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A pele que tenho
é a pele que sou. Pele de português, no sentido do hábito que não
faz o monge. Hábito de português, outro-que-não-europeu.
O hábito que me envolve desde a nascença diz-me que sou a circunstância, a aventura genética, a mesma que a todos configura,
independentemente da geografia, que isto de raças puras, só no
Mein Kampf.
Mas se trago no hábito a condição de ser português, trago no
espírito a tristeza de olhar para aquele rectângulo e pensar quão
ignaro este é, da própria dimensão da portugalidade.
E essa ignorância mais chocante é quando a bandeira ostentando a
esfera armilar - tão conveniente para reclamar dos descobrimentos
- caminha a par do féretro de si mesma, enterrada na mais alegre das
ignorâncias e ignomínias, que é o esquecimento da própria história.
Querer cingir a definição de português ao transmontano, ao
portuense, ao lisboeta ou ao alentejano, é mais uma acha para a
fogueira do olvido e da noção redutora da portugalidade.
Por isso arribam aqui, coitados, muitos que julgam - no inefável
manto da mais crassa ignorância - que isto é terra de broncos e de
patacas, e
me chamam luso-descendente, a mim e aos meus conterrâneos, nós que
representamos na geografia, a máxima dimensão da portugalidade,
que jamais descemos a bandeira Portuguesa, mesmo quando os Filipes
se sentavam no trono português. Nós que constituímos a primeira
República
Democrática Portuguesa e lhe legitimámos a cultura, nas faldas
do Império do Meio.
Pelos vistos há quem se contente com pouco, e com nada da História que
nunca leram, ou esqueceram, como aqueles outros que, terminado o
comércio da prata com o Japão, abandonaram o que aqui criaram para
irem bandeirar ouro para Santa-Cruz.
Isto de ser português outro-que-não-europeu, é uma condição e um
estatuto que se não coloca nem se retira. Nasce connosco. Apesar
de todos os abandonos e de todos os esquecimentos.
Isto de ser português como sou, não é sequer um acto patriótico,
é apenas uma questão natural, um fenómeno que poucos podem
compreender, e menos ainda conhecer e respeitar. Porque sobre tudo
isto paira uma ignominiosa ignorância.
É que, ao que parece, ainda está por definir em muitas cabeças, se
a minha pátria é a língua portuguesa ou se, ser-se
português, é invocar ancestralidades Olissiponenses, Célticas,
Visigóticas, ou Mouras.
A ser assim, nega-se a visão de Sagres,
nega-se hipócritamente que, afinal esta história das descobertas
não teve consequências, e que "vocês são vocês" e "nós somos os
outros".
Por outras palavras, é dizer sabendo quem fomos, que não se quer saber quem somos.
Cada Governo herda, não a história do governo anterior. Herda toda
a história do País, porque o que é hoje Portugal, constitui um
somatório de todos os eventos.
A Portugalidade não é uma geografia. É algo mais, um património
imaterial, intangível, que nestes dias em que muitos descobriram que são
europeus, pouco importa.
Num momento em que a sociedade da informação é globalizante,
procede-se à exclusão, à demarcação, à classificação. Por isso
somos, no todo, aquilo que merecemos ser. |