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AS MARGENS DO CENTRO
O LIVRO DA ÁGUA
O espírito da escola de estratégia de Ni Ten – Ryu é baseado na água, e
este Livro da Água explica os métodos de vitória da Daito no Ichi
(primeiro movimento). A linguagem não se estende para explicar a Via em
detalhe, mas pode ser absorvida intuitivamente. Estudem este livro, leiam
uma palavra e sobre ela ponderem. Se interpretarem o significado de uma
forma incorrecta enganar-se-ão na Via. (…)
Miyamoto Musashi
Séc. XVII – Período Tokugawa
GO RIN NO SHO
A mais valia de um povo não reside nem no oficial nem no oficioso, porque
geometricamente falando, é o círculo que determina a existência do seu
centro e não propriamente o contrário. Ainda que o centro teime em ser a
origem do círculo, teima antiga e permanentemente equidistante, rodando
sobre si própria desde a invenção da roda, num permanente e rotativo
conflito com a margem.
Diz porém o Tao te Qing que trinta raios convergem para o centro da
roda, mas é do vazio do seu centro que depende o seu uso. Verdade
pouco apetecível ou mesmo inconveniente a ocidente, onde a razão tomou
outros rumos, já o Tao te Qing era antigo e venerado. Não será fácil
explicar este sentido do vazio, comum ao taoísmo e ao budismo, como o
estado despojado, que apetece chamar de sintonia total com o Universo, ele
também enorme vazio em permanente movimento.
Afasta-se o homem do todo universal quando se insere no contexto da
corrida humana, da ambição pela ilusão das aparências, sempre
contraditórias, procurando sofregamente um lugar ao sol, sem ter de olhar,
a esse outro círculo, invisível de tanta visibilidade incandescente,
incapaz de perceber a virtude do vazio e das margens.
Daí a equidistância impermanente entre centro e círculo, entre centro e
cada ponto da circunferência tornada elíptica, local de fronteira, margem
de trânsito entre verdades diversas, sempre ilusórias porque, integrado na
ilusão, o homem não se vê nem se verá jamais senão por interposto espelho,
reflexo simétrico de si mesmo, mais uma vez inversa a imagem.
Deste verso e reverso se retirarão sempre reflexões várias, concêntricas
de centros diversos, pelo menos de dois. Um que se vai, outro que chega na
inexorabilidade do tempo e das coisas já dispostas, outras tantas por
discutir, centro a centro, sem margens. Nestas, apenas a rígida distância
de um raio obsessivamente igual, apenas raio e não infelizmente ponte.
É contudo nas margens que as trocas se operam, que o primado da inovação e
do primo poder de saberes vários se formula no perímetro da circunferência
marginal.
De toda esta geometrizada reflexão ressalta a percepção de que sem pontes,
isolados ficam os centros, perfurados pelo aço do compasso, cada círculo
uma cidade, a que se tem, a que se deseja, a que virá.
Daí que se retome agora e sempre a questão da Cidade, espaço físico e
espiritual onde tudo se joga, entre o o claro e o escuro, na luz e na
penumbra, estratos de vidas diversas, ideologia a haver.
Círculo ou quadratura, a cidade é espaço vivo, onde o diálogo da
afabilidade tem de ter lugar, porque um legado é um império de afectos, um
reino de sentidos tonificados por um outro, supremo, de identidade e
pertença. Nenhum governo, nenhum país, ninguém deve alterar o curso
histórico duma Cidade, em nome de quaisquer valores outros que não os da
própria Polis. Nenhuma Pátria se enriquece mais do que no estímulo da sua
diversidade cultural, urbana, mesmo civilizacional, sobretudo num momento
em que a conjugação dos mundos ocidental e oriental emerge como forte
discurso do futuro. Porque além disso, a história não se nega, e se o que
está feito é uma verdade, o haver não pode de todo significar rotura, nem
assim está consagrado, nem o bom senso o recomenda.
Não existe nenhuma razão mais forte que a Guerra do Ópio, de que não
participámos, que justifique uma outra qualquer vontade que não a
acordada, emergente de um desejo surdo de erradicação de uma história de
450 anos, onde o Extremo do Ocidente viveu paredes meias com o Extremo do
Oriente. A política, com todas as suas habilidades, tem de entender
minimamente a história.
Cada vez mais se configura como primado ideológico por excelência, a
linguagem cultural, alternativa a qualquer outra de raíz política. Cada
vez mais é necessário que os homens se mantenham iguais nas suas crenças e
nos seus afectos, porque se a política tem inflexões, as suas origens
pressentem-se na cortina que translucidamente as oculta.
Nesta cidade de milhentas histórias que o rio traz, contemplam-se as
inflexões dos homens que de uma teta beberam para a outra se virarem,
acotovelando-se em atropelo, cada qual procurando mudar depressa a
fatiota, que de meros interesses se trata que não de outros nomes em vão
invocados.
Numa sociedade com uma história bem mais antiga que a maior potência
mundial do momento, não se pode permitir que ao homem e ao cidadão lhe
seja dado o medo, porque uma sociedade não pode viver senão da relação
plena, sem fugas. Sobretudo se o sinal de alarme é dado por quem se sentou
a uma mesa, e agora a duas se senta, súbita ubiquidade incontornavelmente
intolerante. Os homens conhecem-se quando a verdade da hora se aproxima.
Há séculos que assim é.
Para mais, uma cidade como Macau não é, definitivamente, uma fugacidade.
Nenhuma cidade existe ou subsiste sem Memória, tanto quanto nenhum homem é
adulto sem ter sido criança.
Pensar transformar a Memória viva, multisecular, de convivência e
intervivência numa periferia de uma outra qualquer cidade destituída de
tempo, é inverter necessariamente as fontes de irradiação de Memória e de
saberes, tanto quanto o não entendimento de que as virtualidades da
hibridez cultural de Macau constituem, por excelência, a negação da
diferença enriquecedora. Se ao longo de mais de quatro séculos se
cometeram erros, não é na repetição simétrica dos mesmos que se redime
coisa alguma. Até porque, sobre os verdadeiros patriotas, dizia um velho
amigo sábio, que era mais difícil viver pela Pátria do que morrer por ela.
Razão pela qual se reforça a necessidade de uma ideologia cultural e ética
onde a palavra não seja um mero eufemismo, mas um empenho da honra.
Assim, quando se aproxima a hora de um círculo dar lugar a outro ocorre
perguntar. Será que, de desentendimentos, estamos entendidos? |