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Huang Shan Yun

Soalham os dias, sucessivos e monótonos, notificando esperadas notícias como se os homens soubessem do devir mais do que o criador do tempo.
Cumpre-se o ritual das férias, e os que partem fá-lo-ão esperançados que a ilusão de uma outra geografia mude os constrangimentos mais próprios dos remediados, que os ricos a quem o destino incutiu o hábito de terem de, ao dinheiro, acrescentar sempre mais, farão nas férias o mesmo labor do ano inteiro.
Foi num destes dias que escaldam a pele, que conheci Zhou Yun. Tinha-me resolvido a saír por meia hora e tomar ar, refrescar a alma, buscando quiçá a contemplação do nada deliciando-me na beleza dos verdes e recordando o tempo em que as cigarras cantavam e as podia ouvir. Hoje já não sei se há cigarras ou se sou eu que as não oiço.
O caramanchão quadrado e enorme protegia-me do sol, deixando ver, para lá da sombra, todos os fulgores dos verdes que filtravam a rua anexa. Ali havia uma paz que se inspirava misturada no ar, entremeada de um ligeiro odor a terra húmida, prometendo a continuação da natureza e recordando a origem e o destino dos homens.
Por um momento, uns quase silenciosos passos denunciados apenas pela areia que povoa os interstícios da relva fizeram-me mover o olhar para a minha esquerda. Uma chinesa de tez de porcelana, figura fina vestida com uma túnica clara em tons lilases, uma saia preta larga e quase longa e sapatos de pano, carregando uma caixa que a anunciava como música, surgiu no meu campo de visão. Trazia no rosto um sorriso simples que se me dirigia. Tudo foi ainda mais estranho quando se sentou no mesmo banco, a uma distância audível e me disse em português : boa tarde. Eu sou Zhou Yun, e por momentos ficou imóvel, o mesmo sorriso simples e genuíno escondendo a idade que não tinha, aguardando a minha estupefacta resposta. Boa tarde, respondi com um vago sorriso desajeitado, fala muito bem português.
Admirava-lhe o sorriso porque, além de sincero, espraiava-se sem esforço pelo areal dos minutos, como espuma transparente.
Pensei como é difícil para mim manter um sorriso longo, sem que os músculos se queixassem. Prefiro o fácies imóvel porque me é mais cómodo. Obrigada, respondeu cordialmente, tive vários professores que me ensinaram português. Também estive em Portugal... cada resposta era como um desafio, uma deixa para que eu continuasse, assim como alguém que quase sabe a banalidade que vai saír.
Levei tempo a saborear o português dela, um paladar indefinido que me levou a pensar no suave travo do chá. Ao longe Guan Yin contemplava dourada, a cena, talvez sorrindo da minha perplexidade.
Como que adivinhando a minha procura de tempo, acrescentou: o meu nome, Zhou Yun, significa Nuvem de Zhou. Conhece as dinastias chinesas? Retorqui com um Ah sim, sei. O sorriso persistia, simples, agora quase ostensivo e incómodo.
Fala muito bem repeti, é professora de português? Alguém em particular que seja conhecido, foi seu professor? Onde viveu em Portugal?
Zhou Yun poisou sem pressas a caixa do instrumento nos joelhos, as mãos suavemente espalmadas por cima...não, eu toco pi-pa. Às vezes toco em uma orquestra, mas gosto mais de tocar quando estou sozinha. As mãos tamborilavam na tampa da caixa, inaudíveis. Vivi em Lisboa e também vivi em Sesimbra. Gosto muito do mar. De onde eu venho, província de An Hui, o mar não existe.
As pausas que fazia obedeciam a compassos que eu desconhecia. Abriu a caixa suavemente e retirou o instrumento de cordas. Não, não acho que conheça nenhum dos professores que me ensinou a falar português. Devo-lhes muito, mas se eu mencionasse apenas alguns estava a ser injusta para os que me esquecia de mencionar. Era um português belíssimo, com um tempo dos verbos que se adequava ao calor que fazia, e a esse sabor especial que é ouvirmos a nossa língua em mais uma forma de ser falada.
Os dedos acariciavam as cordas do pi-pa. Percebi que apenas aguardava ser convidada, aquelas subtilezas que fazem da relação entre as pessoas um jogo sadio, quando a natureza dos motivos é sã.
Posso pedir-lhe para tocar? perguntei inocente. O seu rosto sorriu de novo, os olhos baixaram pudicos para o instrumento. Posicionou-o, olhou para mim e perguntou: conhece um provérbio chinês que diz yi shan hai you yi shan gao? Olhei para ela buscando no seu rosto a razão do provérbio (por mais alta que uma montanha seja, há sempre outra ainda mais alta) apelando à modéstia. Zhou Yun sorriu: é que a música que vou tocar chama-se Huang shan yun, as nuvens da montanha amarela.
Baixei a cabeça olhando o empedrado do chão enquanto os primeiros acordes se faziam ouvir, titubeantes, anunciando outros. À medida que os seus dedos desenhavam melodias, desenrolavam-se da pauta que tinha memorizado, acordes nostálgicos, reverentes, descrevendo paisagens inacessíveis onde a Natureza afirma o lugar do homem, minúsculo ponto num cenário onde o verde e a bruma nem a árvore deixam distinguir.
A melodia serpenteia pela cena como uma águia planando, cumprindo apenas a função que lhe está conferida na ordem das coisas, hierarquia invisível que, contudo, vai determinando a função da harmonia.
Pressenti com os sentidos todos que a verdadeira ordem é universal, é a trajectória simultânea de Saturno e dos seus anéis, em torno de todo um pequeno sistema que roda todo em torno de uma estrela que é parte de uma nebulosa de milhões que se move, toda ela, cada corpo celeste apenas um ponto da visão de Huang Shan, parábola do Universo pintada em acordes tocados na verdura sombreada de um caramanchão. Claro que yi shan hai you yi shan gao fazia sentido, não tanto por aquilo que dizia, mas por aquilo em que era omisso. Não é de uma montanha mais alta que o ditado alude, mas antes quão ilusória é a medida humana.
Levou algum tempo até que Zhou Yun interrompesse os meus pensamentos com um leve pigarrear, já a música tinha terminado, quando pressentiu que eles se fixavam mais no fumo do cigarro do que nas brumas serpenteantes da montanha amarela.
Olhei com dificuldade para Zhou Yun, o instrumento já guardado na caixa, as mãos no regaço, um sorriso alinhavado e indefinido aguardando o meu regresso.
Nunca estive em Huang Shan, mas foi como se tivesse estado, disse, rompendo o silêncio. Zhou Yun sorriu, fechando os olhos. Notei-lhe no sorriso a nostalgia da memória.
Quem compôs esta peça? adiantei ainda. Os olhos abriram-se fitando o infinito por detrás de mim. Alguém escutou a montanha, respondeu-me.
De súbito estendeu-me a mão que trazia ornada de uma pulseira de contas de madeira, algumas semi-corroídas, belíssima jóia que só o tempo pode esculpir. Apertei-lhe a mão, ela reteve-a por um momento enquanto perguntava: sabe jogar xadrez? Vou-me embora. Até à próxima.
E da mesma forma insólita como surgiu, se afastou, deixando atrás um sorriso enigmático, os passos sorvidos pelo feltro dos sapatos.

 

copyright © António Conceição Júnior 2003

   

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