Hangzhou, na sua forma actual, tem uma história que remonta a 2.200 AC. A sua importância aumentou consideravelmente com a construção do Grande Canal, ligando Pequim a Hangzhou, uma monumental obra de 1.795 km, iniciada em 486 A.C. e terminada na Dinastia Sui (605 -610 DC).

Durente o período das Cinco Dinastias e dos Dez Reinos (907 - 970) - a história da China é de uma riqueza extraordinária - Hangzhou tornou-se capital do Reino de Wuyue. Mais tarde, durante a Dinastia Song do Sul, 1127-1279), a cidade tornou-se capital do império.

À entrada de Hangzhou, apercebi-me de uma contenção de ruído, um maior cuidado na condução, inteiro respeito pelos peões, enfim, um elevado sentido cívico.

Hangzhou é uma cidade que não gosta de arranha-céus. Pelo contrário, opta por uma arquitectura discreta em harmonia com a sua história. 
Tem seis milhões de habitantes e à chegada ao hotel, fomos a pé jantar a um belíssimo e moderno restaurante de comida chinesa da região com uma agradável e contida decoração ocidental.

Na manhã seguinte, chuvosa e brumosa, dirigimo-nos em visita oficial à Academia de Artes de categoria nacional - uma das melhores do país mais populoso do mundo. .

     

Academia Nacional de Artes de Hangzhou - SENSO

   

A visita começou com as tradicionais e amistosas formalidades em que os chineses são mestres. Houve troca de presentes e uma explicação geral sobre a Academia, pelo Vice-Director, no impedimento do director. Para mim foi, contudo, a arquitectura do complexo da Academia que me tocou profundamente, libertada que está das peias de uma linguagem política já ultrapassada.
Enquanto arte pública, a arquitectura é pertença de todos pelo que a sua importância, impacto e responsabilidade, enquanto expressão artística e de identidade, são de importância fundamental.

Este edifício é um extraordinário caso de afirmação de identidade cultural, conjugação do vocabulário contemporâneo e da tradição, pelo uso recorrente a elementos tradicionias.
Acede-se à Academia enfrentando quatro canteiros quadrados com bambus, símbolos de erudição, verticalidade e do homem superior, que é recto e abundantes os seus conhecimento e sabedoria.
É uma escola, por isso age como um símbolo dos valores que a ela devem presidir.

Segue-se uma curta escadaria que dá para o edifício principal de grandes pilares e um tecto contemporâneo que cobre uma calote de vidro, em forma de cogumelo. Um pouco mais à frente, em jeito de peça escultórica, bem no centro do vestíbulo aberto, ergue-se um conjunto de vidro em forma de octógono - símbolo do I-Ching "O livro das Transmutações"- que se desdobra em quatro entradas, representando os 4 pontos cardeais - a terra - todas elas dando acesso a uma peça cilíndrica em pedra, símbolo celestial, que recorda que há várias portas para o conhecimento superior, o objectivo de todas as escolas sinceras: providenciar um bom ensino onde a humanidade e a humildade sejam apanágio do homem que se deseja superior.

O outro extremo do pavilhão principal apresenta-se-me à medida que caminhamos pelo enorme complexo. Depois é o alçado lateral que se mostra, com persianas como antigas pinturas semi-desenroladas, enquando se descobrem outras referências bem óbvias a elementos arquitectónicos tradicionais. Por fim os meus olhos descobrem um anfiteatro.

Fixo-me agora na água do canal, qual fosso, que circunda o edifício. Talvez seja uma referência ao Grande Canal. Quase todos os cinco elementos estão presentes. O metal, a terra, a água e a madeira das árvores. Apenas o fogo não pode estar presente. Tal é a leitura desta magnífica peça de arquitectura cujas raízes se fundam na arquitectura tradicional chinesa.

À medida que nos deslocamos pelo complexo, noto a escultura de um machado no chão. Passado e presente, harmonizam-se neste chuvoso dia de Janeiro de 2006.

Estas imagens mostram diferentes aspectos de salas de aula onde a disciplina é voluntária e adulta, e a tecnologia disponível é actualizada, quer nos fundamentos da fotografia quer na montagem de filmes por computador.

     

Academia de Design de Hangzhou - SENSIBILIDADE

   

A Academia de Design está a cerca de 10 km de Hangzhou. A escola comprou terrenos, muitos hectares, e iniciou a construção de uma escola que é, em si, outro exemplo de identidade cultural, agora de cariz rural. Visitámos a escola ainda com o piso exterior inacabado, mas já activa. Almoçámos na sala privada do restaurante da escola. Depois, a sensibilidade da arquitectura revelou-se. Telhas rurais produzidas ali próximo, foram usadas como elementos horizontais para separar, nos alçados, os pisos dos edifícios da Academia, recordando intensamente a relação com o ambiente envolvente, enquanto a estrutura contemporânea se ergue tranquilamente em conjugação e perfeita simbiose.

O primeiro detalhe mostra quão evidente a cultura chinesa é a matriz cultural do Extremo-Oriente, enquanto na segunda imagem se testemunha a convivência de painéis de vidro com as telhas rurais. Depois, de novo, a presença dos bambus e o seu significado numa escola. Finalmente, numa estrutura de aço, a beleza da interpretação contemporânea de velhos pilares de uma ponte. O ritmo intencional é a lição permanente de design e arquitectura legada aos alunos.

Detalhes de uma das muitas pontes com pilares que ligam os edifícios, as telhas rústicas, o entretecer de tiras de bambu como divisórias e, por fim, o barro e o aço ligados numa combinação entre o antigo e o contemporâneo. Pude constatar aquilo em que acredito: a combinação entre o antigo e o contemporâneo na expressão de verdadeira autenticidade que transcende a moda do momento.

Como já disse, os edifícios estão todos inter-ligados por pontes, passagens aéreas. Depois, um pátio onde se vêem as paredes do edifício construídas com madeira da zona. A maioria das paredes é constituída por portas que se abrem ou fecham, oferecendo diferentes ambientes luminosos. Lá fora... a neblina depois da chuva.

Os antigos eruditos chineses acreditavam que viver em simplicidade lhes permitiria melhorar a percepção de tudo.
Frente à escola ergue-se o esboço de uma montanha semi-oculta pela névoa. As palavras não podem descrever visões, interiores ou externas. Tal é, também, o caso do Shi Wu, o Lago Ocidental, apenas descortinável através da neblina, lembrando-nos que a Natureza é a suprema sabedoria. Tudo é transitório, mesmo a árvore junto ao lago ou o seu reflexo na água. Nada senão ilusões. Aquilo que é inominável é o que de facto existe e é permanente. Só compreendendo isto e as leis da Natureza se pode aspirar a começar a ver através da ilusão da bruma.

       

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