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Fulge, argentina, a voz que voa
liberta e transparente, porque o canto é transparência
incontornável, viajando pelos céus de todos os ouvidos abertos.
Porque assim ressoa o canto, se percebe a luminosa dádiva que mais
obscurece a côr pardacenta da desumanidade, do livre arbítrio,
reino do obscuro medíocre.
Cinzentismo é mais que a não côr. É a ausência da luz, uma
qualquer, em cujas sombras deslizam indizibilidades
prestidigitadoras, da multiplicação do metal à supressão de ideias
e ao reino da impostura, à absoluta obliteração da harmonia,
expulsa e expelida, para que o breu do negrume se feche sobre si
mesmo.
O cinzentismo não fulge como o canto, antes range os dentes em
opressões e desesperadas manipulações.
O breu é covil do
vampirismo, vida inerte alimentando-se dos despojos que faz, parasitismo voraz, mortalha que oculta tudo o que se sabe e
saberá, porque o negrume é, sobretudo, a ilusão de vida e tempo.
Como porém até a noite tem fim anunciado, já a madrugada floresce
raiando o horizonte de sangue impoluto, de pronto se abrirá o véu
da opacidade para revelar a putrefacção e os que podendo ver
preferirão virar para o lado as cabeças farisaicas, adiando a
inevitável aurora.
É que, como em tudo, há um limite para a falta de vergonha, para a
dimensão do que lesa muito para além do tolerável. Por bem menos
foram os vendilhões expulsos do templo.
Quando a dignidade de um país está posta em causa, não podem
manter-se monstros em auto-fabricados covis de breu. Precisamente
porque o miserabilismo é o suporte do cinzentismo opaco, onde
medra obscena, a monstruosidade.
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