Havia nela uma integridade de tal modo enraizada pela história da sua própria vida, que lhe era vital viver com absoluta coerência.
Caberá aqui outra pequena história a ilustrar o que acabo de dizer:

Pessoa chegada telefonou um dia a Deolinda pedindo-lhe que fizesse uma reportagem sobre uma obra que tinha mandado construir. Minha Mãe declinou de pronto e, provavelmente para não ferir a vaidade do interlocutor, invocou uma razão lógica: Já tinha um alinhamento para os próximos meses e não fazia excepções.

Este exemplo de integridade e de sensibilidade, fez-me fazer uma revisitação ao significado daquela pergunta de todos conhecida: O que é a Verdade? E, a única resposta satisfatória que encontrei, estimulado pelo legado de vida de minha Mãe, foi apenas uma:
A verdade é a coerência com que vivemos para com a nossa própria consciência.

Gostaria que ouvissem mais este texto, também publicado no “Notícias de Macau” em 1952, e intitulado A época do Carnaval e o Carnaval de Época.

Essa maneira de ser determinada, fortificada por um porte pleno de dignidade, não impediu que aquela que foi uma Mulher livre e emancipada, pudesse ter as suas contradições.
E a amarga ironia, é que jamais se iria supor que, por puro pudor de consultar em Macau um ginecologista, esperasse para consultar, em Lisboa, uma ginecologista.
Tarde demais, infelizmente. E assim, apesar de ciente de que a doença já estava demasiado espalhada, Deolinda foi a Portugal, conheceu os dois grandes Amigos do marido, colegas do tempo da Faculdade e Amigos até à morte, viu o seu livro publicado pela Livraria Francisco Franco, trabalhou como correspondente de inglês, ganhando o então inaudito ordenado de 3.500$00, e cumpriu dois grandes sonhos: conhecer Portugal e visitar a Basílica de Fátima.
Em 1957 regressámos de avião a Hong Kong, onde minha Mãe foi imediatamente internada no St. Paul’s Hospital e de onde não sairia com vida.
Estive no mesmo quarto que ela, com uma bronco-pneumonia, mas mesmo no seu leito de morte não me recordo de a ouvir queixar-se, apesar do grande sofrimento por que passou.

A própria vida da Deolinda é, em si mesma, uma história merecedora de ser um dia escrita, porque as realidades que ela encerra, e de que aqui foi revelada uma pequena parte, transcendem, como muitas vezes acontece, a própria ficção.
 

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