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A velha casa de chá,
quase tão antiga como a rua onde as lajes de granito chinês se misturam
com o troço da calçada à portuguesa e o asfalto, como se degraus de vários
tempos se tratasse, mantinha o ar arejado desde a última vez que a
visitara, para sentir o nascer o sol.
Curioso como uns preferem ver o dealbar e outros de senti-lo. Há nessa
transição toda uma transformação que se opera, metamorfose dos contrários,
energias que se vão, outras que renascem, cumprindo eternos ciclos cujo
testemunho nos passa ao lado, indiferentes pelo hábito.
Olhei a porta da cozinha de onde saía abundante vapor da cozedura a que as
iguarias daquela hora matinal eram sujeitas para o paladar exigente dos
clientes. Na imensa sala, aqui e ali, pendiam gaiolas de pássaros,
tranquilas ainda, cobertas pelos panos que procuravam manter as aves em
repouso, enquanto os donos e outros fregueses bebiam chá lendo o jornal,
indiferentes na aparência à transmutação das horas.
O dia afirmara-se por fim, e eu notara que não tinha bebido café, mas sim
chá, troca que me soubera bem, entre a cafeína e o teína, afinal também
eles ícones de dois mundos. Decidi que era hora de retornar a casa.
Levantei-me e foi então que senti as dedadas de um olhar cravado nas
minhas costas.
Bom dia. Tenho estado a observá-lo, disse Zhou Yun com um
sorriso prazenteiro, sentada à frente de um bule de chá e de um pratinho
vazio. Fico contente por saber que gosta de acordar cedo. Pus as
mãos nos bolsos, sorri por detrás dos óculos escuros. Não posso,
comentei.
Não pode o quê? inquiriu Zhou Yun. Interiormente sorri, porque ninguém
domina as subtilezas inteiras de uma língua.
É uma forma de dizer abreviadamente que foi uma surpresa encontrá-la
aqui expliquei, não muito certo de ter sido convincente. Zhou Yun
afastou o prato como que a dar-me espaço, e dei comigo sentado à mesa da
jovem.
A que horas começa a trabalhar perguntou-me quando me sentei. Tudo
depende do que considera trabalho, retorqui. Acho que a maioria das
pessoas não gosta do que faz, por isso lhes chama trabalho. O que
pensa disso? Sentia-me confortável a conversar com Zhou Yin, tal como no
ditado chinês, yi hui sheng, er hui shu, à primeira estranhos, à
segunda conhecidos.
Zhou Yin ignorou a pergunta e pegando numa lindíssima caixa quadrada, em
cabedal lacado, abriu-a, revelando um tabuleiro e peças que percebi serem
de xadrez chinês.
Este jogo é o Xiangqi explicou com ar compenetrado. Chang
de elefante porque as pedras eram feitas de marfim e qi de xadrez,
estratégia, continuou. O lendário imperador Huang Ti tinha no seu
exército um destacamento de elefantes. O Xiangqi deriva de uma espécie de
gamão inventada pelos chineses há cerca de 3.500 anos, chamado Liubo.
Zhou Yun falava enquanto ia alinhando vagarosamente as peças no tabuleiro,
os olhos fixos no que fazia.
Durante a dinastia Zhou do Norte o imperador Wu Di resumiu e
desenvolveu este jogo num artigo chamado Xiang Jin. No terceiro ano de
Tian He, Wu Di chamou os seus ministros e demonstrou a sua versão do jogo.
Notei que entretanto, estranhamente, o vapor da cozinha inundara a sala,
velando a visão da sala, tão cerrada era a névoa. Pouco mais via do que a
mesa e Zhou Yun.
A versão que tenho já é mais moderna continuou. Todo o jogo se
resume a defender o general que é quem comanda as tropas, acrescentou
com a maior naturalidade. Esta peça é o general, esta é um carro de
guerra, esta traz o símbolo do canhão, aqui está o cavalo, este é o
guarda, aqui está o elefante e estes são soldados.
Enquanto admirava as peças, olhava a estranha bruma à volta, como um
imaterial biombo destinado a reter a areia da ampulheta.
Zhou Yun, terminada a explicação, colocou as mãos ambas entrelaçadas sob o
queixo, aguardando a minha reacção. Parecia não dar pela neblina, fixando
um olhar vagamente inquiridor sobre mim. |
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Curioso, como se
defenderá o general de um ataque? perguntei olhando o tabuleiro.
Está mesmo no centro.
O rosto da jovem sorriu, iluminando a bruma. Mas claro, e à frente tem
os soldados e canhões.
Por dentro senti que subitamente ficara triste, imensamente triste. Por
falar em homens que comandam, recorda-me um que morreu no tabuleiro.
Brincando com um dos elefantes do tabuleiro, a jovem retorquiu: o
Changqi é assim.
Levei tempo a responder. A tristeza sabia amargamente. A estratégia nem
sempre chega no tabuleiro da vida. Há generais que morrem por aquilo
porque lutaram sem nunca terem entrado numa guerra.
A jovem fitou-me intrigada: o que quer dizer? isso é uma parábola?
porquê a tristeza? As perguntas surgiam em catadupa.
É difícil explicar, retorqui. Há muito pouco tempo mataram um
homem que fala a minha língua. Mataram-no no tabuleiro, um homem generoso,
que queria apenas o bem dos outros.
De novo Zhou Yun me olhou inquisitivamente. Mas o Changqi não é senão
um jogo onde as peças que mais contam não estão no tabuleiro. É fora do
tabuleiro que se pensa como se ataca e defende. O tabuleiro é apenas o
palco.
Bebeu cerimoniosamente um gole de chá, fez uma pausa, tapando
cuidadosamente a chávena: Eu sei quem é esse grande homem. A história
do meu país, a história do seu, a de todos os países é feita de homens
abnegados. Mas a humanidade será sempre assim. É apenas a sua memória que
se homenageia. Por isso, no meu país houve tantos eremitas em Huang Shan.
Porque se diluíam nas cavernas ou nos templos.
Ergui-me lentamente, olhei as pedras e o tabuleiro. Falaremos um dia do
ser humano. Até breve Zhou Yun, acrescentei. Obrigado pela lição de
Changqi.
Mergulhei na bruma e, de cor, desci as longas escadas que davam para o dia
assente na rua borbulhante de vida. |