CINZENTISMO

 
 

 

 

Fulge, argentina, a voz que voa liberta e transparente, porque o canto é transparência incontornável, viajando pelos céus de todos os ouvidos abertos.
Porque assim ressoa o canto, se percebe a luminosa dádiva que mais obscurece a côr pardacenta da desumanidade, do livre arbítrio, reino do obscuro medíocre.

Cinzentismo é mais que a não côr. É a ausência da luz, uma qualquer, em cujas sombras deslizam indizibilidades prestidigitadoras, da multiplicação do metal à supressão de ideias e ao reino da impostura, à absoluta obliteração da harmonia, expulsa e expelida, para que o breu do negrume se feche sobre si mesmo.

O cinzentismo não fulge como o canto, antes range os dentes em opressões e desesperadas manipulações.

O breu é covil do vampirismo, vida inerte alimentando-se dos despojos que faz, parasitismo voraz, mortalha que oculta tudo o que se sabe e saberá, porque o negrume é, sobretudo, a ilusão de vida e tempo.

Como porém até a noite tem fim anunciado, já a madrugada floresce raiando o horizonte de sangue impoluto, de pronto se abrirá o véu da opacidade para revelar a putrefacção e os que podendo ver preferirão virar para o lado as cabeças farisaicas, adiando a inevitável aurora.

É que, como em tudo, há um limite para a falta de vergonha, para a dimensão do que lesa muito para além do tolerável. Por bem menos foram os vendilhões expulsos do templo.

Quando a dignidade de um país está posta em causa, não podem manter-se monstros em auto-fabricados covis de breu. Precisamente porque o miserabilismo é o suporte do cinzentismo opaco, onde medra obscena, a monstruosidade.
 

 

 

Copyright © António Conceição Júnior l 2005