HARMONIA

 
 

 

 

 

Recordemos por momentos esse vazio indescritível que contém o que chamamos de Universo. Biliões e biliões de estrelas, milhões de constelações, estrelas novas, anãs, super-gigantes, pulsars, planetas, cometas, buracos negros, sistemas solares, tudo movendo-se num divino sincronismo, a uma inconcebível velocidade, viajando não se sabe para onde nem vindo de onde. Apenas a suspeita do big-bang.

No entanto essa inacreditável e mais desconhecida que conhecida complexidade, move-se, viaja, há biliões de anos. Essa incomensurável harmonia é a mais evidente manifestação de deus, não um deus definido por nós, com um menu e agenda específico para nós, terráqueos, mas a mais pura energia em dimensões cuja compreensão nos escapa.
Por toda a parte deste indescritível mecanismo se pressentem os mesmos ciclos que por esta pequena e devastada terra que habitamos existem: nascimento, crescimento e morte. Tudo tem o seu contrário. Universo e o vazio que o contém, estrelas e buracos negros, matéria e anti-matéria, enfim: Ying e Yang.

A harmonia é isso mesmo. Ouçamos um coral a quatro vozes, dos sopranos aos contraltos, dos barítonos aos baixos. Ouçamos essa aparente dissonância que reconhecemos como harmonia, essa fórmula misteriosa para o leigo, de fazer da convergência de diversos quadrantes vocais para um mesmo fim, território da beleza que muitos dizem ser a verdadeira palavra de deus.
Os coros têm destas coisas maravilhosas. Fazem-nos pressentir essa ligação ao divino porquanto este só pode ser, como o universo, polícromo, polifónico, díspar e múltiplo. Tal é a forma suprema pela qual a Música toca a mais rudimentar sensibilidade.

A física mostra-nos que só pela presença dos opostos se estabelece energia, corrente, movimento. É assim a linguagem divina, superior, e da própria natureza. Já havia magnetismo antes de ser descoberto pelo homem. Já havia electricidade antes de esta ser fabricada pelo homem. Já havia luz antes de Edison ter inventado a lâmpada incandescente. E existência e a descoberta são coisas diferentes.

Por isso, quando se remove um polo, tudo cessa. Nega-se a natureza das coisas, nega-se deus, que mesmo no Antigo Testamento precipitou para o outro lado Satanás e os anjos revoltosos, dando assim origem simbólica ao discernimento entre o Bem e o Mal.

Por isso, quando um pedante qualquer suprime a polifonia, quando um tiranete emproado remove quem se lhe opõe, contraria não só a essência da Natureza, corta a corrente natural de uma harmonia que é o que todo o ser humano busca aspirar, para se nulificar na sua própria auto-fagia: um polo não é nada. É ausência de luz, de energia, de conhecimento, de sabedoria.
É apenas a localização exacta da sua própria inexistência.
Afinal o inferno é, sobretudo, a ausência de deus nas suas manifestações. É a privação da harmonia que anuncia o inferno.

É apenas o reino da escuridão. Pobres autocratas de pacotilha...

 

 

 

Copyright © António Conceição Júnior l 2005