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O QUE DIZ O DELTA
Na teia em que se vai tecendo este final de Império, pequeno tapete feito
de somas de muitas tecituras, quase todas diferentes como a traçar o
sinuoso delta do rio das pérolas, alimento alucinogénico, excitante,
embriagante ou adormecedor, vai perpassando a história de muitas estórias
que nenhum contador das mesmas desdenharia colher e recitar perante
audiências talvez hipnotizadas, talvez incrédulas, tal como a Fernão
Mendes lhe chamaram Minto.
Sina, sino, sinal, destino, como quer que a palavra possa reinventar-se,
fica a mesma aquém das narrativas, como que a dizer que está já
imprestável, outra forma lhe venha tomar o lugar de narração, que aquela
sucumbiu. Está porém por inventar, para além do sussurro de uma boca para
um ouvido, tenha este orelhas ou não, a história plena deste delta único,
braços de água lodosa envolvendo novelos de terra qual deles trazendo mais
contas de rosário, se braços se novelos, vá-se lá saber como nunca se
saberá. Ou o saber terá isso mesmo, a sabedoria de se tornar incógnito no
encolher de ombros de um momento, lançando assim, para a eternidade dos
silêncios carregados que pairam sobre céus plúmbeos, mascarados de nuvens
e sol a lembrar o Abril em Portugal, como se, subitamente, algum Moisés
apartasse as águas com um cajado e nos levasse a todos para a terra
prometida.
Prometer foi promessa de Prometeu, e quem disse que a terra prometida era
destino e não apenas lugar, onde tudo permanece intacto, refúgio sem
casulo cabendo, no aconchego de uma mão, todas as dores e lágrimas feitas
dos sentidos todos, que Deus e a sua natureza deu para se ser homem, além
de Adão do Eden, da quietude daquilo que se sabe imutável.
Nascença e morte finam distâncias, fraternidades esquecidas há muito, tu
diferente de mim mas tão só e apenas igual, além de que o primeiro dia já
foi e o segundo já está no meio-do-dia. De que valem importâncias ou
riquezas, se não há caminho para andar senão o trilho amplo ou sinuoso das
consciências, se estas ainda se não evaporaram em novelos de fumo
mascaradas de nuvens tomadas por Juno que por aqui não passa, que os
deuses são outros, antepassados ainda de outros, fénix de fénix, falando
dialectos desconhecidos, presidindo aos destinos de todos, mas mais ainda
dos que não vêm, apenas olham, desgraçadamente, o instante obsoleto.
De uma qualquer janela paira a junção do delta ao mar. Um contando ao
outro, num marulhar surdo, contos de ternura ou arrepio, lendas de
vaidades e verdades, transgressões à lingua dos homens que apenas banham o
corpo, desconhecendo paraísos de linguagens outras deste delta aflorado,
beijando o princípio do mar onde navios fantasmas continuam a vogar.
Pátria e Mátria contemplando, silenciosos que ninguém os quer ouvir já
sabem, mas continuam por perto porque nem todo o mundo se compõe de
mudança, nem ninguém é herói de mar nenhum, apenas navegante. Finados
fantasmas são os heróis doutrora, que é mais difícil viver pela Pátria do
que morrer por ela, morrer qualquer um morre, todos até. Só o jogo mal
jogado logo se descobre antes quase de ser jogo, ilusão de omnipotência, e
vem uma onda e lá vai tudo, proa e popa, custa mais ser homem que anão.
O silêncio dos homens é mero jogo de ilusões. Quanto não diz o silêncio,
mais do que a fala que é gaga ou com pedras na boca, repetida vezes sem
conta, ensurdecendo o surdo que apenas ouve do interior e lê a palavra de
cada onda, no interminável vai-vém das marés de todos os mares.
Não pode deixar de haver mágoa no embaraço de ver ilusões. Desiludido é
quem tem ilusão. Homem não apenas criança diz o que pensa, crueza é mentir
com os dentes todos de todas as bocas, do sorriso ao esgar. Disseram que o
choro era o sabão da alma e há por aí um cheiro daqueles. Mas vá alguém
dizê-lo! Não vai, que importa, se é cheiro igual quase a cadáver.
Todos os sentidos chamados para se lavarem na água da voz do Paraíso. Que
será dos outros salgueiros com Teresa de voz assim, e o nome MADREDEUS,
sopro de cordas convocando, tranquilo, a lenda da Mater Dei também escrita
sem palavras senão aquelas, saiba ler o resto quem souber. O que importa é
ler para lá da fachada, nave catrineta com muitas estórias pra contar.
Que ninguém se leve a sério que séria é apenas a morte pacificante enfim.
Arre acabaram as dores todas e o pássaro caiu no Paraíso. Lindo poema a
dar o mote, que viver é consumar a existência em coisas de sonho feitas e
o resto é conversa de rodeios e não há paciência.
Mas com voz assim que canta ainda na água, dobra-se a natureza a Teresa,
nome antigo e santo, dobram-se salgueiros e chorões. Não dobram a finados,
dobram-se à vida desta vez, talvez só desta, que vergar troncos de árvore
sempre foi milagre. Dobrar troncos de homem tem outro nome, mas não digo
que não é preciso.
Bimbos e Samurai sem ésse, que Samurai é plural do singular, não me matam
porque sou eu dono orgulhoso da minha vida. Morro por mim, antes morrer
que vergar, que viver assado ou assim mais vale a morte orgulhosa. Não me
inflingem dôr que eu já não tenha, por isso é minha a dôr e apenas
conseguem afagá-la, que não tocam à dôr mais que um afago. Porque dói
saber da Guiné e de CasaMansa e de Timor, dói saber da dôr. Não sendo
Buda, Boddisathva nem Boddidharmma, sou cidadão e pessoa, a quem dói que
doa. Venha a Senhora das Dores e ela nos não livre do cálice não afastado,
lição de dois mil anos e afinal só vejo pegas de cernelha que pegar como
se deve é preciso ser homem. O resto é espectáculo e espectadores.
Também de ironias, feitorias malfeitorias e traições traz notícias um
braço do Delta, na crista da mansa onda adivinhada, antes de ser onda e
notícia que tudo tem um cheiro, do vivo ao morto e a tudo o que anuncia,
de um ponto ao outro. Basta ter nariz e ouvidos. Ou então, todos os
sentidos. |