|
 |
| Entrevista
guardada de
BLOOMLAND do dia 9 de
Outubro de 2008, publicada no diário
Hoje Macau da mesma data. |

Prefiro
situar-me nas margens
Diz que não tem vocação para o feérico e daí a vocação solitária, e
solidária. Uma exposição e um livro assinalam o regresso público de
António Conceição Júnior, um dos mais destacados artistas de Macau que, em
entrevista, discorre sobre a paisagem cultural, a sua actividade, a obra
de arte, fala da obscuridade como fundo da vida. O fio da compreensão está
na disponibilidade do encantamento, afirma nas páginas Centrais. |
|

|
|
ANTÓNIO CONCEIÇÃO JÚNIOR LANÇA LIVRO E
INAUGURA EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA NO CLUBE MILITAR
|
|
Nas sombras de
um sortilégio |
|
Não há necessidade de
apresentações. Abre-se mais uma janela, um modo de ir mais longe, no
extenso itinerário artístico de António Conceição Júnior. Primum Lumen,
a Primeira Luz, deu-se como o estigma de uma aparição, formada como
testemunha do despertar de uma madrugada. Uma visão que o autor não deixou
passar em claro realizando com a sua câmara fotográfica o registo desse
instante mítico que não se voltou a repetir. Como se o momento estivesse
unicamente a ser desenhado para si por mãos divinas cabendo-lhe o dever e
a missão de o trazer até nós. Nesse jogo de luzes, um encontro de
incidências e percepções, António CeJúnior, move-se pela escassez do
tempo, explicando a olho nu a incomunicabilidade de um processo como
normas de um registo sem vocabulário. Uma luminosidade indecisa que foi
caminhando até se desvanecer dissimulando-se no Saber e na sua oclusão num
plano fotográfico. O resultado é uma exposição e um livro, com textos de
António Andrade, Pedro Tamen e Rui Cascais, que nos fazem participar no
eterno dessa experiência primordial do nascer da Luz. Com o apoio da Casa
de Portugal e do IACM, a eternidade de Primum Lumen estará patente
no Clube Militar até ao dia 24 de Outubro, abrindo as suas portas amanhã,
Sexta-feira, dia 10 de Outubro, pelas 18.30.
O Hoje Macau falou com autor na tentativa de abrir a cortina de
toda essa experiência, dedicando-lhe mais que uma mera atenção furtiva. |
|

|
|
Começa sempre por se referir uma
carreira. A dado momento no seu texto de apresentação fala-se também, de
tão longa e variada, a carreira, de uma aceitação de se ficar por ali. Sem
querer construir uma linha, em que ponto estamos nessa carreira? Existe
realmente um percurso concreto e definido, estudado, ou existe apenas o
tempo a passar com diversas formas de expressão?
ACJ- Quanto à carreira, bondades do apresentador, autor do texto. De
qualquer modo, aceitemos o termo enquanto viagem feita mais à base do
instinto, da associação de ideias tornadas impulsos e do recurso às formas
de expressão que, em cada momento, aconteceram por mais convenientes.
Diria que há ciclos grandes e sub-ciclos, tudo transformado em coisas que
ficam poisadas até que outra vez sejam retomadas. E, inevitavelmente, o
tempo a passar. Mas não há pontos fixos, há deambulações por diversos
territórios.
Interessa na verdade o percurso, o que se vai deixando, como símbolo de
um empenho e de uma mestria, ou é tudo, e apenas, uma aprendizagem? Para
quê? Para chegar onde? A quem?
ACJ- O percurso é o binómio espaço-tempo olhado retrospectivamente. E
nesse olhar concluo que é a aprendizagem que interessa, enquanto
apropriação, acumulação de saberes aprendidos. Ao fim de 32 anos na área
criativa, verifico que foram mais as circunstâncias a propiciar a
aprendizagem do que propriamente um trajecto pré-definido, calculado e
calculista. Nesse somatório de aprendizagens há momentos que impelem a uma
partilha, como é agora o caso, o desejo de dizer “olha isto”.
É importante deixar vestígios? Deixar uma obra? Ver-se reconhecido?
Para si e/ou para os outros? Será acima de tudo, essa carreira, essa
aprendizagem, uma procura? Procura de si na reacção dos outros? Como a
coincidência de processos de que fala também outro texto do seu livro? A
marca de uma identidade tantas vezes intangível?
ACJ- É importante deixar vestígios pelo mesmo motivo que nos impeliu a
gravar algo no tampo de uma carteira, é o testemunho e o legado da nossa
existência...
Houve um longo momento, nos anos 90, em que tive uma exposição muito
intensa, quando fazia design de moda. Aí o reconhecimento tinha uma
importância vital em termos estratégicos.
ACJ- Todos nos procuramos na reacção dos outros. Eu diria que não busco,
que não procuro, no sentido literal, porque seria o princípio do
sofrimento. Não existe uma urdidura nem uma necessidade de ser
consequente, enquanto autor em cada momento. Eu sei que existe uma
coerência, mas não espero que seja necessariamente entendida. O que
acontece apenas é que vou encontrando pela vida coisas que me tocam -
objectos, visões, ideias - e registo-as ou desenvolvo-as sem me preocupar
com os meios. Diria que em vez da busca há uma disponibilidade para ser
tocado por paisagens singulares, para a co-incidência, convergência de
eventos ou encontros. |
|
|

|
|
Sei, por que o conheço, que é sempre
a procura de um caminho. Mas o caminho, à medida que se procura e se vai
desenhando com luzes, as luzes que nos permitem caminhar, é necessário que
nos surpreenda, e isso é tudo obra do acaso. Pode falar-me sobre isso: da
procura do escuro, também, para mudar de direcção. Do desnorte como
essência primordial na vida da pessoa que cria e, que de outro modo, sem a
devida explicação, se vai transformando em milagre?
ACJ- Hoje, a procura de um caminho é mais um acto de disponibilidade para
aquilo que me possa surpreender e maravilhar intensamente. E para isso, é
preciso que a obscuridade aconteça e o acaso permita a manifestação do
transcendente que é o sagrado movimento da luz. O escuro não é sequer o
princípio da obscuridade, mas é o que mais iguala os seres, aproximando-os
da ideia da morte.
A obscuridade por seu lado é, para mim, algo daquilo que o Tao Te Qing
alude: “Não Ser e Ser, saíndo de um fundo único, diferenciam-se apenas nos
nomes. Esse fundo único chama-se Obscuridade. Obscurecer essa obscuridade,
eis a porta de toda a maravilha”. Daí que compreender isto possa, em si,
constituír o princípio do milagre ou, se quiser, do vislumbre do divino.
O desnorte... Geralmente esvazio-me, no sentido taoísta do termo. Só o
vazio permite o preenchimento, daí que eu opere dentro destes parâmetros,
sem sofrimento. Sem pontos cardeais de criatividade, deixo placidamente
que as ideias e os impulsos se arrumem por si só, ganhando a sua própria
autonomia. Daí que neste modus operandi as coisas tenham um outro
ritmo. |
|
|
Condições para
o manifesto |
|
É essa constante procura que faz com que
esteja do outro lado da barricada? Sem a exposição mediática da
intervenção, intervenção na cidade, nas gerações, na sua cultura. Não crê
que há falta de pessoas com as suas capacidades para se poder moldar a
cidade de uma outra forma? Será isso também um baixar de braços, uma
desistência ou um desalento? Vê Macau, apesar de tudo, como a sua terra,
não refiro a veracidade das raízes, ou apenas como sendo o fruto da sua
presença? É para si tudo isto um filme?
ACJ- Brincando com as palavras, “barricada” suscita-me sempre uma
associação à Comuna de Paris, uma ligação quase cinematográfica. Mas
prefiro situar-me nas margens, que é onde se dão as trocas e se vislumbram
outros territórios, como muitas vezes escrevi.
Eu intervenho pouco mas funciono solitária e solidariamente por natureza.
Tempos houve que a minha intervenção foi mais visível, quando, por
exemplo, em 1977 propus um então incipiente Centro Cultural e, assim, se
remodelou o Museu Luís de Camões; quando em 1980 coordenei a Quinzena de
Macau em Lisboa, ou quando se criou, em 1985, a Galeria do então Leal
Senado, e do mesmo modo, de 1988 a 1991, enquanto Coordenador do Gabinete
para o Complexo Cultural, propunha a criação de uma mega-estrutura,
auto-sustentada financeiramente, incluindo uma Escola de Artes virada para
uma oferta ao Sudeste Asiático, após adequado estudo. Por ironia, em
visita a Xangai pude constatar que o enormérrimo Centro Cultural de Xangai
está assente nas mesmíssimas premissas de auto-sustentabilidade que eu
defendi para Macau.
Não sei se há falta de pessoas, penso que não. Sei de algumas bastante
dinâmicas e generosas.
Mas acontece que é tudo uma questão de poder e de oportunidade. Não se
trata de um baixar de braços, continuo disponível para realizar aquilo em
que acredito. E em Macau como em qualquer outro lado, é tudo uma questão
de poder.
Não é, pois, uma questão de desalento. Aos 56 anos, e trabalhando em
cultura desde 1978, o entusiasmo está escondido por trás de alguma natural
moderação.
Macau é a minha terra, nunca a vi como um filme, pois nunca fui um mero
espectador. Mas sempre afirmei que Macau era um palco para todas as
ficções, um lugar onde todos são actores, aumentando a sua esfera de
convívio, abrindo-se ao Outro e estendendo a mão ao Outro, o que é
diferente. |
|
|

|
|
No campo privado, salvo raras excepções,
também não se vê muito essa aposta. Faz-se muito de sombras, Macau? De
sub-exposições? É todo um campo de profundidade reduzido que as luzes dos
casinos procuram dissimular e tranformar numa realidade sobre-exposta?
Isso interessa-lhe? Saber que velocidade ou abertura se poderá usar para
enfrentar o futuro mais próximo? Ou é mais "point and shoot"?
ACJ- Em Macau, entre vários, existe o Circulo dos Amigos da Cultura, as
Livrarias Bloom, o Art For All (AFA) com dois polos, a Casa de Portugal, o
espaço do Asilo da Santa Casa, o Creative Center, a Casa do Boi e
certamente outros e várias correntes de jovens, menos expostos, mas não
menos activos.
Existe na verdade um abandono, por parte das entidades competentes, por
nos estarmos a aproximar do fim de uma era? Chegará alguma vez ao fim o
período de transição? Ou existirá sempre essa celeuma da presença de uma
herança, híbrida, de uma outra cultura que apenas se consegue mostrar mas
não assimilar?
ACJ- A cultura híbrida de Macau, tanto se pode referir à comunidade
portuguesa como à comunidade chinesa de Macau. A sua existência não
confina, antes enriquece, porque potencia a abertura ao Outro. A Macau
miscigenada não é redutora, mas deve estar aberta a novos horizontes,
muito mais vastos que o tempo de um período de transição. É necessário
observar as experiências de Xangai e Pequim e o civismo de Hangzhou. São
paradigmáticas. Aqui, os especuladores imobiliários, por exemplo, não
podem compreender mais além da ganância que os move, porque o ignorante é
aquele que desconhece que não sabe. |
|
|

|
|
Propagar-se
pelo reverso do escuro |
|
Fale-nos então deste projecto Primum
Lumen. Foi uma visão de algo que já lá estava, como um olhar de relance?
Uma tomada de consciência? Uma insónia? Um período de vigília que deu azo
à descoberta de outras percepções? Ou foi algo que rugiu de dentro com o
pulsar do coração? Uma vontade férrea de dizer algo incompreensível. Tão
incompreensível como o espectro de luz que se transforma em cor nos nossos
olhos.
ACJ- Falámos na disponibilidade do olhar. O olhar é sempre mental.
Chamei-lhe Primum Lumen porque foi algo a que assisti, com uma carga
significante idêntica àquela que teria se estivesse a assistir a um
eclipse lunar a ocorrer em minha casa, idêntico no impacto e talvez
plástica e teologicamente mais belo e, ao acontecer, é preciso registar,
capturar esses espectros luminosos rompendo a escuridão num silêncio
atroador.
Não há tempo para pensar, apenas para estar ali a fotografar, a ver o
movimento espaço-temporal da luz. Há que captar, daí que ao fazer, eu
privilegie o olhar. Agora vem a partilha de momentos extraordinários.
A primeira luz apaga-se ou tem continuidade perpétua? De onde surgirá a
segunda luz? Da absolvição da primeira, do seu (re)conhecimento? Não se
fala de cor aqui mas apenas de luz, será a cor o que se segue à Primum
Lumen? Esse distinguir do que é vida e forma? Será a escuridão, em tudo o
que ela encerra, uma vontade da luz se apagar? De ganhar a sua eternidade?
ACJ- Exposições e trabalhos desta natureza redefinem a meu ver não só o
conceito de feitura, como me recordam que, ao princípio, me ocorreram
nomes como Kamera Lucida ou Kamera Obscura. A presença da côr é a
manifestação da Photos, da Lux. Isto é, há uma preocupação em respeitar
integralmente, sem manipulações, “as imagens”, o que se me manifestou. No
entanto, há naturalmente uma preocupação plástica que orientou o registo
fotográfico.
A luz já ganhou a eternidade. Pouco depois de fotografar, as reflexões
levaram-me ao big-bang e ao modo como tudo o que daí advém é Universal no
sentido do divino. Nessa perspectiva, pareceu-me perceber que como que
trazemos gravado no nosso DNA a memória dessa Primeira Luz que nunca
vimos, mas que parece estar presente na nossa memória colectiva.
Na verdade as imagens, apesar do seu modo plano e estático, no momento
de silêncio que representam, procuram dizer alguma coisa. Ter uma voz. Um
mundo mítico. E por entre elas, a pouco e pouco, se discorrem as linhas de
toda uma história. Estarei a exagerar? Que histórias escondem e despertam
as suas imagens?
ACJ- O que me fascinou nesse meu encontro com a alvorada foi, por um lado,
a resplandecência do que vi, depois, o modo como a luz mudava de forma e
pintava, deixando marcas mutáveis de luz e sombra que entendi como que
sagradas, na conjugação do tempo e da hora a que tudo acontecia. Daí que a
minha convicção é que sejam histórias da própria luz, nada de narrativo,
porque transcendente. |
|
E será "imagem"
a palavra certa para expressar o que a sua exposição e o seu livro, a sua
visão, representam e nos trazem, nessa forma de luz? Foi essa a metáfora
pela qual conseguiu representar a sua mente? Tornando as ideias mais
vivas? Como se as linhas dessas "imagens" fossem apenas o fluxo de toda a
sua imaginação e o DNA de uma carreira artística que vive de
experimentalismos?
ACJ- Atrever-me-ia a dizer imagem no sentido de registo apenas, de
representação do intangível. Curioso, porque não coloquei em mim o DNA mas
sim na própria luz e acho que fiz bem. Não diria que o que faço é
experimentalista, muito menos tem intenções de vanguardismo.
Falo dessa sua maneira de passar de um ofício para o outro e de os ir
experimentando.
ACJ- Chamo-lhe mais uma itinerância...
Mas uma imagem, apesar de tudo, fala por si. Ela existe como figura
estética, não podemos considerar apenas o claro e o escuro de que elas
aqui são feitas. É preciso que os outros compreendam. Muitas vezes o texto
que as acompanha serve também para as obstruir e encantar. Onde está o fio
de compreensão desta sua obra?
ACJ- Tem razão. Eu diria que o fio de compreensão está na disponibilidade
para o encantamento perante o que se patenteia, sem explicações, porquanto
o que destrói é a necessidade humana de uma explicação, de um domínio
sobre a figura, estética ou não, a busca de significados explícitos. Um
pôr-do-sol não se explica. Não precisa de explicações. Talvez com alguma
abertura e sem preconceitos, esta luz possa ser acolhida sem a necessidade
de uma compreensão. Estão estética e significantemente para além disso.
Para quem chega aqui, e posso também estar a falar de modo simbólico, e
depara com a primeira luz, para que lado é que poderá encontrar a sua
iluminação? Revelação? Rasgo de génio? Existe aqui um trajecto?
ACJ- Existe sobretudo disponibilidade para olhar e ver. Não gostaria de
adjectivar. Há certamente um trajecto. Há precisamente um ano, realizei
uma exposição a que chamei Macrocosmos, onde os temas eram “aqueles
lugares por onde o Tao circula e nem os homens frequentam”. Eram e são
fotografias onde a cor tinha um papel preponderante. E creio que foi
preciso ter realizado esse álbum e exposição, após um interregno
fotográfico de 15 anos, para que o meu olhar, sensorialidade e visão
pudessem estar disponíveis para descobrir a Luz Primordial.
Parece-me, e não quero estar a criar fundamentos, que esta Primeira
Luz, é no fundo uma concepção e um nascimento. Como a luz que se vê porque
os nossos olhos não podem ver mais. Não estão adaptados às circunstâncias.
Um recém-nascido que não pede para que lhe seja dado a noção do seu
universo. Um ponto de partida para um mundo imaginário. Será?
ACJ- Eu estou inclinado a concordar consigo. Há uma iniciação, quando
cegamos para ver, ou quando vemos para cegar e passar a ter a consciência
que afinal vemos com a mente.
Pessoalmente sou suspeito em procurar dar uma explicação porque foi uma
experiência extraordinariamente forte.
|
|

|
|
Mais do
que a representação do belo, a Arte, hoje em dia, funciona mais como uma
peça de mercado. Como investimento. Também não existe muito, de um modo
geral, no transeunte, essa noção ou essa explicação. Em tempos de crise,
as pessoas querem é saber onde e como vão comer a próxima refeição.
Importa no fundo, a Arte, como alimento de uma sociedade? Para o seu
fôlego, se não existem na maioria das vezes as bases de um conhecimento
prévio? Táctil?
ACJ- Para mim tem de haver uma enorme dose
de verdade ou então passa para a prateleira da mercadoria. E isso tem
vindo a acontecer com extraordinários álibis em algumas galerias de nível
mundial. No fundo, nada mudou. Antes era a nobreza agora é o capital.
Nas sociedades mais desenvolvidas onde prevalece o liberalismo económico,
existe uma maior preocupação com a Arte enquanto produto de consumo
devidamente adornada por cinquenta justificações. Não digo com isto que
não existam artistas nem expressões, mas existe de novo o enorme perigo do
condicionador sucesso, dos artistas que são feitos e desfeitos por
galeristas em cinco anos...Por isso a arte não faz parte do quotidiano do
transeunte, como tão bem lhe chamou. O menino da lágrima serve
perfeitamente. |
|
|

|
|
Importa-lhe que a Fotografia não seja
considerada uma das Belas-Artes, como refere na sua nota sobre esta Arte,
não será isso apenas uma toponímia, como uma espécie de Livro de Recordes?
Em que ponto estamos dessa definição em que a anarquia dos meios digitais
aproxima cada vez mais a Arte do seu utente, tornando-o também um criador.
Estaremos em presença de uma contemporaneidade em que existe uma
infinidade de artistas? Será o futuro plano a esse ponto em que a Arte
estará ao alcance de um controlo remoto, na facilidade de criar uma Obra
de Arte?
ACJ- Para lhe dizer a verdade, nas sociedades mais conservadoras, as
pessoas hierarquizam, valorizam e avaliam as formas de expressão. A mim
não me incomoda particularmente, primeiro porque não me considero
fotógrafo, não sou fotógrafo no sentido que se dá ao termo. Uso a máquina
fotográfica como um instrumento. Estamos num momento da história da arte
onde as tecnologias são suportes fundamentais. Todo este panorama assusta
e confunde quem está fora dele. Atravessamos um tempo de entusiasmos e
experimentalismos muitas vezes radicais, e é nesses tempos que se espera
alguma circunspecção mas não um bloqueamento.
Em quem vai votar, em Obama ou Edmund Ho? Vai ficar para sempre em
Macau? Sente falta de estar longe? Pensou de algum modo, ao longo do
tempo, como seriam as luzes de uma carreira internacional? Primordiais?
ACJ- Votaria nos dois, se fosse possível. Macau é a minha terra, nasci cá,
as minhas raízes estão aqui. Não, gosto muito de Macau. Já pensei nisso
nos anos noventa. Ainda bem que não aconteceu nada. Descobri que não tenho
vocação para o feérico. |
|
|