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Tem a cultura
chinesa uma prática interessante, pequeno gesto actual transposto no tempo
pela perenidade do conceito: quando batem palmas a alguém, o visado
retribui, assumindo a recusa de ser o alvo e o centro, murmurando noutras
ocasiões qing duo zhi jiao, que é o mesmo que dizer
agradeço os seus ensinamentos, modo humilde de, ao humilhar-se,
encontrar nessa atitude maior receptividade do outro. Serão eventualmente ritos, costumes antigos
diluídos pela repetição quase obsessiva, inscritos nos cânones da cortesia
chinesa.
Quando a peça terminou, bati gostosamente palmas e toda a orquestra se
ergueu, os acordes finais d'as raparigas das estepes
galopando-me ainda nos ouvidos, o maestro dobrando a túnica azul escura em
prolongada vénia.
Terminara enfim o concerto e eu esperava que nenhum
melómano mais entusiasta gritasse um bis ou encore qualquer,
excesso de quem timbra os sentidos pelo prazer da repetição,
mesmo que
nada se repita como pensamos.
O meu modo de entender a liberdade sempre me fez sentir desconfortável com
os formalismos, e estar numa cadeira sentado e engomado não é vocação que
alimente. Gosto de poder estar quieto, apenas por opção
e conveniência física ou mental. É a
liberdade que a mente requer para o corpo.
Pude entretanto avistar Zhou Yun no meio dos músicos, a cabeça
ligeiramente pendente, sorrindo para a partitura. Hao
de, hao de, (bom, muito bom) ouvi dizer atrás de
mim. A voz era conhecida, mas decidi que tinha preguiça de olhar.
Deslizei para o átrio, no escoamento geral da sala, esperando surpreender
Zhou Yun à saída dos camarins. Decidi que iria à procura dos mesmos,
provavelmente ultrapassando as regras de uma eventual segurança.
Dei com os bastidores pelo som de vozes excitadas, encontrei alguns
músicos que conhecera noutros tempos, trocámos cumprimentos. Até mesmo um
velho conhecido que falava inglês me deteve a dizer amavelmente que
estava na mesma e a saber de mim. Os óculos escuros escondiam o
olhar que buscava Zhou Yun, quando esta saiu da porta mesmo à minha
direita. Teve um breve lampejo de espanto, o velho conhecido falou-lhe em
mandarim e percebia que me apresentava como lao pang yao (velho
amigo) e tecia algumas considerações mais alongadas àcerca de mim. Zhou
yun murmurou distraída: shi ma? A jovem distinguia-se pelo
comportamento vagamente irreverente com que encarava as situações. Era por
isso, no trato, bem menos formal, o que me agradava realmente. O homem
despediu-se e eu disse à guisa de saudação: pois hoje foi a minha vez
de lhe fazer uma surpresa. Sorriu pegando na caixa do pi-pa com
as duas mãos. Obrigada disse com ar de menina olhando o chão.
Caminhávamos para a saída, ainda uma cauda de público remanescia.
Devo confessar que só vim porque sabia que a iria encontrar, e já faz
tempo. A caixa pendeu para uma das mãos e a postura voltou a ser a da
jovem de passos silenciosos. Não gosta de concertos? inquiriu em
tom de distraída curiosidade. Esperei que ultrapassássemos o umbral de
permeio com alguns olhares promíscuos aguçados por ideias devassas,
habituais nas terras pequenas onde a única generosidade é o linguajar
julgando aparências, e no ar mais fresco da noite continuei: não gosto
de espartilhos do bem sentar, do bem ouvir. Para ouvir não é preciso ver,
ainda que aprecie os sentidos inteiros, e nem sempre gosto da
proximidade física, sobretudo de uma mole humana.
Curioso, retorquiu Zhou Yun, o violinista que estava a falar
consigo disse-me coisas de si... porque se afasta do mundo?
perguntou, interrompendo-se. Caminhávamos entre os dois blocos, por um
plano vale de belas lajes, atraídos como insectos para luzes mais
longínquas, mecanicamente, indiferentes ao percurso normal do público.
Acha que a palavra, enquanto verbo, diz tudo? perguntei, de
quanta sinceridade se pode ela revestir? Zhou Yun parou por momentos,
abraçou-se à caixa do instrumento, rodando o corpo como que a embalar-se a
si mesma. Acho que a sinceridade está para além das palavras,
retorquiu enquanto recomeçávamos a caminhar.
Olhei o breu pontilhado de luzes, jactos reflectindo luz ao longe. Acho
que a palavra é parte apenas. Da sua sinceridade depende o
modo de quem lê o todo, o seu grau de disponibilidade. O diálogo já
incorpora outros níveis de linguagem, isto é, a expressão visual, a
claridade ou a obscuridade, a transparência de que somos capazes de ser
ou, pelo contrário, a formal opacidade da circunstância.
Caminhávamos sem olhar um para o outro, porque era mais cómodo. Afinal as
ideias manifestavam-se na soturna claridade por onde pisávamos. Descemos
degraus, pisámos relva, escolhemos o empedrado do passeio. Nos nossos
olhos que se não olhavam corria a conversa dos pensamentos. Apesar da
diferença de idades éramos apenas dois seres preocupados em se conhecerem
sem outro objectivo que não o de se fruírem espiritualmente.
Recordei o modo como por vezes sinto os outros, e naquele momento
sentia Zhou Yun, percebia-lhe o voar veloz dos pensamentos e as súbitas
interrogações. Era escutar nela o silêncio audível. A linguagem não se
esgota nas palavras, quando muito estas complementam o muito que se pode
ir dizendo. Por vezes prendemo-nos demasiado à matéria da palavra,
esquecendo o gesto inconsciente, a postura falante, a emanação de nós.
Senti, quando já discerníamos o barco de pedra, que havia alguma
perplexidade na minha amiga, confusão mesmo.
O silêncio tinha sido prolongado. Zhou Yun parou, agarrou na caixa do
pi-pa por detrás das costas, fitou-me: mas afinal o que é
que você faz? O violinista disse-me que é um artista. Mas quem é você?
Gargalhei brevemente, pensando se lhe haveria de contar a velha história
daquela pasta medicinal. Optei por sustentar-lhe o olhar inquiridor:
desculpe a gargalhada, não era ofensiva, não lhe era dirigida.
Ela mantinha o olhar sério, esperando mais explicações. Baixei os olhos a
tomar fôlego. É-me penoso falar disto. Mas acho que lhe devo uma
explicação, preludiei. A vida é uma folha de papel sobre a
qual desenhamos o nosso trajecto. Porém nem sempre o desenho é
claro para os outros ou sequer para nós. As pessoas pedem referências
muito precisas. O olhar de Zhou Yun ia-se descontraindo. No mundo
em geral, e se calhar em Macau particularmente, é preciso que haja uma
identificação. As pessoas precisam de saber em concreto o que somos, quem
somos, o que fazemos. Apercebi-me a determinada altura da minha
vida que transgredi esta regra e me remeti voluntariamente a um silêncio,
sobretudo quando percebi que a definição de uma circunferência não está
tanto assim no centro, mas sim na margem.
Avistávamos já o barco de pedra e os cavalos investindo, jactos de água
jorrando explosões.
Você quer dizer que se retirou voluntariamente, assim como um eremita
em Huang Shan? Zhou Yun mostrava-se pensativa, enquanto eu degustava a
sua linguagem. Ah, continuou, eu acho que o centro é sempre o
centro, o lugar de onde tudo irradia. O Tao te Qing diz que
trinta raios convergem para o centro da roda, mas é do vazio do
centro que depende o seu uso.
Foi agora a minha vez de parar: não foi voluntário num sentido de
tomada de consciência entre a essência e o excesso. Foi gradual,
dando sentido a uma natural tendência, retorqui. Mas reparo que a
Zhou Yun disse primeiro que o centro irradia e citou depois a convergência
dos raios da roda para o vazio do centro. Não acha que o aro da roda,
emanação do centro, é a parte da roda que opera o contacto com o
chão? A jovem encarou-me pensativa. Depende do modo como se vê a
questão. O vazio do centro permite a rotação, mas é o aro que realiza a
função emanada do vazio. Fitei satisfeito o barco, o ruído da água
anunciando um concerto de elementos. Gostava cada vez mais de partilhar
ideias com Zhou Yin, até porque se assumia como igual nas nossas
diferenças, e isso agradava-me.
Você ensina-me muito, Zhou Yun. Olhou-me com ar de espanto enquanto
recomeçávamos a andar. Sabia que ela não tomava as minhas palavras como
uma formalidade. Sendo irradiação ou convergência, centro e margem um
não existe sem o outro, no caso da roda, ou noutro qualquer,
continuei. Afinal que é a roda senão a projecção do sol?
Os olhos da jovem, inteligentes, iluminaram-se. Ah sim, tal como o sol
quando atinge o zénite também esse é o mesmo momento em que começa a
descer, exclamou sorrindo-se. Acompanhei-lhe por dentro o sorriso,
olhando o eternizado combate entre a pedra e a água. Procurava mais
argumentos e sentia que a jovem aguardava o desafio.
Chegámos entretanto quase à beira do embate, salpicos de água anunciavam a
sua proximidade. Gosto desta chuvinha comentou Zhou Yun no seu
delicioso português, é como sentir a água sem ver que ela nos molha.
Aí me perdi a reconstruir o embate da água, deixando que uma neblina de
gotículas me invadisse. Perante o efémero das gotículas que molham sem
que vejamos senão a nuvem que elas constituem e na qual se encobrem,
disse, rompendo o concerto de água, tudo não é senão a ilusão dos
sentidos.
Zhou Yun virou-se para mim limpando o rosto com a mãos, que quer dizer
agora? Peguei-lhe na mão e puxei-a para trás. Recuámos até que a cena
voltasse a ter o sentido original. O que vê? perguntei.
Cavaleiros combatendo contra um barco. Mas espere,
apressou-se Zhou Yun a acrescentar, essa é a visão mecânica dos
sentidos.
Sorri de novo para dentro, satisfeito com o modo atento como ela existia.
Não acha que, subjacente ao que vê, pode estar também a metáfora da
existência? Senti em Zhou Yun a emanação da sua própria pacificação.
Você fala do centro e da margem? inquiriu, tranquila agora,
poisando a caixa do pi-pa.
Sinceramente não sei sequer se existe um trajecto irradiante ou apenas
os extremos. Mas a água pulverizada elucidou-me mais sobre o sentido da
vida, retorqui. A água será enquanto matéria, um composto químico,
simples combinação de oxigénio e hidrogénio. Mas enquanto um
dos cinco elementos, leio nela a metáfora da vida, a lição da existência,
continuei, esperando que ela se mantivesse no universo chinês. O semblante
carregou-se-lhe. Provavelmente a teia que íamos tecendo transpunha os
limites do tempo de que dispusera para conversar. Mas afinal quem é
você? Senti-lhe na voz a exasperação do tempo não pronunciado. Pus as
mãos em concha simulando uma tigela, estendia-as em direcção dos salpicos
invisíveis, murmurando uo pu shi. E recordei-me de que a utilidade
da tigela advém do seu vazio.
E aí me deixei estar, olhando hipnotizado a pulverização da água,
perguntando-me quanto de corpo temos no espírito ou se,
afinal, somos
corpo impregnado de espírito.
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