A ENGRENAGEM

 
 

 

 

Decididamente ninguém se entende em Portugal. Decididamente o país entrou alegremente em colapso.
Não se trata já, sequer, de fulano ou sicrano, ou das manhas do políticos.
Nos dias de hoje, a Democracia, aquela cracia que originalmente era eleita por e para o demos, já apenas resta uma simples fachada.

Não sei se é uma questão de serem apenas politicamente correctos, ou se se trata de uma crassa incapacidade de olhar a geologia social para não verem que a democracia de que tanto se fala é uma falência da engrenagem. Porque há uma engrenagem, e essa constitui o problema em si.

A economia tal como a criaram em Wall Street é uma armadilha auto-fágica, propiciadora do consumo desnecessário, que se diz sinónimo de liberalismos, daqueles que vivem da extorsão sobre os fracos.

Marx tinha razão, apenas ninguém conseguiu realizar a utopia.
O poder é demasiado aliciante para alguns. É tudo, afinal, uma questão de poder. Venha a esquerda, o centro ou a direita, tudo é uma questão de poder e do lucro que lhe está adjacente.

Por isso os nossos empresários sempre se sentaram a ver entrar o deles. Por isso nunca pensaram em ser como as trepadeiras, estendendo os ramos, isto é, não pôr os ovos todos no mesmo cesto. Por isso cada vez mais temos caciques e torcionários, e uma imprensa que copia o always on show americano.

A Educação, a Saúde, o Desemprego são apenas as pontas de icebergs de todos os políticos, agarrados como lapas ao poder ou à oposição, esquecidos de que, cairão à vez no mesmo buraco, cada vez mais fundo, porque a ganância e o desejo lhes toldam a visão. A eles e a todos quantos no jardim à beira-mar vão apenas sentindo as emoções, os desejos ou as desilusões quotidianas.

A ética, a nobreza, a honra, o respeito pelo outro, tudo se perdeu na voracidade da ganância ou do desespero. A solidariedade tornou-se palavra vã. Os poucos que a praticam são considerados tolos.

A cegueira é quase geral. Contudo, à semelhança daquele murmúrio de Galileu, no entanto ela move-se, haveria uma alternativa à porca e ao parafuso da política. Chama-se cidadania, palavra que uso muito antes de ela ter entrado em voga, por-dá-cá-aquela-palha.
 


Não é mais possível viver sem ser em rede de afectos. É questão tão premente quanto o aquecimento global. Daqui a cem anos a água passará a ser um bem escasso, hoje já desapareceram a honra, a verdade, coisa antiga, novamente caída em desuso depois de um certo dia de Abril.
Não é isto e aquilo que está mal, nem ninguém nos irá salvar. Não é nada de novo, mas o País e o mundo estão doentes porque a engrenagem existe, fruto da ganância a que, eufemisticamente, chamam os especialistas, de economia.
A haver salvação, os Messias seremos nós.

Mas se não somos capazes de usar a esperança, a própria Natureza se vai aprestando para varrer da superfície que lhe violámos, toda a escumalha e não só, porque quando algumas mudanças chegam, é para todos. Tal como a morte.

Talvez por isso, a indignação focalizada num único aspecto, tolde o olhar sobre o global.

Sempre se soube que o capital procura o mais barato. É natural na engrenagem. Sempre se soube que se faz dinheiro com tudo, até com órgãos humanos, quanto mais com despedimentos.
Sempre se soube que o poder nem precisa de ser injectado. Adquire-se e ninguém mais o larga. É viciante.
Já ninguém bebe voluntariamente sicuta. Já quase ninguém se digna olhar para os milhões que morrem de fome. Nem à imprensa isso interessa. Darfur, Etiópia e coisas assim são despojos, restos do veneno do homem branco.
Que importa que morram se o Bush pensa é no petróleo? Que importa que a lista de espera nos hospitais seja de anos? O que interessa são hospitais particulares. Educação com armas de fogo nas mãos das crianças? Vamos ser desenvolvidos e criar escolas particulares. Os outros que morram.
E neste préstito de incongruências se destapa a engrenagem sob a capa da Democracia.
Pensando bem, V. acha que algum político vai resolver alguma coisa?
Pense porque é que vejo o meu país desintegrar-se social e economicamente?
Porque o dinheiro ainda é poder, e que se danem os que vão à sopa dos pobres. Democracia é um produto para Português ver. Igual ao que o americano vê.
V., se o capital o levasse para o cimo de um monte e lhe dissesse: dar-te-ei todas estas riquezas se me adorares, que faria? Talvez olhasse para lá do capital e visse um mundo de gente faminta, talvez se deixasse seduzir pelo que lhe foi mostrado.
Responda-se a si, não a mim.

O capital, meus amigos, também se veste de ouro, é transportado aos ombros, em nome dum outro Marx que dizia: vem, larga tudo e vem.
Quando todas as ilusões que preenchem os nosso olhos algum dia se desmoronarem, talvez então compreendamos que ser é mais importante que ter, e que esse ser é ir, largando tudo. Para que em cada um de nós renasça a verdadeira lucidez, mão estendida à mão que se estende.

 

 

 

 

Copyright © António Conceição Júnior l 2008