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A SINGULARIDADE MACAENSE
EM ANTÓNIO CONCEIÇÃO JÚNIOR
O fluir dos séculos pouco esclarecimento tem proporcionado a este
fenómeno.
Com efeito, a singularidade macaense inscreve-se melhor no catálogo
dos mistérios do que no das categorias racionais. Por esse motivo, ela
foge aos limites estritos da previsão humana, escapa à inventiva do
córtex cerebral e à sistemática das suas representações.
Desígnio da Criação? Mero capricho do destino? Acaso da História? Ou
simples combinatória de mundos? Ninguém o sabe, verdadeiramente.
Todas as nações têm a sua narrativa. Umas mais densas, outras mais
extensas.
A nação macaense mistura caminhos, baralha histórias, desconcerta
trajectórias. Em boa verdade, ela estabelece um enigma: ela é uma
excepcionalidade no espaço e no tempo, é um daqueles exemplares raros
que decorrem de um desvio da história, resultam de um acidente,
matematicamente improvável, ocorrido na química dos povos.
Esta singularidade é nómada.
A condição macaense está ferida de errância no mundo… e no próprio
território-berço que a gerou. Ela nasceu migrante há quase cinco
séculos, afectada por uma atávica pulverização, saudosa de raízes que
transporta mas raramente implanta. Uma espécie de colectivo individual
que dilacera o sentido de comunidade sem a destroçar.
Neste destino de entreposto, a vivência macaense está sempre por
cumprir, como se de fadário inatingível e trágico se tratasse.
No seu sortilégio, a condição macaense no mundo joga-se contra um
horizonte de contingência: tudo se cria, tudo se perde. Como um
perpétuo jogo de azar. O desprezo pela quantidade e a ausência de
medição são constitutivos: quantos são? que produzem? quanto valem?
Pouco importa. A métrica pauta-se por parâmetros imateriais e pouco
discerníveis para mentes ocidentais.
A "tecnologia" macaense reside, então, na sua enorme criatividade.
Partindo de uma interpretação própria do mundo, que combina fètiches e
teoremas, taoísmo e cristianismo, mistério e razão, a presença
macaense é feita de artefactos que simbolizam uma forma peculiar de
interpretar o universo do Yin e do Yang.
Os macaenses são a expressão corpórea dessa singularidade.
Nesse corpus de nação – as pessoas concretas – realiza-se o activo
mais palpável de um legado consuetudinário, formula-se um credo de
continuidade.
Falar de Macau contemporâneo, de macaenses talentosos, de criatividade
intercultural, é falar de António Conceição Jr.
Uma terra é grande quando sabe celebrar os seus maiores, admirar os
que se distinguem em cada geração, identificar aqueles que pairam
acima da lei da mediocridade. A grandeza de Macau é indiscernível da
dos filhos da terra.
António Conceição Jr. representa, por si só, a personalidade colectiva
dos macaenses, a nação mergulhada no complexo interior de um só Homem,
a suprema contingência do ser e do viver nas dobras da história. Nele
tem lugar a criatividade conjugada no plural, produto de uma
sensibilidade plurifacetada, de uma personalidade multiforme.
Dotado de um invulgar talento e apoiado por uma cultura vastíssima,
fruto de uma reflexão sofrida sobre as suas complexas origens e os
seus amplexos destinos, António Conceição Jr. atingiu hoje a plena
maturidade do filósofo, que em tudo descortina significado, e a do
artista que nas mais ínfimas coisas lobriga beleza.
Ele é do melhor que Macau hoje lega ao Mundo, de uma estirpe que
nenhuma outra nação, por mais poderosa ou rica, desdenharia albergar
no seu íntimo. É o macaense no superlativo.
António Conceição Jr. é um aristocrata da cultura e um cidadão
universal, que realiza, ao seu modo singular, a gesta macaense,
igualmente singular. Uma meta-singularidade feita de paixão e brocada
a ternura… pela sua terra, pela sua história, pelas suas gentes, pela
sua aleatória condição.
Ele pertence a essa raça especial do Homo Creator. Uma estirpe de
homens que não foram feitos para imitar. O seu reino é o da
irrequietude, o da permanente criação. O seu diálogo com o mundo é
sempre pioneiro, feito daquela vigília activa que prenuncia a irrupção
produtiva a qualquer momento.
Elegante no fazer e eloquente no dizer, tudo reunindo no dizer fazendo
ou no fazer dizendo, a sua devoção à obra é total, convocando entrega,
devoção e plenitude.
Conhecer o Artista é um privilégio. Falar com o Homem é um prazer.
Disfrutar a sua Criatividade é um acto de cultura. Trocar ideias com a
Pessoa é uma fonte de inspiração. Partilhar projectos com o
impenitente Sonhador é revigorar a Esperança. Conviver com a Família é
perceber a fortaleza.
Agradeço a Deus o ter-me proporcionado o Dom de o encontrar.
Agradeço a Macau a generosidade de aceitar partilhar essa pérola
humana, comigo e com o Mundo.
Agradeço ao António Conceição Jr. tudo o que me tem dado e ensinado.
A sua obra perdurará pelos tempos fora, como inestimável dádiva
macaense a benefício do património da humanidade.
Roberto Carneiro,
13 de Setembro de 1998. |
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