BUSCA

 
 

 

 

Curiosamente sou por natureza, observador, principalmente quando não estou inocentemente distraído.
Confesso que gosto de me distraír e de me perder nos meandros do novelo dos pensamentos e das reflexões em que, inadvertidamente, me descubro neles enredado.

Um destes dias voltaram a perguntar-me: que buscas?
E eu respondi que nada. Apenas descobri há muito que, sendo português, outro que não continental nem europeu, me tinha de cumprir interiormente, nada que dissesse muito respeito aos outros.

As viagens são inerentemente interiores, e se me baptizaram, esqueceram-se que praticaram um ritual antiquíssimo, dali de onde o rio se chama Ganges, e dessa Caxemira que conheceu e acolheu Issa, que muitos chamam Jeshua, e cuja figura histórica simplesmente não existe, porque os Evangelyon foram suprimidos, apócrifos.

Mas se a mim me molharam a cabeça, não fiz eu molhar as dos meus filhos, respeitando por inteiro o seu direito a escolherem o que a mim, por tradição, me foi imposto.

Por isso descobri que discordo da busca. Quem busca nunca alcança, porque se perde no mero desejo da busca. Mas buscar o quê afinal? Se calhar será essa a questão determinante. É que no alcance do desejo intromete-se a angústia e a sofreguidão, mistura-se o desejo de ter mais, sempre mais, com o desejo de ser, ser cada vez mais.
Mas afinal ser o quê?

Por estas bandas que também são as minhas, pouca pachorra vou tendo para com os que buscam, porque se há ditado certo, é aquele das boas intenções.

Esvazio-me para poder encher-me, assim como o ciclo da evaporação e da chuva que por aqui se dá, com tufões de permeio. Apenas ainda não consegui, entre os muitos defeitos, remover o direito a indignar-me. Ainda muito me não é indiferente, desde a cobardia até à prepotência, passando pela desumanidade da predação humana, pela cupidez, pela mesquinhez, avareza, preconceito e pelo pedantismo.

Se calhar busco, procuro encontrar aquele momento em que a busca e o seu cortejo de dores se dilua, como sal em água fervente, para enfim me libertar da minha própria discordância.

 
 

 

Copyright © António Conceição Júnior l 2006