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A Primeira República tinha, entre outros objectivos, igualizar os homens,
substituindo as clássicas
divisões do Clero, da Nobreza e Povo.
Teria corrido tudo melhor, se tivessem levado à letra os ideais
republicanos, e da revolução francesa. Igualdade, Fraternidade,
por isso, Liberdade.
Quase um século depois da República, derrubada a subsequente
ditadura, subsistem rígidas as muralhas e os contrafortes dos tiques de uma pseudo-nobreza
encapuçada no fartote de licenciados tornados senhores doutores,
senhores arquitectos, senhores engenheiros, e o mais que me não
lembra, num momento em que, por ironia, emergem os Mestres,
aqueles que têm mester.
Definitivamente o português não se
satisfaz com o senhor, nem com o nome próprio. Somos infinitamente
formais, demasiado ciosos da ilusão dos títulos, da posição,
tantas vezes acocorada, que um senhor doutor confere. |
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Países como a Espanha tratam-se mesmo por tu, como aquele
porque no te callas? Os Americanos vão, quando muito até ao
Mister. E depois desatam a tratar-se por Jim, ou por John. Os
holandeses, chegam ao trabalho de bicicleta.
Mas nós temos a mania das grandezas, para dar com a dimensão do
território nacional. Se não se é doutor, engenheiro, arquitecto,
etc. então só se pode, por exclusão de partes, ser besta.
Daí que os debates parlamentares constituam por si, não um
exercício de retórica ou oratória, uma defesa inteligente de
ideias claras e transparentes. Pelo contrário, esquecidos ou
incapazes de rebater uma afirmação com outra, onde o espírito se
manifeste no brilho que seria de esperar de quem se reforma ao fim
de poucos anos de gritos de muito bem ao líder da
respectiva bancada, descambam na repetitiva ironia de chamar ao
visado de Vossa Excelência e rematam por outras palavras
significando que a dita Excelência é uma besta, que nós é que
sabemos. São estes e outros, os doutores, engenheiros e quejandos
que vamos tendo, e que do alto da sua excelsa excelência, presidem
aos destinos de um pequeno e pobre país periférico, vivendo -
quando convém - do passado, e ressumando às péssimas gestões que
há muito colocaram o país na cauda da Europa.
Fama de Portugal, é comer e dizer mal, diz o velho ditado.
Dirá talvez, quem me ler, que cumpro o ditado. Direi eu que, comer
bem não como porque me encho com pouco. Quanto ao resto, só por
amor me dou ao trabalho de querer melhor para o meu País, que faz
o favor de me excluír, esquecido, a mim e aos que como eu, sendo
Portugueses, não nascemos no rectângulo.
E não sendo parlamentar, não
chamando de Excelência a ninguém, nem alimentando hábitos caducos,
só me resta lembrar que não são os títulos que qualificam as
pessoas. É precisamente o contrário!!! |