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Ter um sonho à medida de Martin Luther King Jr. é ter uma visão de
grandeza transcendente, é incluír nele o próprio opressor. É agir
com visão sem nada querer para além de uma causa grande, como
Ghandi.
O perigo existe quando há iluminados que, acreditando que o são,
projectam os próprios desejos e gostos no poder que, por outorga,
lhes foi dado, excluíndo tudo o que neles não cabe, mas que nem
por isso são menos importantes. Apenas não cabem nos iluminados
planos.
O grande perigo é haver gente de boas intenções, gente boa mesmo,
que se perde na missão que se auto-impuseram, onde a verdura se
confunde com a razão, como todos os estados de ignorância.
Receio sempre os que acham que têm uma missão, que vão mudar o
mundo ou a terra em que vivem, que estão tão cheios de certezas
que, mais uma vez, o princípio da incompetência de Peter se aplica.
Porque ter objectivos demasiado específicos cega, tanto quanto o
sonho teimoso. Qualquer especificidade comporta exclusões, e nisso
reside a sua injustiça, porque transporta a intolerância, a
discriminação.
E o poder, qualquer poder traz esse risco, quando não outros bem
mais nefastos.
Tem o poder por companhia a solidão face à realidade do quotidiano.
O poder quer e pode, sem perguntar nada a ninguém, porque aquele
que pode vive a ilusão de que já sabe e, assim, a missão que quer
levar a cabo, deixa de ser nobre para ser opressiva e ignara.
Mas àquele que ignora não se pode dizer que não sabe, porque até
isso ignora.
Resta apenas a alquimia do Tempo para dissolver o ânimo e dar
forma ao que foi esmagado, na esperança de que um dia possam ver o
grotesco que a obra de Breughel tão bem retrata, consumido o círio
dos Iluminados.
Talvez a distância e o recolhimento permitam um dia ver que é na
não-missão que se resgata o homem da ignorância.
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