V BIENAL INTERNACIONAL DE DESIGN DE MACAU
António Conceição Júnior
Membro do Júri e Presidente Honorário da Associação de Designers de Macau

 
 

INGLÊS

 

 

A apresentação na sala principal do Museu de Arte de Macau da V Bienal de Design de Macau, agora na versão alargada de abertura aos autores residentes na China Continental e Formosa, e constituída por um júri internacional, foi antecedida pela inauguração de uma exposição individual do decano dos membros do júri, o designer japonês Shigeo Fukuda, por feliz iniciativa do Instituto Cultural de Macau.
 

DO TEMPO PASSADO
Ao fim de cinco bienais, equivalentes a uma década de actividade, valerá a pena reflectir sobre o design em Macau que encontra uma primeira expressão mais formalizada nos finais da década de 70.
Contudo, em alguns desenhos de George Smirnoff, nomeadamente o seu desenho do cabeçalho de O Clarim, encontram-se os primeiros passos na área do design gráfico em Macau, no pressuposto de que a existência do design advém da premissa de clientes.
É contudo nos anos 80 que as instituições governamentais e alguns bancos começam a recorrer ao serviço dos ainda então escassos designers, ajudando de certo modo a sedimentar novos hábitos para uma actividade que poucos conheciam e pela qual poucos davam importância.
Contudo, após algum esforço e empenho, a própria Administração formaliza em meados da década a criação da carreira de designer nos quadros da Função Pública enquanto se cria a Associação de Designers de Macau em 1986, permitindo deste modo que se inicie de forma consistente um trabalho de design.
De certo modo, na história ainda breve do design em Macau, existiu invariavelmente uma permeabilidade e trânsito entre as artes plásticas e o design, interacção que iria dar preciosos frutos no desenvolvimento das duas vertentes.
Este diálogo em que alguns actores pisam os dois palcos, transferindo experiências, vai ser de sobremaneira
valorativo, como suporte para as acções que predominantemente o Instituto Cultural de Macau e o Leal Senado levam a cabo nos anos 80 e 90 e que se prolongam pelos dias de hoje, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais assumindo o legado da edilidade.
Cabe aqui deixar uma palavra de louvor e apreço pelo trabalho desenvolvido pela Associação de Designers de Macau que com esforço e militância tem vindo a empenhar-se na organização das bienais e, bem assim, realçar o apoio do Instituto Cultural de Macau e do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais bem como do Museu de Arte de Macau.


IDENTIDADE CONSTRUÍDA, ESPÍRITO REVELADO

Num enquadramento cultural onde exposições passaram de acontecimentos inéditos dos anos 70 para uma programação em crescendo a partir da criação da primeira galeria de exposições temporárias no extinto Museu Luís de Camões, em 1980, e da então chamada Galeria do Leal Senado em 1985, a que se seguiriam outros locais, vai-se instituíndo a prática do catálogo institucional, a que se seguem outros eventos de importância como o Festival Internacional de Música de Macau, o lançamento da TDM enquanto centro emissor de imagem, a numismática a que o Instituto Emissor de Macau daria invulgar impulso a partir de 1982, a renovação da politica de emissões filatélicas dos Correios de Macau, a demanda das instituições bancárias, a divulgação da defesa do Património, constituem-se em dinâmicas que ocupam as conversas e preocupações dos criativos.
Quer a temática dos trabalhos quer a necessidade de encontrar uma identidade que defina uma griffe colectiva para Macau, absorve em muito as preocupações dos designers de Macau, nomeadamente os de primeira e segunda geração.
Os anos 90 vêm acentuar essa efervescência criativa e de afirmação de identidade quer com a abertura a outras disciplinas como o design de moda e interiores, quer ainda pela consolidação dos computadores como instrumentos de expressão.
Este conjunto de circunstâncias e dinâmicas determinou uma colectiva busca individual, uma viagem, que não uma deslocação, sobre a identidade não só da cidade enquanto palco, mas dos criativos enquanto actores. Emergiu assim, paulatinamente, em consequência desse olhar introspectivo entremeado por trocas culturais intensamente vividas, uma pequena geração de autores que importa relevar de sobremaneira, no que diz respeito ao design gráfico, pela escola que fizeram, pressupondo-se que nela se inclua a partilha da vivência transcultural, geograficamente experimentada.

Na construção dessa identidade gráfica, griffe tornada não só inconfundível como reconhecida internacionalmente, estão os dois talentos incontornáveis no que diz respeito à formulação em Macau da velha máxima cogito ergo sum.
São eles Vitor Marreiros e Guilherme Ung Vai Meng, aos quais me ligam, há mais de duas décadas, afectuosos laços de amizade, que é distinta das referências que aqui se fazem.
Se Vitor Marreiros é essencialmente um designer que pinta quando lhe apetece, formado pela escola do talento e do instinto, Guilherme Ung Vai Meng é sobretudo um pintor que faz design.
Sendo a ordem dos factores inteiramente arbitrária, estes dois criativos são os criadores de uma marca macaense pela forma evolutiva e consistente como as suas linguagens se entrelaçam, distintas, porém comungando do melhor dos significantes que cada momento histórico da circunstância temporal propõe.

 

Ung Vai Meng, pintor, designer, chinês e as raízes macaenses do seu convívio.

  Vitor Marreiros, designer, pintor, macaense e uma iconografia chinesa que lhe é familiar.

Entre eles opera-se um trânsito de referências, ambos conjugando iconografias da outra etnia, estabelecendo a griffe identificadora.

 

O grafismo do pintor Ung Vai Meng no design   A iconografia lusa do macaense Vitor Marreiros

E aqui se exemplifica, para quem souber e quiser ver, a subtileza da identidade do design de Macau, uma conjugação singular de mundos que origina mais-valias

É assim desta linhagem da única aristocracia possível, a do talento patente que - apesar da natural modéstia dos dois autores - se apresenta tão incontornável, que ambos os autores já representaram internacionalmente a Republica Popular da China, por escolha. Dirá isto da pujança e singularidade desta R.A.E. de Macau.
Outros autores contemporâneos destes existem, mas direi que talvez sem as oportunidades ou sem a dinâmica para intuír o sentido histórico de Macau na formulação da identidade do design gráfico local para, a partir daí se relançar na senda da internacionalização.

 

ESTE OUTRO OLHAR DE FUTURO
Como se perceberá, não se irá aqui falar daquilo que se vê, sob pena de negar ao design a sua essência e natureza. Direi apenas que a dimensão multi-cultural da Região Administrativa Especial de Macau, transcendendo em muito a sua dimensão física, constitui-se como fonte inesgotável de uma linguagem resultante não só das suas memórias, como de todas as ficções decorrentes da singularidade deste lugar.
Assim é que o panorama dos trabalhos que se desdobram na exposição contempla uma variedade prometedora, que o catálogo da mesma regista para os interessados.
Qual cidade-estado que sempre foi e continua a sê-lo de outro modo, são as instituições governamentais que se constituem nos melhores viveiros para os designers locais. Não custa por isso perceber que quase todos os premiados vêm do gabinete gráfico do Instituto Cultural de Macau, do Museu de Arte de Macau ou ainda de outras instituições afins cuja actividade se liga directa ou indirectamente à cultura.
Porque, ainda que em muitos lugares do mundo a vertente comercial seja determinante, tem sido no estímulo cultural que os autores de Macau se têm afirmado na sua forma de fazer design.
Sobre o que desta mostra se pode inferir, extrapolar ou reflectir se irá dar, de seguida, algum modesto desenvolvimento.

O Museu de Arte de Macau apresenta dos melhores e mais brilhantes catálogos de Museus em qualquer parte do mundo.


O ACTO DE CRIAR

Na sua Teoria da Criatividade, Carl Rogers afirma que o processo criativo é a emergência actuante de uma nova relação temática nascida por um lado pela singularidade do indivíduo e, por outro, pelos materiais, eventos, gente e as circunstâncias que rodeiam o criativo.
Se bem que tal definição se enquadre integralmente no que para trás ficou dito, não é possível – por absurdo – definir estaticamente o processo criativo.
Ser-se criativo é também ver o mesmo que os outros mas pensar em algo diferente. Daí que creo não baste para dizer criatividade. Será preciso adicionar-lhe recro para recriar, porquanto o que se torna mais caro ao design, na globalidade dos seus contornos, felizmente cada vez mais indefinidos, é o redireccionamento de ideias e, ou objectos, para novos fins.
Dire-se-á igualmente que a criatividade envolve a tradução dos talentos e visões únicas em implosão e a subsequente transferência para a realidade exterior, tendo como limites as fronteiras e confinamentos pessoais, sociais e culturais.
Tal deixa-me ainda mais confiante na pujança de culturas híbridas que fazem uso de escritas e signos que se entrecruzam numa saudável dialética, como aqui sobejamente se demonstra.
O design que mais se identifica com Macau é aquele que resulta da manipulação de tais iconografias e dos seus arquétipos, essências e aromas que se não dizem por intraduzíveis, antes se constituem numa sinalética que espelha o modo como cada criativo identifica e se apropria de uma corrente deste rio de subtilezas que é a linguagem genuína de Macau, há muito precursora das mais recentes formas de globalização.

 

DO ENSINO AO MERCADO
A escola não pode deixar de emergir como elemento determinante na formação de novas gerações. Porém a escola não é, não pode ser - por definição natural e até matricial - uma entidade fechada sobre si mesma, um lugar de ensino mil vezes repetido. Aliás porque acreditar no ensino em detrimento da aprendizagem é pura falácia.
Estou certo de que a irrequietude mental de Confúcio e de Platão condenariam uma escola onde se procure ensinar naquele sentido que resvala para o amestramento.
Leonardo revoltar-se-ia certamente e Picasso bateu com a porta pouco depois de para lá ter entrado.
O ensino, sobretudo num campo tão pessoal e idiossincrático como o do design, só pode ser um convite ao prazer de aprender, porque verdadeiramente a finalidade do ensino é a aprendizagem, algo que, como diz a palavra, constitui uma jornada de descoberta não limitável, hoje mais que nunca, ao campo das tecnologias e a um receituário aprendido algures e debitado à míngua da criatividade que deveria ser omni-presente por inerência vocacional.
A escola não poderá ser um sítio de clausura mas um lugar de abertura onde o programa seja, não o mero curriculum técnico ou o palco de onde frustrados e frustrantes professores exercem o seu pequeno poder mesquinho para justificarem a sua existência, mas sobretudo o estímulo à pesquisa, o tempo para o sentido perdido do ócio, tão caro à mente saudavelmente inquisidora.
A Escola não é lugar de prisão, antes de libertação, auto-libertação esclareça-se. E mais se deverá esclarecer que o design é muito mais do que a superfície gráfica. Tal seria esquecer Leonardo, Walter Gropius, Le Corbusier, Breuer, para apenas citar alguns clássicos.
Além disso se a Administração tem sido até agora a principal mecenas dos designers que emprega, constata-se que o mercado privado não está suficientemente preparado para avaliar da importância da criatividade do design, por razões de dimensão do mesmo, agora geográfica, demográfica e comercial.
O desconhecimento redunda quase que inevitavelmente no preconceito, na ideia de que a comunicação ou o novo produto não é tão necessário assim. Este ciclo vicioso ninguém o rompe, buscando os clientes, muitas vezes em Hong Kong - por preços várias vezes superiores - aquilo que têm qualificadamente entre portas.

Vinicius dizia no seu poema, que não podes dar-me o que é meu. E também a poesia se aplica na singularidade do design de Macau, e sobretudo na capacidade de perceber as potencialidades desta realidade.

Dito isto, vale a pena referir a pronta emergência de uma nova revelação na área do design gráfico de um recém-diplomado pela Escola de Artes e Design do Politécnico de Macau, Hong Chong Ip, que recolheu prémios nesta bienal.
As fornadas de designers que saem do IPM não têm na sua globalidade mercado que os aproveite, levantando-se por isso a pergunta que se segue: como ensinar design sem mercado?

Este cartaz de Hong Chong Ip enquanto manifesto político, marcas de botas sobre uma bandeira definidas por um excelente grafismo, diz também da qualidade das gerações mais recentes.

 

Joaquim Cheong Kwok Wai é outro manifesto exemplo da incorporação de iconografias híbridas nestes cartazes alusivos ao casamento entre duas culturas.

 

PREVENDO O TEMPO FUTURO
Compete aos criativos criarem, aos visionários anteverem, aos mecenas apoiarem, e ao mercado consumir. Quando esta ordem natural se não cumpre por uma qualquer razão, algumas já referidas, há que encontrar soluções para o desenvolvimento do design no seu conceito global.
Feito o diagnóstico de que há de facto intérpretes de qualidade e que a singularidade de Macau é uma mais valia incontornável, importa que a leitura do passado se projecte num futuro onde a globalização das comunicações e de mercados pode ser uma das respostas mais fiáveis de abertura de mercados externos.
Macau teve historicamente a visão de entender a sua capacidade mediadora com o ciclo histórico do comércio da seda com o Japão. Essa mesma capacidade visionária e conjugadora, que este modesto escrito se tem vindo a referir, dir-se-ia que se foi diluíndo para fora do círculo criativo, iniciados outros ciclos históricos cuja ousadia que tornou Macau no mais rico entreposto do seu tempo, se foi esquecendo perante outros desafios.
Todavia não quero deixar de recordar que a proposta de um incipiente centro de Artes Visuais datada de 1977 apenas viu um primeiro assomo de vontade em 1988 com a criação de um Gabinete para um Complexo Cultural assente no princípio de que apenas se cria um equipamento desta magnitude uma vez, com um plano de financiamento ousado mas auto-suficiente, que viria em 1991 a ser dissolvido por ser ambicioso. Em 1999 inaugurava-se o actual Centro Cultural de Macau, suportado por instituições governamentais.
Em 1995 propôs-se a criação de um lugar de inteligência criativa, um Centro de Criatividade decorrente da leitura complementar da economia de Macau em relação ao primeiro sistema, tendo em vista reunir tecnologias, ideias, projectos de produtos. Em 2000 a Bennetton cria a sua Fábrica de Ideias. Em 2003 o Instituto de Estudos Europeus cria em Macau o Centro de Indústria Criativas, o que constitui em si um tempo de resposta mais curto.
Em 1998, ao integrar-me mais completamente no mundo cibernáutico, acentua-se-me a convicção de que o futuro da expansão do design de Macau passa inevitavelmente pela internet, enquanto oferta de serviços. Ao constatar que o Centro de Indústria Criativas criou uma base de dados de autores locais, vejo que a marginalidade em que me situava, no perímetro das ideias, se vai entendendo com o centro, em pontes que se desejam muitas, como raios de um ciclomotor que transporte respostas e propostas diversificadas ao mundo que existe para além da circunscrição geográfica.
 

UMA IDEIA DE DESENVOLVIMENTO

Parece haver em uma grande parte do mundo a ideia de que desenvolvimento é um decorativo biombo que nos é servido pela realidade envolvente e pelos media. Esta ideia de que apenas as leis do mercado são relevantes, consagra um erro de fundo daqueles que insistem em desconhecer que o emprego, a saúde, a educação, a habitação, os transportes e as próprias cidades, são dentes de um mesmo pente.
O desenvolvimento só o é quando redundamente sustentado, envolvendo o social, o ambiental, o económico, e todas as intersecções. A tudo isto se chamará também civilização e cultura, com a devida propriedade.
Assim, o aspecto criativo que o design inerentemente comporta, terá de ser esse grande caldeirão de lucidez onde o factor económico, o capital, só encontra a sua doutrina pelo seu utópico oposto: Das Kapital de Marx.

 
Membros do Júri da Bienal

Shigeo Fukuda - Japão
Kari Piippo – Finlândia
Kumnam Baik – Coreia do Sul
Ken Cato – Austrália
Tommy Lee Wing Chuen – Hong Kong
Stony Cheng – Formosa
Yu Ming Lung – Formosa
Han Jiaying – R.P. da China
António Conceição Júnior – R.A.E. de Macau

 
Alguns membros do júri durante intervalo da selecção de obras.

Han Jiaying, Yu Ming Lung, Shigeo Fukuda, António Conceição Júnior, Kumnam Baik, Tommy Lee

António Conceição Júnior - 2002