1a. Edição 1982
2a. Edição 1990
 

   

   

     

Enquadrar, isolar enquadrando, eis o que de mais significativo se observa na série fotográfica de António Conceição Júnior, série de notável qualidade plástica que constitui um percurso poético e não um levantamento mais ou menos sistemático de janelas e portas de Macau.
Uma certa neutralização semântica se produz ao enquadrarem-se situações bem diferenciadas; não se capta um sentido evidente de teor documental ou antropológico, observa-se um despreocupado percurso pelos objectos. É a pura visualidade que vai apresentando ritmos, texturas, caracteres, buscando primeiramente um bom funcionamento plástico. Não está em causa o registar da realidade porque não é patente a vontade de muito explicitar um sentido, mas a verdade é que qualquer olhar sensível, mesmo que não motivado pela questão da interculturalidade pode registar como se complementam por exemplo,técnicas de construção e formas arquitecturais de um lugar único no mundo - Macau - onde o Oriente e o Ocidente deslizaram um pelo outro, ora cruzando-se, ora ignorando-se, mas mutuamente lançando elos e apresentando harmonias plásticas universais, que se assemelham estejam em que contexto estiverem.
Situações "artísticas" mas também humanas, que a distância de um enquadramento desfoca, produzindo-se formas disciplinadoras das diversas realidades, entre as quais, obviamente o quadrado.
Curiosamente, o quadrado que na estética ocidental é uma forma definidora do poder da ratio, surge na estética chinesa como forma espantosamente funcional e quiçá por isso mesmo,mais misteriosa na sua quase excessiva apresentação e desocultação, à nossa leitura ávida de significações a que o sentido chinês tanto escapa.
Conduzida por uma atenção distraída, que procura sobretudo, e à posterior trabalhar o valor plástico da fotografia, uma coerência que se estabelece na sistemática ocultação da totalidade significante que nos permite adivinhar uma cidade onde a pobreza e a esqualidez convivem com os vestígios de um passado quase opulento, sem que fiquemos a saber bem de que grades se trata quando apresentados detalhes de janelas, de que redes a guardá-las. Grades e redes e o olhar demorado sobre texturas e paredes pictóricas, manchas vivas de vermelho chinês, sobressaindo em formas sempre ortogonais.
Enquadramentos em que o bom gosto e o prazer de trabalhar uma boa fotografia se sobrepõem à necessidade de engendrar um discurso veículador de um sentido explícito, residindo a sua particularidade nesse mistério sugerido.

Sílvia T. Chicó
In Introdução ao álbum fotográfico ENQUADRAMENTOS

 

 
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   © António Conceição Júnior 1998