Long Quan é uma cidade nas montanhas da província Zhejiang, com uma população acima de 200.000 habitantes.

Durante o Período dos  Estados Guerreiros, (403 - 221 AC), nos finais da Dinastia Zhou do Este (771 - 256 AC) que também englobou o Período da Primavera e Outono (722 - 481 AC), o fabricante de espadas de Bronze, O Ye Zi chegou às montanhas do Reino de Yue depois de reparar que estas continham um lago em forma de dragão.

O ferro começava agora a fazer parte da armaria e O Ye Zi compreendeu que a região tinha tudo o que ele precisava. Estava longe do bulício, nas montanhas, tinham água óptima fluíndo em ribeiros, com largos depósitos de ferro. Tinha imensa madeira nas florestas à volta e era tão tranquila a região que nem um cão ladrava ou galo algum cantava de manhã.

Foi assim que o mais famoso e importante centro de armaria de ferro e aço nasceu, e por 2.500 anos continuou a laborar e a produzir algumas das armas mais importantes e fabulosas da China.

Devido ao uso de forjas e pureza da água e do barro, Longquan (leia-se Long Chuan) tornou-se também um importante centro de produçao de Céladon a partir da Dinastia Song do Norte (960-1127). Quer as espadas quer a cerâmica são artes do fogo, dependentes da água, barro e fogo.

Chegámos a Longquan depois de sete horas e meia de viagem desde Hangzhou, capital da província de Zhejiang.


Estamos na China profunda, ao lado da província de Henan, onde começou a civilização da bacia do rio Amarelo, e por ela podemos avaliar o efeito das reformas económicas.
O visitante pode ver uma antiga forja coberta mas com muito arejamento, e alguns dos artefactos usados, bem como uma carroça antiga usada para o transporte de espadas.

   

À chegada, Sara telefonou a Zhou Zheng Wu que rapidamente chegou no seu carro.
Zhou
é um homem simples sem pretensões. À boa maneira chinesa fez questão de ser o anfitrião para o jantar.
Segundo o costume chinês, os visitantes são-no em full-time, e o visitado assegura que todos os seus desejos sejam satisfeitos.
Como de costume, tirámos uma fotografia juntos. Senti que Zhou ficou muito grato pelo convite que lhe fiz para participar nos Mestres do Fogo.
Zhou
é um homem ocupadissimo, e constantemente solicitado via telemóvel, mas colocou tudo de parte para nos acolher.

Depois do check-in no melhor hotel, reserva feita por Zhou, e após o final do jantar que é sempre uma festa regada com Mao Tai (aguardente de arroz de altíssimo teor alcoólico) regressamos ao Hotel.
No dia seguinte, logo a seguir ao pequeno almoço chinês, Zhou conduziu-nos à sua loja e forja.
Chegámos ao edifício, propriedade de Zhou - impensável há 30 anos - e iniciámos a visita à loja propriamente dita e à forja, onde inúmeros aprendizes trabalhavam.

Este é o edifício pertencente a Zhou. A loja está decorada ao estilo chinês. e é bastante grande. Nas paredes imensas fotografias de visitantes que se quiseram fazer fotografar com o mestre.

Eis-me inspeccionando uma espada de estilo japonês. Depois, com o tio de Zhou, alfageme há 60 anos, e irmão mais velho do pai de Zhou. A terceira foto mostra da esquerda para a direita o pai de Zhou, também ele fabricante de espadas há 50 anos, o irmão, e Zhou que fabrica há 30 anos. É o clan Zhou, que aqui soma 140 anos de experiência em 2 gerações, continuando uma tradição de 2.500 anos. Finalmente Zhou leva-me ao Museu privado onde me mostra uma fotografia que tirámos quando ele esteve no Museu em Macau.
Convém lembrar que qualquer um dos três Zhou são consumados mestres da arte de fazer espadas, e a demonstração que se segue é algo impensável noutra parte do mundo. Nem o pai nem o tio de Zhou falaram muito. Deixaram ao filho e sobrinho a função de ser o anfitrião. Contudo, segundo a tradição chinesa, aos mais velhos é devido o máximo respeito, e foi uma enorme honra que tais mestres fizessem de bom grado uma demonstração para visitantes, coisa rara mesmo na China.

FOR
JANDO NO CLAN DOS ZHOU

O apelido Zhou, que na China vem antes do nome próprio, é idêntico ao da Dinastia Zhou .
O mais velho dos Zhou, 60 anos a fabricar espadas, começou por acender a forja. O carvão de madeira arde, com uma mistura de pó de barro. O Fole aí está, mas agora usam uma ventoínha eléctrica para aumentar a temperatura do carvão.

Escolheram um lingote de ferro com 150 anos, coisa que noutros lados seria uma preciosidade, para demonstrar.
Os dois irmãos Zhou começaram a martelar o lingote em brasa, a côr correspondente a determinada temperatura, que os olhos experientes sabem avaliar.
Os dois mestres, de 66 e 76 anos respectivamente, como que ganhavam vida cumprindo os mesmos rituais e técnicas milenares, martelando o ferro na bigorna, sem cuidar de óculos protectores.
O ritmo das marteladas seria mais tarde usado pelos japoneses, quando alfagemes chineses integraram comitivas de princesas que se casaram com príncipes japoneses, levando para o Japão as técnicas chinesas.
Há que recordar que Longquan já operava por volta do século V A.C., os antigos perídos de Kofun e Nara, no Japão, datam de 300 a 794 DC.

Um close up mostrando a côr do lingote. Quando mais branco estiver, mais alta a temperatura.
Note-se que os Zhou nem luvas usam. Finalmente eis o produto da velha alquimia: o ardente Yang imerso na passiva água Yin, opera uma transformação da perlite em martensite, o aço simultâneamente flexível e duro.

Aqui vemos polidores que, pacientemente, em pedras cada vez mais finas, vão transformando o aço em espadas de uma geometria perfeita.

Tudo isto levou um dia e de novo Zhou nos serviu de anfitrião ao jantar.

A PRECIOSA ÁGUA

   

No dia seguinte visitámos os recursos naturais que O Ye Zi descobriu no Perído dos Estados Combatentes.
Fizémos de automóvel uma viagem relativamente longa para atingir um dos riachos que o mítico ferreiro realizou para se inteirar das potencialidades de Longquan.


Após 20 minutos de viagem, uma velhíssima ponte surgiu na paisagem sobre o leito seco de um ribeiro.
À medida que avançávamos, várias surpresas esperavam-nos, tal como se revelaram a O Ye Zi, cujo conhecimento dos elementos lhe deu a certeza da qualidade da água.

Em breve demos com outro ribeiro, no mais intocado da natureza. Uma ponte suspensa ligava as duas margens e, à medida que progredíamos, reparei que as pedras começavam a torner-se vermelhas da hematite. Zhou dir-me-ia então que 20 por cento da areia do leito é ferro.

À medida que explorávamos, a Natureza começava a falar por si. Descobri a fonte de água, a origem.
Quanto mais me aproximava, mais ia percebendo a natureza das rochas escuras.

Estas rochas estão cobertas de hematite, em depósitos sucessivos lembrando o próprio aço laminado em camadas sucessivas. Era como se a natureza estivesse a dizer ao homem como forjar o ferro, como reforçar o aço. E por momentos o lingote com 150 anos veio-me à memória.
Quão distantes nos tornámos da Mãe Natureza, a Grande Mestra, a Grande Ofertadora.

Eis uma espada de Zhou, réplica perfeita de uma espada da Dinastia Han (206 AC - 220 DC).
Zhou
representa o Chinês tradicional, carregando a tradição de geração em geração, obcecado com a palavra, com a sua verticalidade, a sua ingenuidade e a sua proximidade com a Natureza.
Tal como muitos chineses, a sua cultura não se perdeu senão na aparência, para os valores consumistas que hoje imperam no mundo.

 

Zhou Zheng Wu mostrando a espada de estilo Han com adornos de jade, baínha de laca, historicamente correcta.

       
       

 

       
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