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CULTURA E LENDA
As sociedades, em todas as suas formas e escalas, vivem de lendas, de
heróis e mitos. Porque constituem referências paradigmáticas da sua
própria ancestralidade.
Contudo importa no presente texto ressalvar o conceito de lenda. Não tem
este vocábulo, aqui, senão valor simbólico associado à noção de lenda
enquanto memória real valorizada. Lenda enquanto consubstanciação de actos
de valor histórico que atingiram já um patamar da iconografia da cultura e
história de um povo. Feita a ressalva, continuemos.
Assim, Camões e Fernando Pessoa, apenas para citar dois exemplos
nacionais, estão ao mesmo nível de Vasco da Gama ou de Pedro Álvares
Cabral. Se os dois primeiros exemplos são de cultura, os dois
descobridores são legendários, directamente ligados a uma vontade
proveniente de outra lenda que nos tem nutrido, a ponto de sobre ela se
ter criado uma Comissão dos Descobrimentos. Falo obviamente da lenda de
Sagres.
Reflicto consequentemente sobre a Ínclita Geração, em D. João I, e em Nun'
Álvares Pereira, outra lenda que nos remete à preservação da
independência.
Diria, continuando, que a razão única que permitiu ao visionário (leia-se
homem de visão) recluso de Sagres convocar homens de saber e iniciar a
vocação marítima portuguesa, foi ser filho de rei, foi ter poder. Foi
poder - sendo quem foi - concretizar o aparelhamento de navios e
tripulações. O que nos faz extraír da lenda a constatação de que, fosse o
Infante mero povo, e seria apelidado de louco ou de megalómano.
Contudo, essa megalomania, ainda que mal explorada e gerida pelas gerações
subsequentes, é a matriz dos Lusíadas. Donde se conclui que a Humanidade
pouco mudou relativamente ao poder do Poder e aos que visionam. Hoje,
muitas das razões que invocamos para nossa valorização, resultam dessa
ideia megalómana.
Curiosa e paradoxalmente celebramos a megalomania (na visão de todos os
velhos do Restelo) transformada em feito, ainda que, por vezes, a visão
seja, mesmo hoje, sobranceiramente apodada de megalomania, denotando
incapacidade para interpretar o devir.
Por outras palavras, têm os poderes a vocação de considerar respeitáveis e
legítimas todas as suas ideias, por muito megalómanas que sejam. A isso
chamam Obra. Ao cidadão comum que ouse visionar, é-lhe atribuído esse
epíteto.
Seria antes útil e benéfico que as ideias, as vontades e as visões fossem
amplamente debatidas pelo colectivo, pela entidade viva que é a Cidade. É que, da discriminação da consulta, do exercício solitário da
vontade, decorre a assumpção, tão só, do risco e consequência, já que no
mundo de hoje, qualquer empreendimento é sujeito, previamente, a estudos
de viabilidade, e sofre ajustamentos decorrentes dos mesmos, ao contrário
do que se fazia em Sagres, onde apenas o ouvir dizer, as narrativas, eram
alimento suficiente para a decisão. Contudo, sempre havia a desculpa
feudal, que entretanto, quero crer, há muito terminou.
Paulo Coelho fala metaforicamente sobre a lenda pessoal. Isto é, o
cumprimento dos nossos mais nobres ideais e desejos, aliados à descoberta
de nós mesmos. É algo de absolutamente privado, partilhado apenas com os
interlocutores do caminho, todos mestres, porque é indispensável
reconhecermos o quanto podemos aprender com os outros. Não há saberes
absolutos, apenas evolução constante, feita da permuta com o Outro, nosso
vizinho, nosso amigo, nosso conhecido, nosso opositor. Como cidadãos,
temos o dever de reconhecer a importância da Educação plena em livre e
fraterna Cidadania, para acedermos ao entendimento da expressão cultural
pura, tão simples, tão acessível, a que apenas a preocupação da
intelectualização ou, radicalmente, da popularização, tornam redutora.
CULTURA E CIDADANIA
As Cidades são em si, por natureza, lugares de cultura. É a partir desta
premissa que as cidades se caracterizam, ganham identidade e se
desenvolvem. Sem equívocos.
Tive oportunidade de assistir há tempos a uma transmissão televisiva
directa de Macau, de um programa que começou, como se adivinhava, com a
dança do leão.
Confesso que não tenho pessoalmente nenhuma animosidade para com a dança
do leão, ou do dragão. Mas sempre entendi que tudo se deveria passar no
local próprio. Sendo esta uma dança de rua, e não de restaurante ou
estúdio, teria feito mais sentido que a mesma tivesse sido filmada em
local próprio, recuperada de registos autênticos. O que, na minha condição
de cidadão de uma urbe multicultural, me incomoda de sobremaneira. Porque
se agarra tudo pela rama e o sabor com que se fica disso tudo é de um
bacalhau com molho doce, a saber a folclore de terceira.
Saudades que eu tenho de Pedro Homem de Mello…
Não cabe de facto a quem não sabe, interpretar as culturas de Macau. O
problema é que quem ignora, nem sabe que não sabe.
Sendo a cultura uma dinâmica em permanente evolução e desenvolvimento, ela
constitui um conjunto de autorias de modernidade que se vão acumulando,
como contribuições, no património cultural do lugar onde acontece. Assim,
há também que distinguir cultura de instituição cultural. Se a primeira é
irrequieta, criativa por inerência, à segunda compete interpretar os
sinais daquela, constituíndo-se em seu suporte dinâmico e
desburocratizado, situando-se quer na vanguarda, quer como guardiã e
depositária das memórias comuns, porquanto ao assumir-se como instituição
de vocação cultural, tem por objectivo operar a intermediação entre
autores, património e público.
Por outro lado, numa perspectiva educadora, a dinâmica cultural terá uma
vertente formativa e outra lúdica, ambas, se possível, desejavelmente
despidas dos formalismos que, não tendo presidido à feitura da obra
pictórica, escultórica, fotográfica, gráfica, escrita, musical ou outras,
não encontra justificação para o cerimonial.
A cultura deve ser levada a sério. Quanto baste. |