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Clara claridade

O sol poalhava-se de uma finissima poeira dourada, suspensa no ar, acrescentando ao astro uma patine que emprestava ao ambiente o dourado do incenso. Era o tempo em que os ventos sopravam do deserto trazendo do nomádico Norte essa nuvem que tudo cobria.
Tinha a aparência de uma missionária com votos de austeridade, o pó cobrindo-a inteiramente sem contudo lhe refrear o sorriso e a benevolência com que olhava os outros e a vida. As sandálias grossas, com solas de pneu, acrescentavam ao seu todo sinais de desprendimento que mais tarde soube, era mesmo total.
Percorria a imensa capital em duas rodas, aprendendo os clássicos, exercendo a tarefa de traduzir ideogramas para a língua que lhe era materna a troco de um quase nada, dízimo que escolhera para ser o seu tudo da subsistência, dando ao espírito primazia sobre a matéria.
E esse despojamento em direcção à essência, voluntário e tranquilo, ia-a conduzindo inexoravelmente a um estado de decantação que progressivamente a colocava nas fileiras daqueles que, sendo laicos, atingem pela sua conduta, um estado que os coloca nas fileiras dos que se condenam à bem-aventurança.
Na enorme cidade calou as tristezas dizendo alegrias, olhando os dias vividos um a um, sentidos desde o pequeno quarto onde o corpo adormecia e a mente se evadia, como sempre, percorrendo estepes e desertos, ouvindo o rumorejar do vento e das areias, encontrando oásis de benevolência povoados de arhats.
Algures, em outra dimensão incompreensível para o saber humano, onde a forma do ser talvez se traduza pela sua própria indizibilidade, vagueiam energias supremas que - sem fios, ordens ou vontades – presidem à permanente reinvenção do universo no seu todo, e ao infinito que o contém.
Chamam os homens destino às causas para as quais a sua razão não encontra outro modo de explicitar os inacessíveis mistérios daquilo a que nomeamos desígnio, ou mesmo vontade, causa e efeito.
Ocorre que - pela ordem das coisas que assim chamamos por não conhecermos melhor nome para dar à imprescrutabilidade do que é insondável – se me deparou um dia tal personagem que mais tarde vim a saber chamar-se Clara, e cuja voz cristalina ouvi em um evento, dizendo-me o instinto que merecia a pena o impulso que senti de a querer conhecer, porque ali pressentia eu o timbre de uma claridade que desejava fruír.
De pouco valeu a vontade de a conhecer porquanto, não sendo chegada a hora, por aí me fiquei vivendo os meus dias, um de cada vez, talvez ciente de que viver o futuro passa pelo perigo da erradicação dos quotidianos que se vão desenrolando como tapetes de histórias várias onde cada personagem se nos apresenta para fruição num cenário quantas vezes construído, obscuro ou radioso, conforme a forma da conta que fazemos às contas do rosário da vida, inevitável convite à introspecção.
Zhou Yun abria-me entretanto as portas de um outro mundo onde raramente penetrara antes, maravilhando-me com a sua combinação entre a tradição do seu pi-pa e a postura equilibradamente irreverente que a caracterizava. Era um mundo de relações humanas harmoniosas, onde o sorriso se assemelha à brisa refrescante que faz sussurar a folhagem das copas das árvores e as pessoas tinham a sabedoria de encontrar no Outro motivo de satisfação.
Resolvi aprofundar os meus estudos de português, comunicou-me, quando de novo nos encontrámos para um almoço no meu restaurante chinês favorito. Mas você fala perfeitamente, repliquei.
Nunca fiando, até porque quero tocar violino e música clássica ocidental, respondeu ignorando a minha interpelação. Se não se importa, resolvi convidar a minha professora. Fitei-a perplexo com o à-vontade dela. Ei-la, exclamou, olhando a entrada por onde entrava um vulto em contra-luz que se ia progressivamente transfigurando na luminosidade que aos poucos se apossava da figura. O semblante era risonho, os olhos escondendo-se por detrás das pálpebras enquanto o marfim dos dentes se mostrava prazenteiro.
Próximo da estupefacção, optei por aceitar os desígnios da teia que tudo liga. Olá exclamou alegremente Clara, olhando para os dois, o sorriso amplo, o corpo esguio envolto em vestes largas, como um hábito laico.
Zhou Yun franzia o sobrolho de espanto. Conhecem-se? Clara riu em contralto e eu respondi: vagamente, num hermético sorriso. Vagamente? Insistiu Zhou Yun, mas porque sou a última a saber? Clara abraçou-a ternamente: não é nada disso. Tu apenas cumpriste os desígnios da minha deusa favorita. E inflectindo a conversa, apaziguada a jovem, disse com jovialidade, tuteando-me: é espantoso, já viste? As coisas caem no lugar no tempo certo. Quem haveria de dizer, e as palavras saíam como pedaladas iniciais até a inércia ser vencida.
Tu viste aquela coisa linda, um autêntico número, que foi o Gilberto Gil cantar na ONU? Fiquei tão feliz que a cultura pudesse dar à politica um aroma que bem precisa, e a voz de Clara tinha picos de ênfase transparente. O meu grande sonho é que um dia a Zhou Yun possa fazer a mesma coisa. Sorri perante toda aquela perclaridade a que me habituei a chamar de candice quando vindo de Clara.
É que por vezes não importa muito que as coisas fiquem como sempre estiveram. O que conta por vezes é a assombrosa claridade que transparece de alguns eleitos do espírito, capazes de se darem sem nada pedirem, e que fazem a benesse de nos enriquecerem a existência.
Entretanto as couves chegaram, os cogumelos também, e o liu cha jorrava do bule em torrentes de uma intensa transparência.
 

 

copyright © António Conceição Júnior 2003

Pu shi

 

Jing