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Nunca esquecerei aquele dia de 1978 em que
entrou no meu gabinete de administrador da Fundação Gulbenkian um jovem
macaense, chamado António Conceição Júnior, que pedira para ser recebido
na qualidade de conservador do Museu Luís de Camões de Macau.
Aparentemente era mais uma das numerosas entrevistas a que me obrigava a
minha qualidade de administrador do pelouro das Belas-Artes: alguém que
vinha pedir um subsídio qualquer, mais um…
Mas não era nada disso. O jovem vinha apresentar e propor um projecto
muito mais exigente: nem mais nem menos que a organização na Fundação
Gulbenkian de uma Quinzena de Macau que revelasse a Portugal, não apenas
as colecções de arte do Museu (descritas como preciosas), mas, mais
geralmente, toda uma cultura e uma história que o país desconhecia por
tê-las esquecido.
Durante muito tempo me perguntei que espécie de milagre me terá levado a
aderir desde logo a uma ideia que, em condições normais, teria encarado
com o snobismo próprio da rotina empedernida. Vejo hoje que a
autenticidade entusiasta do meu visitante fez vibrar dentro de mim o toque
avisador de que se tratava de algo muito ambicioso, sem dúvida, mas de
importância incomparável. E de tal modo me convenceu que, seguindo um
procedimento um tanto inusitado, eu próprio propus ao Presidente da
Fundação, Doutor Azeredo Perdigão, que recebesse o impetrante. Lá fomos os
dois falar com ele, e o António Conceição Júnior tanto o aliciou a ele
como a mim me seduzira.
Facto é que, poucos meses depois, o Doutor Perdigão e eu visitámos Macau e
verificámos in loco a riqueza que era mister revelar. E a Quinzena de
Macau realizou-se com assinalável êxito – êxito em grande parte devido à
excepcional capacidade de organização daquele jovem idealista e realizador
-, dando início a um apoio da Fundação à renovação do próprio Museu Luís
de Camões.
Esta é, digamos assim, a narração do ponto de partida de uma importante e
frutuosa relação institucional – mas essa relação institucional logo
passou a ser mais, a ser muito mais que isso. Porque daquela entrevista
que num impreciso dia de 1978 tive com o António Conceição Júnior nasceu o
que para mim foi e é motivo de renovada alegria: uma amizade de mais de
trinta anos e uma admiração sempre acrescida pela sua qualidade pessoal e
pelos seus incomparáveis e multifacetados talentos de artista.
Sucessivamente, depois de o ter conhecido como incansável dinamizador e
impecável organizador da Quinzena de Macau, fui descobrindo ao longo dos
anos os seus surpreendentes dotes artísticos. A pouco e pouco, e
inesperadamente, foi-se-me revelando o pintor, o fotógrafo, o designer de
moda, de medalhas, de grafias, de variadas coisas; foi-se-me revelando o
homem de imaginação e de cultura que ele é. E foi a amizade cúmplice que
nos une, casada com uma admiração sempre crescente, que me levou uma ou
outra vez, a escrever sobre ele. Mas tenho consciência de que nunca - nem
nesses textos passados nem neste que aqui deixo - ficou plenamente
expressa a minha admiração, a minha amizade, a minha gratidão.
Janeiro de 2011
Pedro Tamen |