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Estes
escritos surgem num contexto de espontaneidade, impelidos pelo que
observo, pelas associações que fui fazendo a todos os passados,
remotos e a outros nem-tanto-assim.
Decidi escrever, sem o compromisso da periodicidade, sem outro
meio de publicação que o virtual, sem gasto de papel, e com a
liberdade que a mim próprio me quiser conceder.
Já passámos os tempos da clandestinidade, mas nem por isso
desdenho do condimento de algum hermetismo. Até porque, vivendo
numa paróquia, o hermetismo apenas existe para os distraídos.
Mas há uma outra liberdade, formal, a que me
arrogo. É o de escrever sem ser escritor, o de pensar sem ser
pensador, o de analizar sem ser analista. O que eu não quero é
ser, naquele sentido pedante, engravatadamente parolo, nem
levantar sobranceiramente o cenho a dizer que sei o que não sei.
Daqui desta geografia a oriente, como sempre impropriamente
chamada de exótica, quando quem o diz parece desconhecer que a
China e a Índia respondem por dois mil e trezentos e oitenta e
dois milhões dos seis mil quatrocentos e quarenta e seis milhões
de
habitantes do planeta.
Dizia placidamente o meu pai, que muito admiro, quando ouvia
alguém falar nos chinas, que bastava que os da
província de Cantão cuspissem todos de uma vez e Macau teria uma
cheia torrencial. Tudo sempre foi uma
questão de escala.
Mas Portugal persiste em querer desconhecer esta terra. Basta
olhar para a Praça da Alegria. Ele há só um tipo de emigrantes,
aqueles que se faz convergir para o rectângulo. Não se assiste à
curiosidade - num mundo em que a informação está nas mãos de cada
um – de querer saber mais sobre as diferenças, sobre o Outro, pois que as
similaridades redundam.
De repente lembramo-nos de Timor e vá lá de fazer um cordão humano
tipo recorde para o Guinness. Somos uns emotivos,
uns falantes muito pouco eficazes. Não
sou eu que o digo, é o estado a que tudo isto chegou que o
confirma.
O Portuguese Settlement de Malaca vai persistentemente falando
Português do Século XVII na versão papiá cristám e o país
não lhes liga, nem há Fundação
que lhes valha, que o dinheirinho
tão bem ajuntadinho é mais pró investimento.
Vivemos um mundo onde a indiferença é regra e a solidariedade a
excepção.
O homem predador convive com o homo sapiens sapiens enquanto o
teatro do mundo se vem desenrolando ao longo da história. Só que
agora a história nos entra pela casa dentro.
Eu, que me chamo e declaro português do Oriente, exijo como
cidadão, um sentido de história aos Governos, e se estes não têm,
que quem pode, mande a quem tem dinheiro
e mais que obrigação, sustentar a presença da
cultura portuguesa no seu todo, sobretudo se esse dinheiro proveio
de onde não é aplicado.
Há gente que não compreende que o sentido histórico e o acto de
fazer algo de construtivo é uma das formas
sublimes de se justificar
existencialmente.
E por aqui me fico, perguntando-me se tuga1 é o pobre
que mais não vê porque que o que tem lhe não dá para vislumbrar
além do curto horizonte, ou se tuga é antes o grosso arrogante
chico-esperto da golpaça, repimpado em um qualquer simulacro de
triclínio, embalando a papada à voz sonolenta de quem de tanta
barriga ter, já lhe tolhe esta a fala, mas não a avidez nem a
avareza.
De tudo isto concluo - tirando aqueles milhões que a
fome e a doença fazem perecer apenas porque àquilo que os homens
chamam de economia, significa a inqualificável distribuição
desigual da
riqueza, esquecidos todos da sua
própria mortalidade - que Cervantes inventou os moinhos de vento
como metáfora para o que haveria de vir.
(1) : expressão redutora, reduzida e menor da
dimensão de se ser português. |