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brilhante
do Liceu de Macau, então situado no edifício onde hoje é a sede do
Instituto Cultural de Macau ao Tap Seac, hoje nova praça desenhada pelo
ilustre Arq. Carlos Marreiros.
Foi aluna de homens como Camilo Pessanha, Manuel da Silva Mendes e Vicente
Jorge Silva.
Em 1931 a jovem Deolinda, então com 18 anos, casa em Cantão com Luís
Gaspar Alves, na ilha de Xiamin.
Do casamento, a que se seguiria o regresso a Macau, nasceram o meu irmão
José Maria Salvado Alves, o Joe, em 1932, hoje a viver nos Estados Unidos,
e o meu irmão Rui Cândido Augusto Alves, nascido em 1936 e falecido há
menos de um ano.
Este casamento precoce anunciava já o carácter determinado da jovem
Deolinda, nascida num tempo e numa sociedade guiada por regras de
obediência das mulheres aos pais e, depois, aos maridos, de quem
dependiam. Porém, ela regressou a Macau enfrentando, porventura, a ira
paterna pela sua expressão de vontade própria.
Após o nascimento do meu irmão Rui, parte a família Alves para Xangai em
busca de melhores horizontes que a então depauperada Macau não podia
oferecer.
Deolinda tinha um excelente domínio do Inglês, escrito e falado, bem como
de estenografia, não tendo sido difícil encontrar trabalho na cosmopolita
Xangai, num horizonte promissor. Porém a invasão japonesa, o massacre de
Nanquim depressa desfizeram as esperanças de todos quantos viviam na
grande metrópole a Nordeste de Macau.
Perante a ferocidade e proximidade dos invasores, e face às voltas que a
vida dá, Deolinda e os dois filhos embarcaram para Hong Kong com o
estatuto de refugiados. Aí chegados, Deolinda não esmoreceu e torna-se
Directora da Escola Portuguesa dos Refugiados de Hong Kong, enquanto se
desdobrava no cuidado dos meus irmãos e ainda encontrando tempo para
escrever e traduzir o serviço noticioso telegráfico de inglês para
português para o diário “A Voz de Macau” fazendo igualmente parte da
Missão de Protecção aos Refugiados.
A título de fait divers desses tempos de guerra, fome e morte,
permitam-me que partilhe um episódio contado pelo meu irmão Rui. Há alguns
anos estávamos juntos a falar das nossas vidas, quando ele me contou que a
história do filme de Spielberg “ O Império do Sol” lhe tinha sido
“roubada”. Com o seu riso também barbudo, o meu irmão contou-me que,
quando preso com a nossa mãe e irmão no Campo de Refugiados de Hong Kong
durante a invasão dos japoneses, como era então pequeno e franzino,
chamavam-no de lou si chai, o ratinho, e de como ele escondia
batatas nos calções e as levava para as diferentes casas do campo, e de
como assistiu, do terraço, a um bombardeamento dos Mitsubishi Zero dos
japoneses, provocando o alvoroço aos da casa,
que não sabiam dele.
Deolinda, então jovem mulher de 32 anos, que vira e enfrentara os horrores
e provações da guerra, regressa em Macau sem nada, mantendo a mesma
determinação, agora já suficientemente temperada pelo sofrimento precoce.
Com a sua infindável energia, passa a ensinar Português no Colégio do
Sagrado Coração do Instituto Canossiano e torna-se Directora da Escola de
Refugiados patrocinada pela A.P.I.M. - Associação Promotora da Instrução
dos Macaenses.
Cumulativamente adere ao jornal que o auto-exilado Republicano Hermman
Machado Monteiro fundara em 1947, o “Notícias de Macau”, depois de
fechado “A Voz de Macau”, por morte do seu proprietário e director,
Capitão Rosa Duque.
Como o destino também reserva boas surpresas, no jornal encontra outro
membro da redacção, António Maria da Conceição, professor, que regressara
de Portugal onde se licenciara em Filologia Românica. Os ex-colegas de
liceu reencontram-se, escrevendo frente a frente, ele sobre desporto e
Deolinda, inicialmente Secretária da Redacção, escrevendo e coordenando o
Suplemento Feminino.
Era a única mulher numa redacção de homens, abordando um tópico até aí
inédito no jornalismo local: o do papel da Mulher na Sociedade.
Ouçamos este escrito de Deolinda pela voz da sua
neta Beatriz: A Crítica
Deolinda da Conceição
divorcia-se e casa com António Conceição. Corriam os anos quarenta do
século passado, e o divórcio era, por si, um estigma que poucas mulheres
aceitariam carregar.
Em consequência dessa
frontalidade, dessa profunda coerência com que vivia, foram-lhe retirados
todos os cargos docentes.
A cerimónia de casamento realizou-se a 29 de Maio de 1948 nas instalações
do “Notícias de Macau”, apadrinhada por Hermman Machado Monteiro, o
proprietário do jornal, e Cassiano da Fonseca, o director, na presença de
todos os colegas entre os quais Luís Gonzaga Gomes, José dos Santos
Ferreira, o Adé, e Patrício Guterres.
Em 1951, no Hospital de S. Rafael, nasce o terceiro filho de Deolinda: eu.
Deolinda escreveria mais tarde no “Notícias de Macau”, curiosamente
no dia 25 de Abril de 1953, um texto sob o título
A Mulher Moderna que mais uma vez a
sua neta nos irá ler.
Vale a pena perguntar quem era, de facto, Deolinda do Carmo Salvado da
Conceição. De tudo o que se pode compreender e depreender, Deolinda era
uma Mulher emancipada, suave, graciosa mas impenitente lutadora pelos
valores em que acreditava firmemente.
Como se pode constatar mais uma vez destes inéditos para o público em
geral, Deolinda não perdia ocasião para, com grande sensatez e fina ironia,
apelar às mulheres não só para se libertarem, fazendo sensato uso dessa
liberdade, como a consciencializar-se da sua igualdade relativamente aos
homens, seus pares, sem para isso ser necessário deixarem de ser femininas.
Estamos, vale a pena repetir, nos fins dos anos 40, princípios dos anos
50.
Deolinda, jornalista, não se vendia nem por um prato de lentilhas. Havia
nela uma integridade de tal modo enraizada pela história da sua própria
vida, que lhe era vital viver com absoluta coerência.
Caberá aqui outra pequena história a ilustrar o que acabo de dizer:
Pessoa chegada telefonou um dia a Deolinda pedindo-lhe que fizesse uma
reportagem sobre uma obra que tinha mandado construir. Minha Mãe declinou
de pronto e, provavelmente para não ferir a vaidade do interlocutor,
invocou uma razão lógica: Já tinha um alinhamento para os próximos meses e
não fazia excepções.
Este exemplo de integridade e de sensibilidade, fez-me fazer uma
revisitação ao significado daquela pergunta de todos conhecida: O que é
a Verdade? E, a única resposta satisfatória que encontrei, estimulado
pelo legado de vida de minha Mãe, foi apenas uma:
A verdade é a coerência com que vivemos para com a nossa própria
consciência.
Gostaria que ouvissem mais este texto, também publicado no “Notícias de
Macau” em 1952, e intitulado A época do
Carnaval e o Carnaval de Época.
Essa maneira de ser determinada, fortificada por um porte pleno de
dignidade, não impediu que aquela que foi uma Mulher livre e emancipada,
pudesse ter as suas contradições.
E a amarga ironia, é que jamais se iria supor que, por puro pudor de
consultar em Macau um ginecologista, esperasse para consultar, em Lisboa,
uma ginecologista.
Tarde demais, infelizmente. E assim, apesar de ciente de que a doença já
estava demasiado espalhada, Deolinda foi a Portugal, conheceu os dois
grandes Amigos do marido, colegas do tempo da Faculdade e Amigos até à
morte, viu o seu livro publicado pela Livraria Francisco Franco, trabalhou
como correspondente de inglês, ganhando o então inaudito ordenado de
3.500$00, e cumpriu dois grandes sonhos: conhecer Portugal e visitar a
Basílica de Fátima.
Em 1957 regressámos de avião a Hong Kong, onde minha Mãe foi imediatamente
internada no St. Paul’s Hospital e de onde não sairia com vida.
Estive no mesmo quarto que ela, com uma bronco-pneumonia, mas mesmo no seu
leito de morte não me recordo de a ouvir queixar-se, apesar do grande
sofrimento por que passou.
A própria vida da Deolinda é, em si mesma, uma história merecedora de ser
um dia escrita, porque as realidades que ela encerra, e de que aqui foi
revelada uma pequena parte, transcendem, como muitas vezes acontece, a
própria ficção.
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