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António Conceição Júnior Para que não diga sobre a mistura da opinião com a
informação, permita o leitor que num ápice, apesar da humildade da
minha voz, não resista a considerar António Conceição Júnior como
uma das actuais e mais fortes traves mestras do que representa a
genialidade macaense. Se o português de Macau é, por si, um produto
multicultural, este português do Oriente que esta semana se sentou à
mesa da conversa com o HOJE, invoca numa só pessoa um universo
vasto do que às artes diz respeito. Como museólogo ou fotógrafo de
arte, no desenho do traje ou na pintura, na gravura e serigrafia como na
caricatura, numismática ou grafismo. Na função de director artístico
de Festivais e também no design de mobiliário como é o caso da
exposição que vai apresentar na próxima quarta-feira no Clube Militar.
E depois – ou por entre tudo – o Aikido, a codificação do corpo. E
sempre a palavra escrita e dita. Com a profundidade de quem é inventivo,
de quem não possui da cultura a visão espartilhada. A palavra do
conferencista, do articulista de arte e do artista reflexivo sobre a
cidadania. António Conceição Júnior é, por entre os muros da sua
cidade, mesmo na convivialidade com os amigos, ideologicamente um
eremita bem informado. Visite o leitor cibernauta este
endereço. O artista enriqueceu uma das suas várias
páginas na net com muita matéria que justifica a sua atenção. Reféns do jogo “Defendo que a função quer do designer enquanto criativo, quer do homem enquanto cidadão e ser social, deve ser interventora de modo a, por exemplo, propor a requalificação ou reformulação se quiser, de indústrias tradicionais, renovando-as”, reflecte. Adianta que na exposição patente no Clube Militar a partir de quarta-feira apresentará fundamentalmente 3 linhas diferentes, quanto a madeiras, acabamentos, concepções, sobretudo – “baseadas naquilo que afinal eu sou, um produto de uma ficção entre o Oriente e o Ocidente. Anteriormente destruí peças já existentes para agora construir. São processos de celebração conceptual que tenho necessidade de realizar”. Atenção leitor, dou aqui o alerta abreviando a oratória fluida do convidado: O que vai ver, sob o título MADEIRAS, é design de mobiliário, como já ficou dito, mas... utilitário. Pode usar ou utilizar, sobretudo fruir a inventiva de Conceição Júnior, uma vez que as peças expostas poderão ser encomendadas ao autor. As potencialidades de Macau como espaço de criatividade. Neste assunto o entrevistado vai mais longe: “Macau devia conquistar o lugar de centro de criatividade e pensamento. Porque este é o lugar por excelência de encruzilhada de culturas reais e de ficções. E assim sendo e porque de entreposto sempre se tratou, não há criatividade sem economia. Tal como nos dias de hoje já não se pode pensar economia sem criatividade”. A economia para cima da mesa por mais do que várias vezes. O jornalista compelido a interrogar sobre tal aparente fixação. Simples: “Porque a questão económica é fundamental. Enquanto designer, enquanto cidadão e observador de Macau, tenho vindo a constatar a existência de modelos económicos que nos afectam a todos e se foram esgotando. Dou como exemplo o que considero um dos grandes erros do passado e de que tive oportunidade de a seu tempo o dizer, e que foi o de basear todo o suporte económico-financeiro da administração, praticamente numa única fonte de receitas, o jogo como se sabe. Isso conferiu às sucessivas administrações portuguesas uma condição de reféns desse digamos que contrato, desse tipo de opção. Ora, mesmo não sabendo de economia à maneira dos economistas mas apenas enquanto cidadão interessado e com opinião, entendo que é na multiplicação e na desmultiplicação de ideias válidas, na implementação da meritocracia como valor acrescentado para o desenvolvimento das cidades, neste caso de Macau, que pode residir uma outra componente de valorização, maximização e renovação da economia local”. Entre a multiplicidade artística deste homem, fale-se agora numa - a de criador de moda, feminina e masculina. Com uma marca que saiu de Macau e chegou a ganhar relevo fora de portas, A.CEJUNIOR. E tantas ficarão por falar neste imperioso resumo das 3 horas que o artista disponibilizou para o HOJE. “Atrevo-me a dizer que de certo modo a minha experiência na moda corporiza a inércia empresarial perante algo que durante anos foi acolhido muito bem por todos os lugares onde foi apresentado, Lisboa, Porto, Bruxelas, Pequim e outros”. Dito isto António rejeita liminarmente ter deixado de estar na moda, pela razão simples de nunca pretender estar na moda. O que o autor pretendeu foi transformar numa indústria, o acto criativo de fazer desenho de moda: “Macau não deveria nem deve andar a competir com o resto da China. É bom que seja complementar sobretudo à economia chinesa. Por uma questão de gestão correcta de recursos, Macau não tem vocação para competir com a China, o que deve ser é o software do esplêndido e competitivo hardware do chamado primeiro sistema”. Definitivamente de parte o regresso ao design de vestuário? “As coisas nunca são definitivas”- responde Conceição Junior. O lucro
em si não é pecado Será que este artista pontualmente irá conceber e produzir coisas inviáveis? A resposta vem pronta: “Macau tem destas perversidades, de incorporar, na sua grandeza potencial, a pequenez do diz-que- diz, e quase tudo se ficciona e adultera. Provavelmente uma das questões que fere a cultura portuguesa é o facto de tudo o que comporta a palavra lucro surgir com um ferrete pecaminoso. Ora o lucro não é pecado.É indicador e suporte para o desenvolvimento autonomizado. Pegando nessa linha de pensamento mas invertendo o sentido, verificamos que tantas e tantas situações só são viáveis se tiverem em conta que o lucro é condição para a sua continuidade. Veja-se o cinema português como exemplo. Excepto raríssimas excepções ele vive de subsídios porque ainda não encontrou soluções, formas, meios e metodologia para se constituir numa indústria que deveria ser”. Com meio século de vida completado em Dezembro próximo, há uma bagagem pesada de investimento cultural por parte de António Conceição Júnior. Porventura algum cansaço. E um aparente domínio do design. Ou, pelo menos o que tem sido porventura mais mediatizado. “Porque uma parte substancial dos convites que íam surgindo estavam relacionados com o design porque o design era passível de ser feito de uma forma mais imediatista e cada vez mais com a aplicação de novas tecnologias, ou seja, sem grande intervenção artesanal. Então a opção foi natural e quase como por exclusão de partes”, comenta o artista, acrescentando que “a maior parte de mim para a maior parte do tempo foi a criar coisas, a primeira galeria de exposições temporárias e Macau, um número vasto de iniciativas culturais, conservador de museu, coordenador de gabinetes de projecto ou dirigente de longo prazo de instituições ligadas à cultura”. E tem de vir à conversa, a disponibilidade do meu interlocutor para o que pode chamar-se a sua aproximação a um certo misticismo. No seu conceito, “nada é estanque, se existe alguma interdisciplinaridade, isso é natural. Porque somos simultaneamente corpo, mente e espírito. E nessa perspectiva o Ocidente comporta ainda algum preconceito sobre o corpo e bastantes preconceitos sobre o espírito. Pessoalmente encontrei nas filosofias do Oriente, nomeadamente no budismo e no taoismo, alguma explicação ou respostas mais satisfatórias sobre o sentido da vida e sobre o que cada um de nós anda fazendo por aqui”. A observação de que a vida é composta por círculos que se abrem e se fecham. Os preconceitos existentes sobre o chamado politicamente correcto e até o culturalmente correcto, utilizando a expressão do entrevistado. E ficou por resumir aqui outras variantes deste
português do Oriente – pelos caminhos da fotografia e do vídeo, da
pintura, da sua passagem pelos corredores do poder como assessor
cultural dum governador, como consultor cultural, como criador de
logotipos de várias campanhas institucionais. Também o António
Conceição Júnior como tocador de violão e cantador dos hinos de hit
parade dos anos 60 e 70, só para amigos.
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