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Contrariamente ao que eu imaginara
habitual, a Biblioteca só abria às dez da manhã, e assim eu ficara
como que a flutuar no calor sufocante e húmido de um Agosto
escaldando o empedrado. Decidi saír da praça e descer aí para as
bandas da Rua de Sacadura Cabral, bem próximo do Jardim Chinês que
pertencera ao velho Lou Lim Iôk, onde Sun Yat Seng, of Pai da
República se fizera fotografar ao lado do velho Comendador e de
Camilo Pessanha. Outros tempos, que já nem os fantasmas deles
passavam por ali, e a toponímia, tinham-na os chineses respeitado.
Bonito gesto.
Àquela hora muitas lojas ainda não tinham aberto, e eu procurava
onde me sentar a beber algo e a matar o tempo. Dei comigo a
procurar lentamente até dar com uma esquina onde um modestissimo
estabelecimento ostentando o nome de Café Vai Lin, aço inox
emergindo de uma cerâmica a mimar tijolo, me atraiu a atenção.
Em Macau não há tascas nem tabernas. Isso não é daqui.
Entrei, e o espaço arejado, modesto mas limpo, tinha as oito mesas
ocupadas. Uma mulherzinha cumprimentou-me, convidando-me a sentar.
Percebi que as mesas se partilhavam, como a capa de um Martinho
que aqui ninguém conhecia. Sentei-me na primeira mesa. O meu
companheiro de mesa tinha a cabeça baixa. Lia o jornal enquanto um
prato de macarrão, imaginem, em caldo, duas fatias de fiambre e um
ovo em cima aguardavam que ele acabasse de ler. Olhei em redor,
agradado. Ninguém olhara com ar de basbaque o estranho personagem
barbudo que eu era. Ali ao pé da janela, uma casalinho comia,
olhando a televisão que já dava os Jogos. Em outra mesa, dois
clientes sentavam-se calados. Não se conheciam, percebi.
A cozinha era por detrás de um balcão forrado de azulejos. Uma das
mulherzinhas sem idade aproximou-se. Pedi um café gelado e uma
sanduíche de fiambre e ovo. Ela aquiesceu e eu espantei-me de ter
acertado na ementa. Aquilo não era um café ocidental, nem chinês,
que então seria uma casa de chá. Sorri para dentro e volvi os
olhos para todos os ocupantes do pequeno café. Gente simples, sem
grandes sonhos, talvez com muitos pesadelos, que com chineses
nunca se sabe o fardo que carregam sem um esgar, um queixume.
Eis que o meu companheiro de mesa acaba a leitura. Levanta a
cabeça e depara-se-lhe com o meu sorriso. Sorri também e ataca,
satisfeito, a sopa de macarrão.
Por detrás de mim um amável burburinho: um dos clientes levantara-se
e comunicava a outra cliente sentada na mesa ao lado, que lhe iria
pagar a conta. Assim manda a estranha etiqueta, e paga, não paga,
lá paga o homem que se despede enquanto o dono e cozinheiro,
figura de cabeça rapada, espreita do balcão a ver como correm as
coisas.
A Rua de Sacadura Cabral é simples e modesta, e a sua
perpendicular também. Aqui os prédios produzem sombra, ainda não
são dez da manhã.
Do outro lado da cidade, à beira rio, tudo remanesce a ouro, mesmo
que só luzindo. Aqui sinto a simplicidade, a genuinidade das
pessoas. Sinto-me bem olhando na sua transparência simples.
Quando saí, vinha vivificado pela simplicidade que bebera. Fixei o
nome do café. Tive vergonha de fotografar por dentro. O que não
quereria fazer era roubar-lhes com a máquina, a alma.
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