OS ILUMINADOS

 
 

 

 


Pieter Breughel - Cegos conduzindo cegos

 


Ter um sonho à medida de Martin Luther King Jr. é ter uma visão de grandeza transcendente, é incluír nele o próprio opressor. É agir com visão sem nada querer para além de uma causa grande, como Ghandi.
O perigo existe quando há iluminados que, acreditando que o são, projectam os próprios desejos e gostos no poder que, por outorga, lhes foi dado, excluíndo tudo o que neles não cabe, mas que nem por isso são menos importantes. Apenas não cabem nos iluminados planos.
O grande perigo é haver gente de boas intenções, gente boa mesmo, que se perde na missão que se auto-impuseram, onde a verdura se confunde com a razão, como todos os estados de ignorância.

Receio sempre os que acham que têm uma missão, que vão mudar o mundo ou a terra em que vivem, que estão tão cheios de certezas que, mais uma vez, o princípio da incompetência de Peter se aplica. Porque ter objectivos demasiado específicos cega, tanto quanto o sonho teimoso. Qualquer especificidade comporta exclusões, e nisso reside a sua injustiça, porque transporta a intolerância, a discriminação.

E o poder, qualquer poder traz esse risco, quando não outros bem mais nefastos.
Tem o poder por companhia a solidão face à realidade do quotidiano. O poder quer e pode, sem perguntar nada a ninguém, porque aquele que pode vive a ilusão de que já sabe e, assim, a missão que quer levar a cabo, deixa de ser nobre para ser opressiva e ignara.
Mas àquele que ignora não se pode dizer que não sabe, porque até isso ignora.
Resta apenas a alquimia do Tempo para dissolver o ânimo e dar forma ao que foi esmagado, na esperança de que um dia possam ver o grotesco que a obra de Breughel tão bem retrata, consumido o círio dos Iluminados.

Talvez a distância e o recolhimento permitam um dia ver que é na não-missão que se resgata o homem da ignorância.

 

 

 

Copyright © António Conceição Júnior l 2008