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NAS COMISSURAS DO TEMPO
Entre o tempo que hesita em se pôr frio e o sol que se vai, pondo-se em
raios de fénix apavorada, paira por aqui uma como que aragem congelante
das horas, dos minutos e dos sentidos, espécie de absinto bebido no
feérico mundo que antecede o do silêncio, quando as horas já não são e o
dia ainda assim se não chama.
Não se mede esse hiato em horas, minutos ou segundos, não tem métrica
marcada, é antes doença ou convalescença, tempo coado onde, por uma
meia-mão se espera que tudo se abata, só o erguido cai, o rastejante
arrasta, e o mundo divide-se também no punhado de fantasmas que a hora
deles se vai chegando à medida que se fina um tempo para a outro dar
lugar.
Nesse hiato que disse, a cidade doura-se de sol e fénix, e as gentes
preparam-se para conviver com o reverso delas, tudo insonoro, como mudez
musicada, como no tempo da última guerra. Escurecia e dançava-se, era
assim a fuga, cantata, cantabile, um copo em corropio do copo ao corpo e
deste a outro e ambos rodando, tudo vogando, ninguém tinha pés, apenas
fumo rasando o sonho que descontínuo permeava os fantasmas. Como eram
jovens e felizes, não tinham passado a recta da meta nem a sabiam, riam
apenas do tempo em que este não contava nem escoava e o riso era só riso,
não esgar ou trejeito de olhar suspeito, perdida a razão de uma ordem,
outra se apronta e abastece, e prepara novos fantasmas de reencontros para
que sobre esses corpos ainda por unir se expie a culpa de tantos
sortilégios que se foram, e uma vez mais conduzidos, não condutores,
mandados não mandadores, desembarcando da hipótese de cinco quadrantes, já
memórias empalidecidas de folclore, vem quem dança ao lugar onde começou,
e recomeça fingindo que é verdade que a verdade era assim, como se aqueles
dias pudessem ser estes, e neste faz-de-conta mergulham o resto dos
sentidos e façamos todos de conta.
Fazer de conta é não contar nem ir dizer, é virar a face e suspirar, olhar
a moeda abrasada em que o sol ficou e preparar o mergulho nas sombras e
esquecer que nos lembramos do tempo em que o mundo nem era nosso nem de
ninguém, apenas não existia, e nos contentávamos com o que ao olhar se
ostentava, não me lembro se era pouco se bastante, terá talvez sabido a
pouco, apoucado que hoje é tanto e já não há.
Tocou estranha uma música, era estranha sempre que mudava, depois era o
hábito do repetido e conformado, exaustão de ouvidos, e por vezes a marcha
continuava e mesmo insólita e sem gosto se repetia, maldosa de tanto
gostar de se ouvir, tínhamos de nos pôr a falar o que era pecado, sombra
inventada para fustigar de medo o medo que se criava e se pressentia.
Diziam que medo substituía bem o prazer, eu ficaria na origem em vez da
dobragem, de dobras já chegavam as da roupa e que por esse tempo eram
miragem, que desse tempo não sou, nem daquele.
Sou do meu que acontece, como a sombra arrancada, fixa, perdida na
contemplação do ocaso de um tempo perpetuado no som dos passos em sobrado
rangente, inexistente, apenas rangendo a memória daqueles sapatos pretos e
brancos que eu fixei, ainda me não serviam, e hoje perdidos estão, como
tanto se perdeu por não se ter usado. A mim os sapatos não serviam,
àqueles não sabiam de sapatos, e entre o achado e o perdido fez-se das
achas uma fogueira e do perdido um incêndio que ainda lavrará quando a
noite se cansar de se repetir, tal o olvido e tanta a ignorância espraiada
na distância de onde nunca devia ter saído.
Há apenas um colar de luzes no horizonte, fez-se noite finalmente. E deste
cansaço de esperar a alvorada, reina a esperança ainda, que nasça numa
manhã um dia em que reinem a sensatez e o saber, para que de entre os dias
ocorra um que à memória se junte, e em memória fique. |