No dia 26 de Fevereiro de 1910, nascia em Macau António Maria da Conceição, filho de Leocádio Justino da Conceição, nascido em Macau na freguesia da Sé, a 28 de Janeiro de 1870 e falecido na freguesia de Sto. António, a 23 de Fevereiro de 1933, e de Ana Isabel Bernardino Maher.
Era o quarto de seis filhos que na altura moravam na Rua do Hospital.

 

 

 

 

 


À esquerda o irmão Adelino Barbosa da Conceição, um ano mais velho, o Pai Leocádio, tendo ao colo o filho Alberto Maira da Conceição, seguindo-se a irmã mais velha Ana, a Mãe Ana Isabel, outra irmã precocemente falecida em 1917, Edwiges Maria da Conceição, o jovem António Maria da Conceição que teria uns 7 anos, e à frente, de pernas cruzadas, o irmão mais novo, Carlos António da Conceição.
Por essa altura viveriam já na Rua de Sto. António, pertencente ao Bairro de Santo António.

Cresci ouvindo histórias e vendo fotografias mesmo antigas, que hoje guardo religiosamente.
Consta que o meu avô era físicamente muito forte e algumas histórias chegadas até mim confirmam-no.

Meu Pai parece ter herdado essa força física e muita bonomia. Aos 16 anos adorava o boxe, e combatia à socapa do Pai contra militares.
Cresci rodeado de revistas Ring falando de Joe Louis, Rocky Marciano, Jack Dempsey, Jersey Joe Walcot,  e tantos outros boxeurs de que o meu pai me falava
Certa vez, por volta de 1926, chegou a Macau um jovem que vinha com a família, e que também gostava de boxe. Tinha umas belas luvas de cabedal reluzente. No Liceu perguntou quem era o aluno mais forte que queria desafiá-lo para um combate. A vozearia dos alunos indicou que era o António.

Chamado o António, ficou combinado um combate mesmo defronte do Liceu de então, onde leccionava Camilo Pessanha, no terreiro da Caixa Escolar. Na data e hora aprazada, foram os alunos que formaram o ringue onde o António apareceu com as suas velhas luvas e o colega recém-chegado se pôs naquela pose antiga de braços estendidos. Vai daí, o jovem diz: "vamos lá a ver o que vales". A resposta foi um soco no queixo que o atirou ao chão. O pobre do jovem bateu com a cabeça no chão e desmaiou. A notícia correu célere, galgando a estrata do cemitério e chegando rapidamente à rua de Sto. António, aos ouvidos do Pai Leocádio. Nesse dia terminaram as aventuras de boxe para o jovem António de 16 anos, exactamente no ano em que se fundava a Filial No. 25 do Sporting Clube de Macau: 1926.
Porém, desse episódio ficaria uma grande Amizade entre os dois que se prolongaria por décadas.

Mas António Maria da Conceição, como todos os macaenses daquela época, dividia os seus interesses pelas corridas de velocidade, pelos estudos, pelas tropelias de adolescente que em conjunto saltavam as paredes do cemitério de S. Miguel para aí tocarem bandolins e guitarras, assustando a vizinhança que achava que eram almas penadas a manifestar-se, ou fazendo os chamados assaltos pelas festas de Carnaval onde pontificavam as tunas.

Não há dados que permitam confirmar que fosse adepto do Sporting, mas tudo leva a crer que sim, na medida em que, aos 17 anos, em 1927, partiria para Portugal para estudar Filologia Românica. A sua relação com o Sporting Clube de Portugal ficaria comprovada, no entanto, no ano seguinte.

 

Efectivamente, a fotografia da esquerda, datada de 1928, quando António Conceição tinha 18 anos,comprova não apenas a sua filiação no Sporting Clube de Portugal, como regista que o jovem universitário macaense se tinha sagrado campeão nacional de estafetas 5 x 80 metros o que constitui um facto extraordinário para Macau, porquanto foi o primeiro macaense a ser campeão nacional, fazendo parte da equipa do Sporting, o que significaria que estaria entre os cinco melhores velocistas leoninos na altura, apenas um ano depois de ter chegado a Portugal.

Novamente, em 1930, aos 20 anos, volta a ganhar o campeonato nacional de estafetas 5 x 80 metros, conforme a fotografia infra.
Ao mesmo tempo, jogava futebol na equipa de reservas do Sporting Clube de Portugal.

António Maria da Conceição, o primeiro jogador a contar da esquerda. Equipa de reservas do Sporting Clube de Portugal em 1930.

Nos anos 40 António Conceição regressa a Macau onde ainda joga entre equipas de solteiros e casados. Depois torna-se no Seleccionador da Selecção de Macau que ostentava a Cruz de Cristo. Nesta equipa, mesmo ao seu lado está Joaquim Pacheco, que pouco depois seria enviado para o Sporting Clube de Portugal por António Conceição, tornando-se num defesa de grande qualidade, e sendo campeão nacional quatro vezes, entre 1950-51 e 1957-58.
No entanto esta equipa estava recheada de elementos que, para a história do futebol em Macau é primordial. De Fernando Marques que jogava quer futebol quer hóquei em campo, a Airosa, Badaraco, Santos, Amarante, Carvalho, o Mac Kam Tong, funcionário dos Correios de Macau, muitos destes jogadores ainda jogavam nos anos 60, passeando o seu saber e classe pelo campo então chamado de 28 de Maio, hoje o Campo do Canídromo. A selecção de Macau defrontava-se anualmente contra a sua congénere de Hong Kong, que desde 1945 possui equipas profissionais. Porém as equipas de Macau, entre as quais esta de 1948 davam excelente réplica,como se pode ver neste registo.

Outra equipa, esta do Sporting Clube de Macau mostra jogadores muito familiares e de grande qualidade, lídimos herdeiros da geração anterior. O ano é o de 1951, António Maria da Conceição presidia à Filial de Macau. De entre este notável conjunto de jogadores destacou-se Augusto Rocha (o primeiro à esquerda de joelhos) que seguiria para o Sporting Clube de Portugal em 1954, jogando a época de 1955-56 pelos leões seguindo depois para a Académica.
Foi precisamente em 1951 que se actualizaram os Estatutos do Sporting Clube de Macau desde a data da sua Fundação. Muitos destes jogadores talentosíssimos e de enorme autoridade em campo, todos vindos da "bolinha" (futebol de sete muito jogado em Macau) encheram o único campo de futebol que Macau possuía na altura, passeando o seu talento e, naturalmente, sagrando-se campeões de Macau.

Em 1956 viaja com sua Mulher, a escritora e jornalista Deolinda da Conceição a Portugal, tinha eu quatro anos e meio. Recordo-me que, na sua qualidade de Presidente do Sporting Clube de Macau, desfilou com o Estandarte da Filial no Estádio José de Alvalade, vestido com um fato de treino verde escuro e me levou depois, ao balneário onde o Vasques se entreteve a brincar comigo. Era amigo dos tempos da Faculdade do Dr. Guilherme Brás Medeiros.

Foi professor do Liceu de Macau, Reitor e Chefe dos Serviços de Educação. Com o tempo soube dar lugar a novas gerações sem jamais perder o seu Sportinguismo. Era pessoa calmíssima, um desportista à moda antiga que aplaudia todas as boas jogadas, independentemente dos intervenientes. Foi sempre, sobretudo, um exemplo de desportivismo, de modéstia, de simplicidade.
Era um super-dotado para o desporto e para os jogos. Jogava extraordinariamente bem bilhar inglês fazendo tacadas de cento e muitos pontos. Com um grupo de amigos fundou a Associação de Bridge de Macau e promoveu inúmeros interports amigáveis com Hong Kong. Jogava também xadrez.

Enquanto reitor do Liceu, encorajou o desporto escolar sempre que possível.

Em 1968, com um activo grupo de Sportinguistas de Macau, celebra-se num almoço no saudoso Hotel Bela-Vista, outra vitória do Sporting Clube de Portugal. Nesse tempo ia-se ouvir o relato aos Serviços Meteorológicos, às quatro da manhã.

 

Eu vestido à Sporting em 1958. Nunca joguei.

Cinco décadas depois, com minha filha Sportinguista à esquerda, e uma boa amiga toda de verde.

 
 

Com o número 3, o neto de António Conceição, também António Conceição, de mãos dadas com a irmã, continuam a tradição clubística da família, sempre ostentando o leão.

 

 

SCM - Spot 3 from António Conceição on Vimeo.

Com fervor leonino, o neto realiza vários spots por altura dos 85 Anos do Sporting Clube de Macau

 

Esta homenagem é prestada no ano e mês em que completaria 102 anos de vida, porque, sabendo como foi sempre modesto, não quereria ser mais que outros.
A sua última grande alegria desportiva foi poder ver em directo a vitória de Carlos Lopes na maratona de Los Angeles, que muito o comoveu. No dia da Mulher de 1985, 8 de Março, fechava os olhos definitivamente um homem bom, um homem de bem, Sportinguista que nunca reclamou para si nenhuns louros embora muito tivesse dado ao desporto e ao seus queridos Sporting Clube de Portugal e Sporting Clube de Macau.
Assim, sempre que uma equipa do Sporting Clube de Macau subir ao relvado para jogar, é um pouco da sua Memória que com ele sobe.

António Conceição Júnior