Macau, Sábado, 19 de Abril de 1952
Visado pela Censura

A CRÍTICA

Por Deolinda da Conceição


Quer na sua vida profissional – hoje que tantas profissões estão acessíveis à mulher – quer nas actividades da sua vida particular, a mulher sente um terror indizível da crítica mal intencionada, daquela que visa apenas destruír no seu espírito conceitos elevados, inutilizando-lhe os esforços, e obrigando-a a calar dentro de si, termos e expressões que manifestem os sentimentos da sua alma, nos diversos campos da sua actividade.
O espectro da crítica mordaz e maliciosa aterra quase todas as mulheres, porque muito embora algumas há que, tendo ingressado em profissões que a colocam sempre em destaque, trabalhando lado a lado com os homens que cultivam o mesmo ramo das ciências, letras ou artes, ela é por natureza, mais susceptível àquele esmorecimento que avassala os corações sensíveis quando são alvo de apreciações injustas e tendenciosas.
Não é difícil a qualquer emitir opiniões das mais contraditórias, sobre os mais variados assuntos, atribuindo intenções equívocas aos manifestantes dos actos criticados, mas também em verdade se pode dizer que partem, geralmente de personagens que nada tentam, as mais severas críticas. É triste este facto tão desmoralizador, responsável tantas vezes, por que se deixem de efectuar tantos projectos, tantas obras, que morrem mesmo antes de verem a luz das realidades, estrangulados pela crítica destrutiva e maliciosa.
Há muito quem pense que evitar a crítica é satisfazer o mundo, mas este, no sentido de aglomerados sociais, não se satisfaz nunca. É um monstro sedento e insaciável. Vive da intriga e da maledicência, subsistindo principalmente de acontecimentos sensacionais que tendam a reduzir ao mínimo não só indivíduos como também obras.
É dessa crítica detestável que as mulheres mais receio têm, porque não se sentem com forças para enfrentar o ridículo e as impertinências consequentes. Impertinências que se traduzem em palavras mordazes, em olhares insolentes e em sorrisos irónicos.
A crítica não atinge únicamente quem transgride os códigos sociais, quer no campo da elegância, de conhecimentos gerais, quer ainda no conceito da arte, da boa educação e do bom gosto. Vai mais longe, pois procura visar pessoas que na vida desviam os seus olhares das manifestações menos edificantes, dos acontecimentos de mau gosto, de questões equívocas. Essas pessoas que encontram no espírito estímulo para registar com palavras e gestos tudo quanto há de belo e nobre, tudo quanto seduz a sua alma ávida de belezas, sucumbem quantas vezes aos castigos imerecidos de uma crítica mal intencionada que atribui às suas palavras intenções inexactas, culminando muitas vezes em verdadeiras injúrias.
Diz Dale Carnegie, o escritor americano cujas obras sobre a arte de bem viver e ser feliz tanto sucesso fizeram em todo o mundo civilizado, que a crítica maliciosa é muitas vezes o mais apreciável elogio involuntário.
Muito embora essa verdade sirva para amenizar o amargor das desilusões sofridas com a crítica, no entanto, os prejuízos por ela cauisados reflectem-se no modo de ser de quem se vê alvo de palavras e gestos injuriosos.
Há muito quem se sinta mortificado somente por ouvir dizer bem de outrem, como se o “dar a César o que é de César” representasse adulações inoportunas e lisonjas extemporâneas.
No entanto, sabem os corações bem formados e as pessoas de carácter, que afrontar a crítica com palavras repletas de verdade em abono de quem as merece, é uma coragem que não é dada a toda a gente. Pouco custa ser irreverente, mordaz e escarnecedor, mas é necessário ser-se corajoso para alguém se abalançar a dizer afoitamente o bem que se pensa de personagens que nos merecem carinho e os nossos encómios.
É sobretudo preciso saber distinguir um elogio sério e sincero, de uma lisonja barata, que nada contém de verdadeiro. Esta ofende, aquele é um tributo de admiração e afeição que não pode deixar de sensibilizar quem o inspirou. Uma apreciação de gentilezas recebidas pode traduzir-se em expressões vindas do coração e não são necessariamente ocas nem lisonjeiras os termos termos justiceiros de homenagem prestada a gestos eloquentes de quem nos distingue com as suas amabilidades.
E isto dito, tudo dito. Na verdade, não é preciso refugiar-se a gente nos conceitos preconizados por psicólogos para se defender da crítica tendenciosa, mas infelizmente o medo do ridículo é o maior inimigo de uma atitude mental saudável que reforce o espírito contra a crítica.
E assim ela causa todos os dias danos incalculáveis.