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  N°2462 (Nova Série), Segunda-Feira, 21 de Maio de 2007
falar de nós
Saudade e homenagem, 50 anos depois

JORGE A. H. RANGEL*

“Trata-se de um livro todo feito de sinceridade, de afecto à sua terra, de carinho pelo seu povo, de ansioso ardor pelo seu progresso, de uma sentimentalidade bem difícil de igualar”

Afonso Correia, prefácio, 1ª edição de “Cheong Sam - a cabaia”, 1956

Completam-se, no dia 24 de Maio, 50 anos que, após prolongado sofrimento, faleceu em Hong Kong a escritora macaense Deolinda da Conceição, autora de “Cheong Sam - a cabaia”, cuja primeira edição foi lançada em Lisboa, em 1956, com a chancela da prestigiada Livraria Francisco Franco. A crítica literária portuguesa recebeu o livro com referências elogiosas, com especial destaque para João Gaspar Simões, que teceu considerações positivas sobre “a frescura e a graça dos seus contos, por vezes admiráveis”.

Deolinda do Carmo Salvado da Conceição nasceu em Macau em Julho de 1913, sendo a quarta de oito filhos de António Manuel Salvado, oriundo de Medelim, concelho de Idanha-a-Nova (Castelo Branco) e comerciante radicado em Macau, e de Áurea Angelina da Cunha Salvado, natural de Macau. Depois de concluir, com distinção, o ensino secundário no Liceu de Macau, partiu para Cantão onde se casou com Luís Gaspar Alves. Viveram em Xangai nos últimos anos de ouro daquela imensa metrópole, a “Paris do Oriente”, que atraía gente empreendedora de todo o mundo, apostada no seu progresso e responsável pelo seu cosmopolitismo e notável dinamismo.

Em 1937, já em fase de separação de seu marido, Deolinda da Conceição instalou-se em Hong Kong com os filhos José e Rui, fugindo da ocupação japonesa. Esta estendeu-se, entretanto, à colónia britânica em Dezembro de 1941 e durou até à rendição nipónica em 1945, dedicando-se Deolinda da Conceição, nesse período, ao ensino, como directora duma escola portuguesa e à tradução de notícias para o jornal “A Voz de Macau”.

Após a libertação de Hong Kong, Deolinda da Conceição regressou finalmente a Macau com os filhos, integrando a equipa do jornal “Notícias de Macau”, como secretária da direcção e colaboradora da redacção, ao mesmo tempo que leccionava Inglês e Estenografia na Escola Comercial Pedro Nolasco. Casou-se em Maio de 1948, em 2as. núpcias, com António Maria da Conceição, também colaborador e depois director daquele diário macaense, fundado em Agosto de 1947. A contribuição de ambos para o sucesso do jornal foi reconhecidamente relevante, sendo apreciadíssima a “Página Feminina” que Deolinda da Conceição coordenou e onde foi inserindo os seus contos, “narrativas feitas de experiência, carregadas de sentimentos íntimos e de íntimas dores e alegrias”, como bem referiu Amândio César num artigo publicado no “Diário Popular” em Junho de 1970.

Em 1951, com 37 anos de idade, a jornalista e escritora foi mãe pela terceira vez e, em 1956, viu realizado um sonho há muito acalentado, o de conhecer Portugal, para onde partiu com o filho mais novo, o laureado artista macaense António Conceição Júnior. Fizeram a viagem no paquete “Índia”, da Companhia Nacional de Navegação, e foi nesta permanência de seis meses em Lisboa que viu sair do prelo o seu único livro, reunindo 27 contos, na sua maioria já publicados no “Notícias de Macau”. “Cheong Sam - a cabaia” foi o título escolhido, o escritor Afonso Correia escreveu o prefácio e a capa foi desenhada pelo artista macaense Bernardino de Senna Fernandes.

A autora abriu o livro com uma dedicatória consagrando-o ao jornal onde trabalhara desde a sua fundação, bem assim ao seu fundador, Hermann Machado Monteiro, “um metropolitano macaísta, um desses Homens que se abstraem sempre da justa recompensa dos seus muitos gestos humanitários”, ao seu primeiro director, Cassiano da Fonseca, “tão cedo roubado à vida e aos amigos que o choram ainda”, e aos colegas e jornalistas com quem viveu “longos anos de trabalho e vigílias”. Quanto ao percurso do jornal, quis salientar a tarefa ingente da sua produção e “as lutas, as canseiras, as desilusões e as amarguras da vida dum jornal diário, numa terra pequena e de recursos limitados”, expressando votos pela continuidade da missão do jornal, caminhando “seguro e firme, na estrada da vida, servindo sempre Portugal e a minha querida Macau”.

Estava descoberta a nível nacional uma vocação literária, infelizmente interrompida por uma doença grave que levaria ao prematuro desaparecimento da autora em 1957, com apenas 43 anos de idade. Foi, como escreveu Amândo César, “uma obra curta, pelo curto viver da escritora, mas uma obra definitiva.”

Esgotada a edição, foi feita em Macau, em 1979, uma reedição facsimilada, divulgada em Lisboa por ocasião da “Quinzena de Macau”, levada a efeito nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian. No 30o. aniversário do passamento da escritora, em 1987, o Instituto Cultural de Macau publicou uma nova edição, com capa de Victor Hugo Marreiros, fazendo sair no ano seguinte a versão chinesa.

Constatámos que estas reedições estão também esgotadas, pelo que sugerimos que, em homenagem à saudosa escritora, se promova no corrente ano mais uma edição, com capa de António Conceição Júnior, a quem pertence este “pós de um prefácio”, inserido numa das reedições e redigida com ternura e admiração:

“Lisboa mil novecentos e cinquenta e seis. Rua Barros Queirós, Livraria Francisco Franco.

Do prelo sai um livro, CHEONG SAM - a cabaia.

Hong Kong, mil novecentos e cinquenta e sete.

Do Hospital sai um corpo. O da autora do livro.

Matematicamente este livro tem 23 anos de existência, mas apenas matematicamente. A verdadeira existência desta obra, essa, perde-se no pó que o tempo acumula nos caminhos, perde-se na própria realidade que é-foi Macau. Perde-se finalmente - por fim o descanso - num ataúde. Mas nem tudo se foi. Restam as memórias que reeditam este livro e que te reabilitam merecidamente, Deolinda minha mãe.

É tarde para prefaciá-lo, mas não para ressuscitá-lo.

Um livro de contos. Como se fossem contos as dores que sentiste e que  desfilaram por ti.

Deolinda da Conceição, orgulho-me de ser teu filho, mulher sem cursos, porém tão rica, tão imensa de recursos. A sensibilidade, o escape que a escrita é. Viver ou escrever. Não será afinal um recurso a sensibilidade temperada e refinada pelos tropeções, pelas cotoveladas do caminho-vida?

Macau transformou-se, tu não assististe. O teu automóvel tinha apenas o número 400.

Na rua onde morámos havia cigarras que cantavam no calor. Hoje não há. Nem sequer choram. Já não existem.

Na rua onde morámos as casas eram calmas, brancas e havia vendilhões. Decerto que lhes compraste coisas. Hoje não há casas.

O velho casarão da Calçada do Tronco Velho que alojava o Notícias de Macau ameaça ruína. Já no teu tempo o sobrado devia ranger. Porém, tu, Luís Gomes, Cassiano da Fonseca, Hermann Monteiro, Rosa Duque, Patrício Guterres, meu Pai, o velho tipógrafo Jacob, defrontavam o ranger diário para continuar, quotidianamente, nocturnamente, em máquinas anacrónicas, a aventura de um diário. Hoje as tábuas já não rangem. Usa-se betão armado.

Renasces agora para os teus conterrâneos que não te conhecem. Aqueles que te conheceram têm no peito uma gaveta. E reler-te-ão de novo. Os primeiros, estarão perdidos definitivamente?

Crê, acredita, aposta. A montanha mover-se-á.

Mas quem te ler terá de ser humilde, pequeno, despojado. Se o fôr, então ter-te-á lido. Entender-te-á. Não podes ser lida apenas esteticamente. Os teus contos-vida merecem uma leitura de guerra, de frio e de angústia.

Uma última coisa. Gosto do teu livro.”

— // —

Vale mesmo a pena reler estes 27 contos. Se os esforços se conjugarem positivamente, será  possível reeditar a obra por ocasião do Encontro das Comunidades Macaenses, em Novembro/Dezembro do corrente ano. Deolinda da Conceição merece-o e será uma justa e oportuna homenagem neste 50o. aniversário do seu falecimento.

N.B. - Agradecemos ao Amigo António Conceição Júnior os elementos facultados, preciosos para a preparação deste artigo.

*Presidente do Instituto Internacional de Macau.
Escreve neste espaço às 2as. feiras
 


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