O corpo, primeiro o corpo, depois o risco, o risco assumido em todos os sentidos, o corpo protagonista do risco, alguma ideia de arte, e a felicidade do homem como um princípio e como um fim, pode ser o esboço de uma definição de moda, marginal aos conceitos dos dicionários e enciclopédias académicas.

António Conceição Júnior percorre este curso sinuoso e aliciante, em imagens de oriente, a perseguição impiedosa do culto da personalidade individual inserida no todo colectivo, a afirmação do direito à diferença, possivelmente aberta à conjugação do fluxo da manifestação pessoal e a raíz de um estatuto social.

Criação, locais, tempos, latitudes, estações, geografias, olhares, ideologias, pátrias, desigualdades, sugerem a moda.

António Conceição Júnior acrescenta Oriente, e gostos e contrastes de gestos, tradições e transgressões, estados de alma e cores rurais, luzes urbanas e matizes de espírito, pinceladas de artesão e teclado informático, ruas e interiores, solidão e solidariedade, condição e síntese.

Pedro Tamen escreveu, um poema muito belo dedicado a António Conceição Júnior:

... Secura enfeitiçada perto, e onde / em nada adoça o sumo acaso do real, que, dando-se, mostrada mais esconde / todo o bem, todo o mal, .../

Na tentativa de exaltação do corpo humano, na sua forma de afirmação no tecido social ­ nas suas grandezas e nas suas loucuras ­ a moda é uma expressão ímpar de cultura.

António Conceição Júnior é o criador de moda proposto neste contexto, por aqui e por ali, as suas próprias palavras: reporto-me às memórias e à tradição do modo de envolver o corpo com um outro, feito de sedas, de mousselines, de brocados.

Reporta-se, naturalmente, à sua vivência na Rota do Oriente, vivência e memória e rota actuante nas suas criações, como ele próprio confirma: traz-me cheiros e histórias de especiarias, de povos errantes envoltos nas poeiras dos caminhos da seda, desde os mosaicos de Sta. Sofia, passando pelas ablações do Ganges, pela memória Chinesa, até aos palcos do Nô e do Kabuki, cada etapa feita de história.

A cultura misteriosa de António Conceição Júnior imprime às suas colecções, a preocupação permanente, porventura obcecada do ancestral, do culto da solenidade ritualista, que é verbo e é frase daquilo que ele próprio chaa uma alternativa estética a propôr no país, onde, há muito tempo, Macau começou.

Eis o projecto, consubstanciado na forma e nas cores de um pedaço vivencial de vestir o corpo de Oriente, de vestir o corpo de Macau feito, e tão feito de Macau.

Vítor Nobre
Director
Gabinete Português de Moda