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Enquadrar,
isolar enquadrando, eis o que de mais significativo se observa
na série fotográfica de António Conceição Júnior, série de
notável qualidade plástica que constitui um percurso poético e
não um levantamento mais ou menos sistemático de janelas e
portas de Macau.
Uma certa neutralização semântica se produz ao enquadrarem-se
situações bem diferenciadas; não se capta um sentido evidente
de teor documental ou antropológico, observa-se um
despreocupado percurso pelos objectos. É a pura visualidade
que vai apresentando ritmos, texturas, caracteres, buscando
primeiramente um bom funcionamento plástico. Não está em causa
o registar da realidade porque não é patente a vontade de
muito explicitar um sentido, mas a verdade é que qualquer
olhar sensível, mesmo que não motivado pela questão da
interculturalidade pode registar como se complementam por
exemplo,técnicas de construção e formas arquitecturais de um
lugar único no mundo - Macau - onde o Oriente e o Ocidente
deslizaram um pelo outro, ora cruzando-se, ora ignorando-se,
mas mutuamente lançando elos e apresentando harmonias
plásticas universais, que se assemelham estejam em que
contexto estiverem.
Situações "artísticas" mas também humanas, que a distância de
um enquadramento desfoca, produzindo-se formas disciplinadoras
das diversas realidades, entre as quais, obviamente o
quadrado.
Curiosamente, o quadrado que na estética ocidental é uma forma
definidora do poder da ratio, surge na estética chinesa como
forma espantosamente funcional e quiçá por isso mesmo,mais
misteriosa na sua quase excessiva apresentação e desocultação,
à nossa leitura ávida de significações a que o sentido chinês
tanto escapa.
Conduzida por uma atenção distraída, que procura
sobretudo, e à posterior trabalhar o valor plástico da
fotografia, uma coerência que se estabelece na sistemática
ocultação da totalidade significante que nos permite adivinhar
uma cidade onde a pobreza e a esqualidez convivem com os
vestígios de um passado quase opulento, sem que fiquemos a
saber bem de que grades se trata quando apresentados detalhes
de janelas, de que redes a guardá-las. Grades e redes e o
olhar demorado sobre texturas e paredes pictóricas, manchas
vivas de vermelho chinês, sobressaindo em formas sempre
ortogonais.
Enquadramentos em que o bom gosto e o prazer de trabalhar uma
boa fotografia se sobrepõem à necessidade de engendrar um
discurso veículador de um sentido explícito, residindo a sua
particularidade nesse mistério sugerido.
Sílvia T. Chicó
In Introdução ao álbum fotográfico ENQUADRAMENTOS |